Margens das usinas recuam, mas setor amplia proteção financeira
Análise do Rabobank aponta maior liquidez e desafios para novos investimentos
A redução das margens operacionais das usinas na safra 2025/26 foi acompanhada pelo aumento das reservas de caixa e do endividamento de empresas do setor sucroenergético. O movimento ocorreu em um cenário de preços mais baixos do açúcar e custos agrícolas ainda pressionados, segundo análise apresentada por Andy Duff, chefe do departamento de pesquisas do Rabobank Brasil, durante a 2ª Reunião Canaplan, realizada na última quinta-feira (22), em Ribeirão Preto – SP.
Durante o painel Mercados e Finanças, o executivo destacou a importância da disciplina na gestão de capital, especialmente em períodos de menor rentabilidade. Para o representante do banco, a capacidade de enfrentar oscilações de mercado depende do equilíbrio entre controle de despesas, disponibilidade de recursos e investimentos necessários à manutenção da produtividade agrícola.
Os dados do Rabobank mostram uma deterioração dos indicadores operacionais na safra 2025/26. A margem EBIT, que mede o resultado antes dos juros e impostos em relação à receita, recuou, assim como a mediana do EBIT por tonelada de açúcar equivalente. O levantamento considera uma amostra de empresas com diferentes estruturas produtivas e financeiras, não sendo necessariamente representativo de todo o segmento.
“O setor é de natureza muito, muito heterogêneo”, afirmou Duff, ao explicar que os diferentes modelos de negócios e estruturas financeiras ajudam a compreender a dispersão dos resultados entre as usinas.
Preços do açúcar pressionam receitas das usinas
A trajetória das commodities contribuiu para o desempenho mais fraco das usinas. Segundo o palestrante, o preço médio do açúcar em reais por tonelada na safra 2025/26 ficou abaixo do registrado no ciclo anterior, enquanto o etanol apresentou comportamento distinto, com oscilações ao longo do período.
Pelo lado dos custos, o levantamento acompanhou a evolução do diesel, dos fertilizantes e da taxa básica de juros. Embora os juros tenham iniciado uma trajetória de queda, os insumos agrícolas continuaram sujeitos às condições internacionais de oferta e demanda, além dos efeitos das tensões geopolíticas.
Entre os fertilizantes, o especialista chamou atenção para a volatilidade das cotações da ureia e para a pressão persistente sobre os fosfatados. O comportamento desses produtos mantém incertezas sobre as despesas agrícolas, especialmente para as empresas que precisam planejar antecipadamente a aquisição de insumos.
As despesas comerciais e administrativas também foram analisadas pelo banco. Os dados indicam aumento desses gastos por tonelada de cana desde a safra 2019/20, embora sua participação na receita tenha permanecido relativamente estável, próxima de 10% na maior parte do período. De acordo com o representante do Rabobank, o comportamento demonstra o esforço das empresas para administrar despesas sobre as quais possuem maior capacidade de controle.
Reservas de caixa reforçam capacidade financeira
Apesar da redução das margens, os indicadores de liquidez mostram uma posição financeira mais confortável para parte das empresas analisadas. Na amostra do Rabobank, a dívida líquida alcançou R$ 45 bilhões na safra 2025/26, enquanto as disponibilidades de caixa somaram R$ 33 bilhões.
Na temporada anterior, a dívida líquida era de R$ 36 bilhões e o caixa totalizava R$ 29 bilhões. Os números mostram que o avanço do endividamento foi acompanhado pelo crescimento das reservas financeiras, em um período marcado por incertezas econômicas e pela perspectiva de maior volatilidade nos mercados.
Outro indicador apresentado foi a liquidez corrente, que relaciona os ativos disponíveis no curto prazo às obrigações com vencimento no mesmo período. A média da amostra atingiu 2,3 na safra 2025/26, ante 2,1 no ciclo anterior e 1,7 em 2019/20. Isso significa que, em média, as empresas possuíam R$ 2,30 em ativos circulantes para cada R$ 1 de passivos circulantes.
Os resultados, entretanto, apresentam diferenças expressivas entre as companhias. Enquanto algumas mantêm volumes elevados de caixa por tonelada de cana, outras operam com reservas menores, situação que reflete a diversidade de condições financeiras e estratégias de gestão existentes no setor.
Investimento agrícola exige disciplina de capital
A preservação dos investimentos agrícolas foi apontada pelo palestrante como um dos fatores essenciais para a sustentabilidade financeira das usinas. A redução dessas despesas pode proporcionar alívio imediato ao caixa, mas também comprometer a produtividade da matéria-prima nas safras seguintes.
O Rabobank identificou três pilares para a capacidade de reação das empresas diante das dificuldades de mercado. São eles a disciplina de capital e a manutenção de folga financeira, a preservação dos investimentos agrícolas e o crescimento com níveis sustentáveis de endividamento.
A análise mostrou que a cobertura dos investimentos de manutenção e das despesas financeiras permaneceu relativamente estável nos últimos anos. Na safra 2025/26, a relação entre a geração operacional ajustada de recursos e a soma desses compromissos ficou em 1,2, mesmo patamar observado em 2022/23.
Em relação à alavancagem, Duff observou que níveis elevados de dívida líquida por tonelada de cana nem sempre indicam dificuldades financeiras. Parte dessas situações está associada a investimentos em expansão, cujos retornos podem demorar a aparecer nos resultados das companhias.
As diferenças de endividamento refletem tanto a situação financeira das usinas quanto o estágio de execução de seus projetos. Algumas empresas da amostra também apresentam dívida líquida negativa, condição em que as disponibilidades de caixa superam o endividamento bruto.
Etanol de cereais e biometano ampliam opções de diversificação
As mudanças no modelo de negócios das usinas também fizeram parte da apresentação do Rabobank. Entre as alternativas apontadas por Andy Duff estão a produção de etanol de cereais e o aproveitamento de resíduos agroindustriais para geração de biometano, combustível que pode substituir o diesel ou abastecer cidades próximas às unidades produtoras.
“Oportunidades para crescer vão surgir mesmo nesses momentos difíceis, talvez especialmente nesses momentos difíceis”, afirmou o executivo. Segundo ele, algumas possibilidades de expansão podem representar transformações importantes para as companhias, desde que não comprometam sua capacidade financeira no longo prazo.
A apresentação também destacou projetos de expansão no Brasil, entre eles iniciativas dos grupos Atvos e Aroeira. Um dos exemplos é o investimento de R$ 750 milhões anunciado pela Aroeira para a implantação de uma unidade de etanol de cereais em Minas Gerais.
No segmento de biometano, foram citados o financiamento de R$ 245 milhões aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para um projeto da bp bioenergy e o aporte de R$ 600 milhões anunciado pela Copersucar, que contempla a ampliação da produção, com a incorporação de novas fontes de gás e duas unidades industriais.
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