Etanol assume protagonismo em um agro pressionado por clima e insumos
Alta do biocombustível ganha força enquanto clima irregular e fertilizantes baratos redesenham o cenário das safras
O Agro Mensal relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA, com os fatos recentes do setor e as atualizações das perspectivas para as principais commodities agrícolas, aponta que o etanol assumiu papel central na dinâmica do agronegócio neste fim de ano, em um cenário marcado pela recuperação parcial das chuvas, pela queda dos preços de fertilizantes e pela expansão da oferta global de açúcar, que pressiona margens e reforça a dependência do biocombustível para sustentação do setor.
No capítulo climático, o relatório mostra que as chuvas retornaram com mais força ao Centro-Norte do país, permitindo acelerar o plantio e melhorar o armazenamento hídrico do solo, embora ainda de forma irregular. Áreas de Goiás e do sul do Mato Grosso seguem sob atenção, com estresse hídrico remanescente. Já o Sul continua impactado pelo padrão do La Niña, com precipitações abaixo da média e atraso no desenvolvimento de soja e milho. Apesar disso, a expectativa é de normalização gradual ao longo de dezembro e início de 2026, reduzindo riscos para as lavouras.
O mercado de fertilizantes também passa por mudanças estruturais. Segundo o Itaú BBA, a demanda global segue fraca, puxando para baixo os preços internacionais: ureia ao redor de USD 400/t, MAP próximo a USD 625/t e KCl em USD 352/t nos portos brasileiros. As importações nacionais, embora ainda 2,1% maiores no acumulado do ano, desaceleraram em novembro, com queda de 18% na comparação anual. A China ultrapassou a Rússia e tornou-se o maior fornecedor do Brasil, respondendo por 23% das compras totais, representando um salto significativo frente aos 5% registrados em 2016.
No setor sucroenergético, a oferta global de açúcar aumenta e pressiona preços. A Índia iniciou a temporada com avanço de 43% na produção nos dois primeiros meses, enquanto o Centro-Sul brasileiro revisou sua moagem para 605 milhões de toneladas, apoiada na resiliência da produtividade agrícola ao longo da safra. A produção de açúcar deve alcançar 40,4 milhões de toneladas, elevando o superávit global estimado para 2,7 milhões de toneladas. Diante de um mercado mais abastecido, a capacidade de o etanol absorver parte da cana torna-se decisiva para o equilíbrio dos preços internacionais.
É justamente no etanol que o Itaú BBA identifica a maior mudança de dinâmica. Com o final da colheita e entrada plena na entressafra, a oferta do biocombustível cai, sustentando a tendência de valorização. A produção total do Centro-Sul deve chegar a 33,6 bilhões de litros, sendo 24,1 bilhões de etanol de cana (queda de 10,1%) e 9,6 bilhões provenientes do milho, que cresce 16,6% na comparação anual. Para que o mercado se acomode, o consumo de hidratado precisará cair dos atuais 1,65 bilhão de litros/mês para cerca de 1,41 bilhão no primeiro trimestre de 2026.
Esse ajuste exigirá aumento da paridade do etanol frente à gasolina nas bombas de São Paulo, projetada em 69% para 2026, acima dos 66% da safra anterior. Com isso, o hidratado em Paulínia deve superar R$ 3,00/l nos próximos meses, reforçando a relevância do etanol como variável-chave para definir o mix das usinas e, por consequência, a oferta de açúcar ao mercado global.
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