Queda dos preços marca o mercado de açúcar em 2025 apesar da oferta restrita
Análises do Cepea mostram desvalorização ao longo do ano mesmo com limitações produtivas no Brasil e no exterior
As análises mensais referentes ao mês de dezembro, elaboradas por pesquisadores do Cepea, indicam que o mercado de açúcar contrariou as expectativas de preços elevados em 2025. Ao longo do ano, as cotações recuaram de forma expressiva nos mercados interno e externo, mesmo em um contexto de disponibilidade limitada do produto.
No mercado doméstico, os preços começaram o ano em patamares elevados. Em janeiro, o Indicador CEPEA ESALQ registrava R$ 154,98 por saca de 50 quilos. Com o início da safra 2025 26, em abril, iniciou-se um movimento consistente de queda. A média do indicador recuou para R$ 141,36 por saca no começo da moagem e seguiu em trajetória descendente até alcançar R$ 105 por saca no fim de novembro, o menor valor nominal desde abril de 2021. Apesar da forte desvalorização, o recuo não refletiu excesso de oferta. A disponibilidade seguiu restrita, sobretudo para o açúcar de melhor qualidade, como o tipo Icumsa 150, direcionado majoritariamente às exportações.
Exportações menores e receita em queda
Em 2025, o Brasil exportou 33,778 milhões de toneladas de açúcar e melaço, retração de 11,66 por cento em relação às 38,237 milhões de toneladas embarcadas em 2024, segundo dados da Secex. A receita acompanhou o movimento, com queda de 24,12 por cento, passando de US$ 18,602 bilhões para US$ 14,116 bilhões.
A combinação de uma safra nacional menor e preços internacionais menos remuneradores explica o desempenho mais fraco das exportações brasileiras. Ainda assim, o mercado interno manteve prêmio sobre as vendas externas. Em setembro, o spot paulista remunerava 9,17 por cento acima dos embarques, considerando custos de fobização e o câmbio vigente, o que incentivou usinas a priorizar o abastecimento doméstico.
Cenário internacional pressiona cotações
No mercado internacional, os contratos negociados na ICE Futures iniciaram 2025 entre 18 e 19 centavos de dólar por libra peso. Em novembro, atingiram os menores níveis em cinco anos, ao redor de 14 centavos de dólar, acumulando queda superior a 24 por cento.
O balanço global também mudou de sinal. O déficit estimado em 2,9 milhões de toneladas na safra 2024 25 deu lugar a um superávit projetado entre 1,6 milhão e 3,7 milhões de toneladas em 2025 26, o maior desde 2017 18. Segundo a Organização Internacional do Açúcar, a produção mundial deve alcançar 181,7 milhões de toneladas, impulsionada pela recuperação das safras na Índia, Tailândia e Paquistão. O consumo, por sua vez, cresce em ritmo mais moderado, ampliando o excedente disponível.
Clima adverso e perdas produtivas no Brasil
No Brasil, o Centro Sul enfrentou o pior déficit hídrico em 25 anos. Ao longo da safra 2024 25, o volume de chuvas ficou em torno de 500 milímetros, bem abaixo dos 1.176 milímetros registrados na temporada anterior. Somam-se a esse quadro os incêndios ocorridos entre agosto e setembro de 2024, que atingiram entre 180 mil e 450 mil hectares de canaviais e cujos efeitos se estenderam por todo o ano seguinte.
A qualidade da cana foi afetada, com redução do ATR e menor capacidade de rebrota. A produtividade média nacional caiu para 77,2 toneladas por hectare, recuo de 9,8 por cento frente ao ciclo anterior. Outro fator relevante foi a disseminação da síndrome da murcha da cana, um complexo de doenças fúngicas que atingiu cerca de 30 por cento das áreas cultivadas, com perdas que chegaram a 45 por cento em algumas regiões. A identificação do fungo Colletotrichum spp. pelo Centro de Tecnologia Canavieira, em setembro de 2025, abriu caminho para estratégias de manejo mais eficazes e o desenvolvimento de variedades resistentes.
Nordeste opera com oferta restrita e baixa liquidez
No Nordeste, o mercado spot iniciou 2025 em ritmo lento, com parte das usinas priorizando exportações. Em Pernambuco, os preços se mantiveram estáveis, enquanto Alagoas e Paraíba registraram leve recuo. Em fevereiro, a Paraíba concentrou os maiores volumes negociados no mercado doméstico.
Com o avanço da safra 2025 26 no Centro Sul, compradores nordestinos passaram a adquirir açúcar de outras regiões, especialmente de Goiás. Entre maio e junho, durante a entressafra regional, a oferta restrita e a demanda enfraquecida mantiveram o mercado pouco dinâmico. Em julho, a lentidão persistiu com o fim da entressafra e estoques reduzidos nas usinas.
Na Paraíba, o encerramento da safra 2024 25 foi positivo, com moagem de 7,406 milhões de toneladas de cana, crescimento de 1 por cento. A produção de açúcar avançou 28 por cento, para 293.437 toneladas. Ainda assim, a disponibilidade seguiu limitada, com foco na produção de VHP. A safra 2025 26 começou com atrasos devido às chuvas, que beneficiaram o desenvolvimento das lavouras, mas prejudicaram a colheita e interromperam operações industriais.
No balanço geral, a nova temporada iniciou com cotações nominais inferiores às do ciclo anterior e maior volatilidade nos primeiros meses, refletindo o aumento gradual da oferta nacional e a intensificação da concorrência no mercado interno.
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