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Eficiência nutricional ganha peso diante do custo dos insumos

Manejo deve combinar resposta agronômica, operação e retorno econômico

A pressão dos custos dos fertilizantes e a piora da relação de troca com a cana-de-açúcar têm ampliado a importância da eficiência nutricional nos canaviais. Nesse cenário, a escolha das fontes e das doses passa a depender não apenas da resposta agronômica, mas também das condições do solo, da operação e do retorno esperado sobre o investimento.

O tema foi abordado pelo professor Pedro Henrique de Cerqueira Luz, da Agro-PH Consultoria, durante o 20º Grande Encontro sobre Variedades de Cana & Novas Técnicas de Fertilização, realizado em setembro, em Ribeirão Preto – SP. A apresentação, preparada com a participação da pesquisadora Jessica Angela Bet, discutiu estratégias para otimizar o manejo e reduzir perdas no uso de nutrientes.

Segundo Luz, a relação de troca dos fertilizantes se deteriorou nos últimos anos. Em 2023, 15 toneladas de cana-de-açúcar eram suficientes para adquirir uma tonelada de ureia, ante cerca de 35 toneladas atualmente. Em levantamento de agosto, o pesquisador calculou ainda relações de 56 toneladas para o MAP e 27 toneladas para o KCl.

O cenário reforça uma distinção feita pelo pesquisador entre buscar a produtividade máxima e a economicamente viável. A avaliação, segundo ele, deve considerar aspectos técnicos, operacionais, econômicos e ambientais. “Você quer altas produtividades ou você quer produtividade econômica? São coisas diferentes”, afirmou.

Resíduos ampliam potencial de reciclagem

Entre as alternativas para reduzir a dependência de fertilizantes minerais está o aproveitamento dos subprodutos gerados pelas unidades sucroenergéticas. Cálculos de Luz indicam potencial de reciclagem equivalente a 49% do nitrogênio, 36% do fósforo e 99% do potássio demandados no sistema considerado.

Vinhaça, torta de filtro, cinzas e compostos orgânicos entram nesse planejamento, mas o uso deve considerar a composição de cada material e a necessidade da cultura. Na vinhaça, Luz chamou atenção para a variação do teor de potássio conforme as características da produção industrial.

Em unidades com mix próximo de 40% a 60% ou 50% a 50%, por exemplo, a concentração pode ficar em torno de 3 a 3,5 quilos de K2O por metro cúbico. Uma dose padronizada de 30 metros cúbicos por hectare, portanto, nem sempre atende à demanda do canavial. Conforme a produtividade esperada e a composição da vinhaça, o volume pode chegar a 35 ou 40 metros cúbicos por hectare.

O uso de compostos também envolve uma decisão de escala. Em uma simulação, uma usina com 70 mil toneladas disponíveis poderia aplicar 70 toneladas por hectare em mil hectares e obter acréscimo estimado de 45,9 mil toneladas de cana. Com 10 toneladas por hectare, seria possível atender 7 mil hectares e elevar o volume total em cerca de 150 mil toneladas.

A diferença decorre da resposta decrescente às doses. Em determinadas condições, distribuir o insumo por uma área maior, em vez de concentrá-lo para buscar a produção máxima por hectare, pode resultar em maior volume de matéria-prima para moagem.

Correção do solo influencia longevidade

A eficiência da adubação também depende da construção do perfil do solo. Luz citou cinco experimentos do Instituto Agronômico que avaliaram doses de calcário em diferentes texturas.

Em um dos ensaios, a aplicação correspondente à dose calculada elevou a produção acumulada em 58 toneladas por hectare ao longo de quatro cortes. Com o dobro, o ganho chegou a 112 toneladas, enquanto a aplicação tripla resultou em acréscimo de 132 toneladas.

A correção também alterou a velocidade de queda da produtividade entre os cortes. Sem calagem, o recuo calculado foi de 19,5 toneladas por hectare a cada corte. Na condição com maior correção, caiu para 12,5 toneladas.

Os resultados não significam, porém, que doses maiores sejam indicadas de forma generalizada. A decisão depende da fertilidade, da acidez e do perfil de cada área. Nos solos arenosos avaliados, por exemplo, a dose dupla apresentou a melhor combinação entre resposta técnica e econômica.

Luz também destacou a necessidade de acompanhar a fertilidade das soqueiras. Concentrar a análise de solo apenas na reforma pode deixar um intervalo de cinco ou seis anos sem informações sobre a evolução dos nutrientes.

“Se não quer fazer todo ano, faz a cada dois anos, mas temos que ter pontos em soqueira para depois poder construir uma curva de fertilidade do solo ao longo dos anos”, disse.

Nitrogênio exige ajuste à relação de troca

O peso da análise econômica fica mais evidente no manejo do nitrogênio. A partir de dados de 20 experimentos com soqueiras, o palestrante mostrou que uma dose de 150 quilos por hectare levaria à produção máxima estimada pelo modelo, mas resultaria em ROI de 0,89 nas condições de preço consideradas. Na dose econômica, o volume caiu para 68 quilos por hectare e o ROI subiu para 1,42. A produtividade estimada recuou de 111 para 108 toneladas por hectare.

O cálculo considerou ATR de R$ 0,8509 por quilo, cana a R$ 103,38 por tonelada e ureia a R$ 3.058,97 por tonelada, com referência de 17 de agosto. Nessas condições, o fator econômico de adubação ficou em 0,64 quilo de nitrogênio por tonelada de cana.

A resposta varia conforme o ambiente de produção. Em outro conjunto de experimentos, conduzido em Latossolo Vermelho distrófico argiloso, sete dos 11 cortes avaliados tiveram resposta significativa ao nitrogênio. A dose econômica calculada ficou em 98,5 quilos por hectare, com ROI de 2,6.

A fonte utilizada também interfere no resultado. Perdas por volatilização e lixiviação reduzem a parcela efetivamente aproveitada pela planta e alteram a comparação de custos. Entre as estratégias citadas estão incorporação da ureia ao solo, uso de inibidores de urease, fertilizantes revestidos e parcelamento.

Retorno varia entre estratégias de nutrição

Nos experimentos com micronutrientes em soqueira, o ganho médio foi de 5,8 toneladas por hectare, equivalente a 7% sobre o controle, com ROI de 7,5. Nos trabalhos com enxofre, o índice ficou em 4,94. Luz também discutiu a possibilidade de alternar gesso e enxofre pastilhado nas soqueiras, considerando as diferenças na dinâmica de liberação do nutriente no solo.

Para o fósforo, o resultado muda quando o efeito residual é incorporado à conta. Embora aplicações avaliadas isoladamente possam apresentar retorno inferior a um, a consideração dos efeitos ao longo de três cortes melhora o resultado. Em soqueiras, a orientação é ajustar a dose à fertilidade e ao potencial produtivo, sobretudo quando a relação de troca está desfavorável.

No potássio, os experimentos citados registraram retorno positivo, com respostas médias de 51 e 68 quilos de cana por quilo de K2O aplicado em duas safras. O manejo proposto considera a fertilidade de cada área para definir o fator de adubação, em vez de adotar um único parâmetro para todo o canavial.

Na comparação entre as estratégias, os micronutrientes tiveram ROI de 7,5, seguidos pelo enxofre, com 4,94, e pela calagem, com 4,40. O foliar registrou 2,50, enquanto a adubação orgânica ficou em 2,40 na soqueira e 2,20 no plantio. Para KCl e fósforo mineral, os índices foram de 1,40 e 1,30, respectivamente. “A agricultura sem ciência é uma fazenda de porteiras fechadas”, afirmou Luz ao encerrar a apresentação.

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