Etanol avança sobre o açúcar e busca espaço além dos postos
DATAGRO projeta alta de 10,4% na produção e aponta novos mercados.
O avanço da produção de etanol e a abertura de mercados fora do transporte convencional devem influenciar as estratégias do setor sucroenergético nos próximos anos. A DATAGRO projeta crescimento de 10,4% na fabricação do combustível no Centro-Sul na safra 2026/27, para 37,21 bilhões de litros, enquanto a produção de açúcar deverá recuar 5%, para 38,42 milhões de toneladas. As estimativas foram apresentadas na 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, realizada nestaa segunda-feira (26) e terça-feira (27), em São Paulo – SP.
O encontro reuniu mais de 1.500 participantes, entre produtores de cana-de-açúcar, representantes de usinas, executivos da indústria automotiva, agentes financeiros e autoridades. Ao longo de mais de 16 horas de programação, os debates abordaram perspectivas de safra, mercado internacional, políticas públicas, inovação tecnológica, financiamento e alternativas para reduzir as emissões de carbono.
Na abertura, o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, afirmou que o etanol substituiu 52,2% da gasolina consumida no Brasil nos dois meses anteriores ao evento. O deputado federal Arnaldo Jardim ressaltou o papel do combustível na segurança energética, diante das oscilações do mercado de petróleo, enquanto Evandro Gussi, da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), apontou oportunidades de expansão na aviação e no transporte marítimo.
Safra maior enfrenta incertezas climáticas
A projeção da DATAGRO considera moagem de 640,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar no Centro-Sul, volume 4,8% superior ao registrado no ciclo anterior. O crescimento esperado para o etanol decorre da maior destinação de matéria-prima às destilarias e da expansão da produção a partir do milho.
Segundo Nastari, as chuvas em São Paulo têm atrasado a colheita e o processamento da cana, embora favoreçam o desenvolvimento dos canaviais. Essas condições poderão elevar o volume de matéria-prima que permanecerá no campo para a safra 2027/28, ampliando a disponibilidade de cana bisada no próximo ciclo.
No mercado internacional, o diretor-executivo da Organização Internacional do Açúcar (OIA), José Orive, criticou os subsídios concedidos por países produtores, especialmente os mais industrializados. Ele citou mais de US$ 15 bilhões destinados ao setor açucareiro dos Estados Unidos e US$ 33,6 bilhões à cadeia americana de etanol de milho.
Na avaliação de Orive, esses mecanismos distorcem a concorrência ao favorecer atividades sustentadas por recursos fiscais, em vez de ganhos de eficiência. O executivo defendeu investimentos em produtos de maior valor agregado e observou que choques nas cotações do petróleo podem ampliar as oportunidades para os combustíveis renováveis.
Mercado futuro de açúcar amplia posições compradas
As expectativas sobre os possíveis efeitos do El Niño na safra brasileira também influenciaram as negociações de açúcar na Bolsa de Nova York (ICE). Fundos especulativos ampliaram suas posições líquidas compradas, movimento que reflete apostas em condições de oferta mais restritas.
De acordo com Jeremy Austin, diretor da Sucden, o volume passou de aproximadamente 100 mil contratos no fim de agosto para mais de 200 mil em outubro, equivalentes a cerca de 15 milhões de toneladas de açúcar.
Paulo Garcia, da Vital Commodities, alertou para o risco de formação de uma bolha especulativa. Mario de Rezende Barbosa, da Louis Dreyfus Company (LDC), apontou a redução da produção europeia como outro fator de sustentação das cotações internacionais.
Biometano e captura de carbono ganham espaço na indústria
A busca por processos industriais com emissões líquidas de carbono próximas de zero ou negativas foi discutida por empresas e instituições de pesquisa. A Cocal apresentou iniciativas de aproveitamento de subprodutos da cana-de-açúcar e uso de biometano em sua frota, enquanto a FS abordou projetos de descarbonização industrial e obstáculos regulatórios e metodológicos para comprovar a redução de emissões.
A indiana Mist Ressonance Engineering destacou tecnologias voltadas ao aumento da eficiência produtiva. Já a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apresentou alternativas como captura e armazenamento de carbono associado à bioenergia, conhecida pela sigla BECCS, produção de biocarvão e aperfeiçoamento da contabilização das mudanças no uso da terra.
A adoção dessas soluções depende não apenas de investimentos industriais, mas também de metodologias capazes de medir os resultados ambientais e permitir sua utilização em mecanismos de valorização do carbono.
Etanol chega às colhedoras e ao transporte pesado
A substituição parcial do diesel por etanol em máquinas agrícolas já apresenta resultados em aplicações específicas. Segundo a Bosch, uma tecnologia acoplada aos motores permite substituir, em média, 40% do combustível fóssil utilizado em colhedoras de cana-de-açúcar.
