Expansão do etanol de milho no Brasil altera dinâmica de preços do açúcar
Oferta cresce mais rápido que a demanda no curto e médio prazo
O rápido crescimento da produção de etanol de milho no Brasil começa a gerar preocupações sobre um possível desequilíbrio estrutural no mercado doméstico de biocombustíveis e seus efeitos indiretos sobre o setor sucroenergético global.
Segundo estudo da RaboResearch, braço de análise do Rabobank, a expansão da capacidade instalada deve avançar mais rapidamente do que o consumo no curto e médio prazo, criando um ambiente de risco para os preços do etanol e, por consequência, para o açúcar.
De acordo com o relatório, a indústria de etanol de milho passou, em pouco mais de uma década, de um papel marginal para uma produção estimada em cerca de 10 bilhões de litros na safra 2025/26, utilizando aproximadamente 23 milhões de toneladas de milho. A perspectiva é que esse crescimento continue, sustentado por um modelo de negócios considerado robusto e competitivo.
Capacidade cresce mais rápido do que a demanda
A análise do Rabobank indica que, considerando projetos já autorizados pela Agência Nacional do Petróleo e iniciativas anunciadas por grupos consolidados, a capacidade operacional de produção de etanol a partir de milho e outros cereais pode atingir até 16 bilhões de litros anuais até o fim de 2028. Projeções de mercado apontam volumes ainda maiores no início da próxima década.
O problema, segundo o estudo, é que a demanda tende a crescer em ritmo mais lento. Medidas como o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 30 por cento em 2025 trouxeram alívio pontual ao mercado, elevando o consumo em até 1,5 bilhão de litros por ano. No entanto, novas expansões desse tipo podem não ser suficientes para absorver o aumento projetado da oferta.
Risco de pressão sobre preços e efeito cascata no açúcar
Com um eventual excesso de etanol no mercado doméstico, os preços do biocombustível podem sofrer pressão. Nesse cenário, as usinas brasileiras, que têm flexibilidade para ajustar o mix de produção, tenderiam a direcionar mais cana para a fabricação de açúcar, buscando melhores margens.
Esse movimento pode ampliar a oferta global do adoçante e levar os preços internacionais a níveis próximos da paridade com o etanol, avalia o Rabobank. Para 2026, a expectativa de uma safra de cana abundante no Brasil já pode ter antecipado parte desse efeito nos mercados futuros.
Demanda futura depende de mudanças estruturais
O relatório aponta que há caminhos potenciais para um crescimento mais robusto da demanda de etanol, mas a maior parte deles se concentra no longo prazo. A reforma tributária sobre combustíveis, prevista para avançar a partir de 2029, pode tornar o etanol hidratado mais competitivo em regiões onde hoje o consumo é limitado. Além disso, o interesse crescente por combustíveis sustentáveis na aviação e no transporte marítimo abre espaço para o uso do etanol como insumo, especialmente a partir da próxima década.
Até lá, porém, o ritmo acelerado de entrada de novas plantas de etanol de milho tende a manter o mercado em atenção. Segundo o Rabobank, embora eventos climáticos ou uma alta nos preços do petróleo possam alterar esse quadro, o cenário-base recomenda cautela, já que mudanças relevantes no mercado brasileiro de etanol têm potencial para impactar produtores de açúcar em todo o mundo.
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