Embrapa propõe novo cálculo para impacto de herbicidas na água
Modelo aplicado à cana amplia estimativa da pegada hídrica e traz recomendações para o manejo
Um novo método desenvolvido pela Embrapa identificou que o impacto de herbicidas sobre os recursos hídricos pode ser significativamente maior quando se considera a ocorrência conjunta dos produtos na água. Aplicado à cana-de-açúcar, o modelo chegou a uma estimativa de pegada hídrica cinza 116 vezes superior à obtida pelo cálculo convencional.
A pesquisa avaliou 17 herbicidas pertencentes a sete grupos de classificação do Comitê de Ação contra a Resistência a Herbicidas (HRAC). Diferentemente do método tradicional, que analisa cada produto de forma isolada, a nova abordagem considera os mecanismos de ação e os possíveis efeitos conjuntos sobre organismos aquáticos.
A pegada hídrica cinza representa o volume hipotético de água necessário para diluir poluentes até concentrações consideradas seguras. No campo, parte dos defensivos aplicados pode ser transportada pela chuva até rios e córregos ou infiltrar-se no solo e alcançar águas subterrâneas, permitindo que resíduos de diferentes produtos ocorram simultaneamente nesses ambientes.
Segundo Lourival Paraíba, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente responsável pelo trabalho, o indicador também começa a ganhar espaço nas exigências de certificação. “Para os produtores de cana, isso é relevante porque as certificações internacionais, inclusive as que habilitam a exportação de etanol, já começam a exigir esse cálculo”, afirma.
Novo modelo eleva estimativa da pegada hídrica
Pelo método tradicional, conhecido como H-model, a pegada hídrica cinza total calculada para os 17 herbicidas chegou a 49,5 bilhões de metros cúbicos. Com a metodologia proposta pela Embrapa, o resultado alcançou 5,74 trilhões de metros cúbicos.
A diferença está na forma como os produtos são avaliados. O novo modelo incorpora a ocorrência conjunta dos herbicidas nos recursos hídricos e dados de toxicidade para algas, crustáceos e peixes. Em 95% das simulações realizadas no estudo, a diferença em relação ao cálculo tradicional ficou entre 69 e 195 vezes.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores combinaram a classificação HRAC com princípios utilizados na avaliação toxicológica de misturas. Produtos que atuam sobre o mesmo mecanismo biológico podem ter seus efeitos somados, enquanto aqueles com mecanismos diferentes são analisados de acordo com sua atuação independente.
A pesquisa também utilizou 10 mil simulações de Monte Carlo para incorporar variáveis sujeitas a incertezas, entre elas a toxicidade dos produtos, o escoamento provocado pelas chuvas e a degradação dos herbicidas no solo.
Escolha dos herbicidas pode reduzir pressão sobre a água
Um dos principais resultados foi a influência da quantidade de herbicidas pertencentes ao mesmo grupo de mecanismo de ação. Entre os sete grupos avaliados, aquele formado por ametrina, diurom, hexazinona, metribuzim, tebutiurom e amicarbazona predominou em 99,7% das simulações.
Segundo Paraíba, quanto maior o número de produtos de um mesmo grupo, maior pode ser o impacto acumulado. A conclusão abre espaço para ajustes no manejo capazes de reduzir a pegada hídrica sem necessariamente comprometer o controle de plantas daninhas.
Entre as recomendações apresentadas pelo estudo está a priorização, quando tecnicamente adequada, de herbicidas pertencentes a grupos HRAC menores ou isolados. Glifosato, isoxaflutol e clomazona aparecem na pesquisa entre os produtos associados a menor impacto sobre a água.
Outra orientação é evitar a combinação de dois ou mais herbicidas pertencentes ao mesmo grupo HRAC em uma aplicação. Quando determinado mecanismo de ação for necessário, a recomendação é utilizar apenas um representante daquele grupo, sempre dentro de um manejo integrado e com orientação agronômica.
“Essas três regras têm o potencial de reduzir substancialmente a pegada hídrica cinza sem comprometer o controle de plantas daninhas, desde que o manejo integrado seja feito com critério e com orientações agronômicas”, afirma Paraíba.
Método pode ser levado a outras culturas
Embora a análise tenha sido realizada com produtos utilizados na cana-de-açúcar, a metodologia pode ser aplicada a outras culturas que utilizam diferentes herbicidas. Soja, milho, algodão e café estão entre os exemplos citados pelo pesquisador.
O trabalho também aponta a possibilidade de atualização dos protocolos adotados em sistemas de certificação agrícola para incorporar os efeitos da ocorrência conjunta dos produtos sobre organismos aquáticos.
“A água é um bem compartilhado. O herbicida que o produtor aplica em sua lavoura hoje pode estar no rio que abastece uma cidade a quilômetros de distância amanhã. Isso não é uma acusação, é uma realidade física”, afirma Paraíba.
O estudo Probabilistic Comparisons of Grey Water Footprint Models for Herbicide Mixtures in Brazilian Sugarcane foi publicado na revista científica Environmental Science and Pollution Research, da Springer, com acesso aberto por meio de parceria entre o Portal de Periódicos da Capes e a Embrapa.
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