A John Deere também realiza testes de campo para avaliar desempenho e viabilidade econômica de equipamentos abastecidos com biocombustíveis. A Grunner, por sua vez, desenvolve com parceiros caminhões destinados ao transbordo de cana movidos a etanol e biometano, que já estão em operação comercial.
As iniciativas ampliam as possibilidades de consumo de combustíveis renováveis dentro da própria cadeia produtiva sucroenergética, especialmente em atividades agrícolas e logísticas tradicionalmente dependentes do diesel.
Aviação e transporte marítimo abrem novas frentes
A ampliação da oferta de combustível sustentável de aviação (SAF) foi outro tema da conferência. Darlan Silva dos Santos, coordenador de Assuntos de Combustíveis Sustentáveis de Aviação do Ministério de Minas e Energia (MME), destacou que a Lei do Combustível do Futuro prevê metas de redução de emissões para o setor aéreo a partir de 2027, começando em 1%.
Entre os mecanismos discutidos esteve o Book & Claim, que permite separar a comercialização dos atributos ambientais do consumo físico do combustível, criando alternativas para financiar a descarbonização. Segundo estimativa apresentada pela KPMG, a transformação do setor poderá exigir investimentos entre US$ 1 trilhão e US$ 1,5 trilhão até 2050.
Na navegação marítima, o potencial de crescimento do consumo de etanol brasileiro foi abordado pelos almirantes José Augusto da Cunha de Menezes e Claudio Mello. Ambos destacaram a experiência nacional na produção do combustível, mas ressaltaram que o avanço depende das negociações regulatórias conduzidas pela Organização Marítima Internacional (OMI).
A expansão também exigirá articulação entre governo, produtores, armadores e operadores portuários, além de investimentos em infraestrutura e adaptações tecnológicas para viabilizar o abastecimento das embarcações.
Governo prevê testes para elevar mistura de etanol a 35%
O Ministério de Minas e Energia pretende publicar até o fim de novembro a portaria que estabelecerá os procedimentos para testar a ampliação da mistura de etanol anidro na gasolina para 35%, conhecida como E35.
Segundo Marlon Arraes, diretor da pasta, os ensaios deverão começar em janeiro de 2027 e ser concluídos até meados do ano. Os estudos avaliarão a durabilidade dos motores, a compatibilidade dos veículos e as condições dos sistemas de distribuição.
O governo também prepara um projeto de lei voltado aos combustíveis sustentáveis para a navegação marítima, cuja apresentação está prevista até o encerramento de 2026. A proposta integra as discussões sobre a criação de condições regulatórias para ampliar a participação de fontes renováveis no transporte.
Híbridos flex reforçam estratégia de eletrificação
A combinação entre etanol e eletrificação foi apontada como uma alternativa para reduzir as emissões do transporte brasileiro. João Irineu Medeiros, vice-presidente de Assuntos Regulatórios da Stellantis América do Sul, afirmou que um veículo híbrido flex abastecido com etanol pode emitir menos gases de efeito estufa ao longo de seu ciclo de vida do que um automóvel elétrico europeu.
Segundo o executivo, 55% das emissões do setor automotivo estão relacionadas à fabricação dos veículos e 45% à fonte de energia utilizada durante sua vida útil. Ele também observou que muitos consumidores continuam escolhendo gasolina mesmo em localidades onde o etanol oferece vantagem econômica, em parte por desconhecimento de suas características.
Representantes da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), da BYD e da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) avaliaram que a experiência brasileira com motores flex e as características da matriz energética nacional favorecem a integração dessas tecnologias.
Os participantes ressaltaram, contudo, que a expansão depende de segurança regulatória, escala de produção e competitividade industrial. O reaproveitamento e a reciclagem das baterias após o fim de sua vida útil também foram apontados como desafios.
Em outro debate, dirigentes de associações e entidades representativas do setor sucroenergético apresentaram avaliações sobre o cenário da atividade e os pontos que exigem atenção dos agentes da cadeia produtiva.
El Niño pode afetar PIB do agronegócio em 2027
Os riscos climáticos e macroeconômicos também entraram na avaliação das perspectivas para o próximo ano. Cristiano Oliveira, diretor-executivo do Banco Pine, projetou que o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro poderá recuar em 2027 em razão dos possíveis impactos do El Niño.
Segundo o executivo, o fenômeno pode reduzir a área plantada e a produtividade média, além de provocar perdas em determinadas culturas e regiões. Oliveira também avaliou que 2027 deverá apresentar dificuldades para as economias brasileira e global, com expectativa de melhora em 2028.
No cenário internacional, o representante do banco apontou geopolítica, inteligência artificial, mudanças demográficas, transição energética e novos modelos financeiros entre os fatores que deverão influenciar a atividade econômica nos próximos anos.
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