Custos de combustíveis podem elevar piso do açúcar global
Alta do petróleo e decisões da Petrobras influenciam o etanol
A dinâmica do mercado de energia voltou ao centro das atenções do setor sucroenergético e pode redefinir o piso de preços do açúcar no mercado internacional. Segundo análise da Hedgepoint Global Markets, a alta do petróleo e eventuais decisões da Petrobras sobre o repasse de custos de importação de combustíveis têm potencial de alterar a competitividade do etanol no Brasil e influenciar diretamente o mix de produção das usinas do Centro-Sul.
Atualmente, cerca de 15% do consumo de gasolina no país é suprido por importações. Com o petróleo em alta, o custo de aquisição externa aumenta e tende a pressionar os preços domésticos. Caso haja repasse desses custos ao consumidor final, o etanol ganha competitividade frente à gasolina, incentivando maior produção de biocombustíveis.
O comportamento dos combustíveis passa a atuar como variável central para a formação de preços no setor sucroenergético. Com maior competitividade do etanol, as usinas tendem a reduzir o mix açucareiro, limitando a oferta do adoçante no mercado internacional e sustentando o piso de preços.
Esse movimento reforça a correlação entre os mercados de energia e açúcar, especialmente em momentos de maior volatilidade no petróleo e incertezas sobre a política de preços domésticos.
Cenários mostram variação de até 2,7 centavos por libra
Em exercício de sensibilidade, a Hedgepoint simulou três cenários que evidenciam a influência da paridade entre gasolina e etanol sobre o piso do açúcar. No primeiro, sem repasse de custos pela Petrobras, o etanol hidratado nas usinas equivale a cerca de 17,4 centavos de dólar por libra-peso em equivalente-açúcar, funcionando como referência para o direcionamento da produção.
No segundo cenário, em que o etanol precisa ser competitivo na maior parte dos estados para estimular a demanda e absorver excedentes, o piso do açúcar recua para 13,5 centavos de dólar por libra ex-mill em São Paulo, o menor patamar entre as simulações.
Já no terceiro cenário, com repasse integral dos custos de importação de combustíveis, o piso sobe para 16,2 centavos de dólar por libra. A diferença entre os extremos chega a 2,7 centavos por libra, evidenciando a sensibilidade do mercado às decisões de política de preços.
Segundo a consultoria, caso haja repasse de custos sem ajuste na paridade de consumo, o etanol hidratado pode superar o nível de 17,4 centavos de dólar por libra-peso, reforçando ainda mais sua competitividade frente ao açúcar.
Volatilidade recente reflete fatores geopolíticos
Nas últimas semanas, o mercado internacional de açúcar registrou forte volatilidade, impulsionado por tensões geopolíticas no Oriente Médio, interrupções logísticas e incertezas macroeconômicas. Os preços chegaram a subir com compras de fundos e cobertura de posições vendidas, mas o movimento perdeu força à medida que os fundamentos voltaram a prevalecer.
“Os preços do açúcar dispararam no início da semana passada devido às compras de fundos e cobertura de posições vendidas ligadas aos riscos no Oriente Médio, aos preços mais altos do petróleo e a interrupções logísticas, mas rapidamente reverteram a tendência, já que o movimento foi em grande parte técnico e os fundamentos continuam apontando para um excesso de oferta global”, afirma Lívea Coda, coordenadora de Inteligência de Mercado da Hedgepoint.
“Ainda assim, se a força no complexo energético persistir, o piso do preço do açúcar pode se tornar mais altista. Preços mais firmes dos derivados de petróleo podem elevar o combustível doméstico no Brasil, fortalecendo a competitividade do etanol e influenciando diretamente as decisões de produção das usinas”, acrescenta.
Nesse ambiente, a política de preços de combustíveis no Brasil passa a ser um dos principais vetores para o piso do açúcar, ao influenciar a alocação de cana entre açúcar e etanol ao longo da safra.
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