Manejo do solo pode elevar produtividade da cana a 100 TCH
Estratégia combina perfil do solo, nutrição e práticas biológicas
Elevar a produtividade dos canaviais sem aumentar a dependência de anos climaticamente favoráveis passa pela construção de ambientes de produção mais estáveis. A avaliação é de André Cesar Vitti, pesquisador científico da APTA/IAC, que defende uma mudança no manejo para ampliar o potencial produtivo e a longevidade da cana-de-açúcar.
Durante o 20º Grande Encontro sobre Variedades de Cana & Novas Técnicas de Fertilização, realizado em setembro, em Ribeirão Preto – SP, Vitti apresentou como referência agronômica a passagem dos atuais 75 a 80 toneladas de cana por hectare (TCH), observados em determinados ambientes, para uma faixa próxima de 95 a 100 TCH.
A proposta não está associada a uma tecnologia isolada. O ponto de partida é o manejo básico, que envolve preparo adequado do solo, época de plantio e colheita, alocação varietal e controle de pragas, doenças e plantas daninhas. A partir dessa estrutura, entram práticas como irrigação, uso de vinhaça e torta de filtro, rotação de culturas, construção do perfil abaixo da camada arável, adubação foliar, bioestimulantes e modernização do plantel varietal.
O desafio ganhou importância diante da maior instabilidade entre safras. Segundo Vitti, veranicos mais frequentes e períodos de temperaturas elevadas têm dificultado a manutenção da produtividade, principalmente em solos com limitações químicas, físicas ou biológicas.
“Não podemos ficar habituados e ficar contentes em relação àquele potencial que foi estabelecido no ambiente de produção. Nós podemos avançar”, afirmou.
Solo exige decisões diferentes de manejo
Dados apresentados pelo pesquisador mostram que áreas submetidas às mesmas condições climáticas podem apresentar comportamentos bastante distintos. Em exemplos acompanhados entre 2023 e 2026, alguns produtores mantiveram a produtividade próxima ou acima de 90 TCH mesmo nos anos mais restritivos, enquanto outros registraram quedas mais acentuadas.
Parte dessa diferença está relacionada às características do solo e à condição do perfil explorado pelas raízes. Em um levantamento apresentado por Vitti, solos com melhores condições químicas e menor resistência à penetração mantiveram produtividades superiores em anos adversos. Em 2025, por exemplo, os resultados variaram de 27 a 75 sacas por hectare no experimento utilizado para demonstrar a influência do ambiente sobre a resposta das plantas.
Por isso, a estratégia começa pelo diagnóstico. Além da fertilidade, devem ser considerados compactação, profundidade do sistema radicular, disponibilidade de água e eventuais impedimentos biológicos.
A construção do perfil físico e químico aparece como uma das bases do manejo. A recomendação é avaliar a necessidade de cada operação antes de realizá-la. A descompactação, por exemplo, deve ser adotada onde houver impedimento, seguida de medidas para reduzir novo pisoteio das linhas, como controle de tráfego com GPS e piloto automático. Na correção química, a avaliação deve alcançar também as camadas abaixo da superfície.
“Planejar custa pouco e executar custa muito”, disse ao defender que preparo, correção e incorporação de insumos sejam definidos a partir das condições de cada área.
Um dos exemplos apresentados reforça essa diferença. Em uma propriedade, a necessidade de calagem chegou a 13,7 toneladas por hectare em determinado solo, enquanto outra condição analisada não exigia aplicação. Para Vitti, uniformizar operações em áreas com características distintas pode elevar custos sem necessariamente gerar resposta agronômica.
Raiz profunda amplia reserva de água
O desenvolvimento radicular também interfere na capacidade da cultura de atravessar períodos de déficit hídrico. Nos exemplos apresentados, a água disponível variou de 47 milímetros, em um perfil explorado até 55 centímetros, a 107 milímetros em outro com raízes chegando a um metro de profundidade. Outros dois solos armazenavam 50 e 90 milímetros.
A profundidade explorada pelas raízes amplia a reserva de água acessível à planta e pode reduzir a exposição do canavial aos efeitos dos veranicos.
A matéria orgânica e a atividade biológica compõem outra frente do manejo. Vitti citou o aproveitamento de torta de filtro, vinhaça, compostagem e culturas de rotação, além do uso de bioinsumos e bioestimulantes. A escolha, porém, deve considerar as características de cada ambiente e os problemas presentes na área.
O pesquisador mostrou, por exemplo, que o estoque de fósforo varia conforme a textura. Em solos muito argilosos, com mais de 60% de argila, o estoque estimado fica entre 600 e 1.800 quilos de fósforo por hectare. Em solos muito arenosos, com menos de 15% de argila, varia de 50 a 200 quilos. Entre as estratégias para acessar parte desse reservatório estão inoculantes solubilizadores de fósforo, fungos micorrízicos e plantas de cobertura com capacidade de ciclagem, como braquiárias, milheto, crotalárias e guandu.
A nutrição completa essa estratégia com aplicações orientadas por mapas de solo, fertilidade e diagnose foliar. A lógica é direcionar corretivos e nutrientes às áreas que efetivamente apresentam necessidade, em vez de repetir uma mesma intervenção em toda a propriedade.
Combinação de práticas abre espaço para ganho de TCH
Na estimativa apresentada pelo pesquisador, diferentes ferramentas oferecem faixas distintas de resposta. A aplicação de vinhaça em área total pode acrescentar de 4 a 10 toneladas por hectare, enquanto torta ou composto aparece com potencial de 3 a 6 toneladas. Para rotação com soja, a faixa considerada é de 2 a 4 toneladas; com crotalárias, de 4 a 8 toneladas; e, para adubação foliar e bioinsumos, de 2 a 10 toneladas por hectare.
A formação do perfil do solo foi associada a ganhos de 6 a 8 toneladas por hectare, enquanto a irrigação de salvamento aparece com potencial de até 8 toneladas. Épocas de plantio e corte também entram no planejamento, com respostas que variam conforme ambiente e condições da área.
Os efeitos, contudo, não devem ser simplesmente somados. Na combinação de diferentes práticas, Vitti adotou como referência prática um incremento médio de cerca de 20 TCH, justamente para considerar limitações como disponibilidade hídrica e a ausência de respostas sinérgicas entre determinadas tecnologias.
A apresentação mostra que combinações sem irrigação por gotejamento foram estimadas em ganhos médios entre 9 e 20 toneladas por hectare, dependendo das práticas adotadas.
Vigor das soqueiras define longevidade
Um experimento de longa duração com adubação nitrogenada, conduzido por mais de 12 anos, registrou média de 80 TCH no tratamento sem nitrogênio e de 94, 102 e 103 TCH nos tratamentos com doses crescentes do nutriente nas soqueiras. O trabalho reúne 12 ciclos consecutivos, entre cana-planta e 11 socas.
Os resultados variaram entre os anos. Na safra 2021/22, marcada pela seca, não houve resposta significativa à adubação nitrogenada. Em outros ciclos, inclusive após anos sem aplicação, o experimento registrou efeito residual dos tratamentos.
Na apresentação, Vitti resumiu o manejo em duas etapas: a cana-planta precisa “começar bem” e a cana-soca, “continuar bem”. No experimento, a maior média ao longo dos 12 ciclos foi de 103 TCH, no tratamento que recebeu 180 quilos de nitrogênio por hectare nas soqueiras.
Compartilhe este artigo:
Veja também:
IA ganha espaço na agricultura
Você também pode gostar
Confira os artigos relacionados: