Genética amplia espaço na busca por produtividade da cana
Novas variedades combinam ganhos de ATR, longevidade e adaptação
A adoção de genéticas mais produtivas, combinada ao posicionamento correto das variedades e ao manejo do canavial, pode ampliar a produtividade e ajudar a diluir custos no setor sucroenergético. A avaliação é de Henrique Mattosinho D’Avila, gerente de Desenvolvimento de Mercado do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), que apresentou os avanços do melhoramento genético durante o 20º Grande Encontro sobre Variedades de Cana & Novas Técnicas de Fertilização, realizado em setembro, em Ribeirão Preto – SP.
Segundo D’Avila, fatores como clima e mercado permanecem fora do controle direto do produtor, enquanto a produtividade oferece maior espaço para atuação. Além de elevar a produção e, consequentemente, a receita, o aumento do rendimento por hectare contribui para diluir custos fixos da atividade.
A genética integra esse esforço ao lado de outras ferramentas, como irrigação, correção de solo, nutrição e controle de pragas, doenças e plantas daninhas. Para D’Avila, o potencial de uma variedade precisa estar associado às condições da área e à condução agronômica.
“Genética sozinha não ganha jogo. O que a gente precisa fazer é transformar esse potencial em ganho real”, afirmou.
Série 9000 se aproxima de 1,2 milhão de hectares
Entre as tecnologias apresentadas, D’Avila destacou a evolução da Série CTC9000, iniciada em 2013 e que atualmente reúne 13 variedades. Segundo ele, os materiais da série ocupam área próxima de 1,2 milhão de hectares.
As variedades mais recentes, lançadas a partir de 2020, apresentam produtividade pelo menos 10% superior à média do setor nos dados apresentados pelo CTC. Considerando a média de cinco cortes, os materiais alcançam produção próxima de 12 a 13 toneladas de açúcar por hectare.
Entre elas, a CTC9009 foi apresentada como alternativa para o início da safra. Nos dados referentes ao período entre abril e junho de 2026/27, a variedade registrou 5 quilos de ATR por tonelada acima da média das demais avaliadas. O material também apresentou resposta à nutrição e a maturadores químicos e tolerância a herbicidas.
A CTC9011, lançada em 2025, é precoce e indicada para ambientes mais favoráveis. De acordo com D’Avila, os maiores diferenciais de produtividade foram observados nos cortes mais avançados, característica associada à longevidade do canavial.
Para ambientes intermediários e restritivos, a CTC9008 deve chegar a uma área próxima de 100 mil hectares em 2026. Já a CTC9010, também lançada em 2025, é uma variedade média-tardia direcionada aos ambientes C e D, com vigor e ATR voltados ao fim da safra.
Melhoramento genético incorpora inteligência artificial
O programa de melhoramento também passou a utilizar novas ferramentas para ampliar a quantidade de informações disponíveis durante a seleção dos materiais. Segundo D’Avila, o ganho genético observado nos últimos anos está em torno de 3% ao ano.
Uma das tecnologias adotadas é a fenotipagem digital. Voos de drones realizados durante o ciclo produtivo permitem captar mais de 300 informações por indivíduo, do plantio à colheita. Entre os parâmetros avaliados estão perfilhamento, fechamento do canavial, falhas, brotação de soqueira, tombamento e florescimento.
O CTC também testa o uso de robótica para obter dados em áreas que não podem ser observadas pelos drones. Um equipamento terrestre chamado Soma percorre o interior do canavial com sensores e câmeras multiespectrais para levantar parâmetros biométricos.
Entre as informações avaliadas estão número de perfilhos por metro, altura e diâmetro das plantas. O equipamento também está sendo treinado para identificar doenças. A proposta é ampliar a base de dados disponível aos melhoristas durante a seleção dos indivíduos que avançam no programa.
Advana amplia foco sobre ambientes restritivos
Os avanços no melhoramento resultaram na criação da Série CTCAdvana. A primeira variedade, CTCAdvana 1, foi lançada em 2025 e chegou a mais de 260 clientes no primeiro ano. Para 2026, a projeção apresentada é de área próxima de 15 mil hectares.
Na rede experimental do CTC, a variedade registrou percentual de vitória de 95% diante dos principais padrões utilizados nos ensaios. Em uma área comercial na região de Orlândia – SP, a comparação apresentada mostrou produção superior em mais de três toneladas de açúcar por hectare em relação à variedade utilizada como referência.
A segunda variedade da série, CTCAdvana 2, foi lançada em 2026 e tem como foco os ambientes C, D e E. O material combina produtividade, sanidade e porte ereto, característica considerada favorável à colheita mecanizada.
A curva de maturação apresentada pelo CTC indica possibilidade de manejo entre maio e setembro. Em um experimento na região de Andradina – SP, com mais de 30 variedades e média de dois cortes, a Advana 2 apresentou a maior produtividade em toneladas de cana por hectare.
Planejamento busca levar potencial genético ao campo
O posicionamento das variedades também entrou na discussão a partir da experiência da Atvos. Dorivan Rios, especialista de Variedades da companhia, apresentou o plano diretor adotado para organizar a escolha dos materiais de acordo com as características de cada unidade agrícola.
A estratégia considera histórico das variedades, ambiente de produção, desempenho observado e conhecimento agronômico. O planejamento é projetado para um horizonte de cinco a seis anos e passa por revisões conforme os ciclos de plantio.
Na frente de variedades, a companhia trabalha com metas de aumento de 17% na produção de toneladas por hectare e de 16% na produtividade em toneladas de cana por hectare. O trabalho envolve oito unidades distribuídas por quatro Estados, com acompanhamento específico para as condições de cada operação.
Além das variedades já comerciais, o programa de melhoramento mantém materiais em fases avançadas de avaliação. Entre os citados por D’Avila estão o clone 3902, testado inicialmente na região de Piracicaba e Ribeirão Preto, e o CTPR162851, que vem sendo avaliado para ambientes mais restritivos. Outros clones permanecem nas etapas finais do programa antes de uma eventual chegada ao campo.
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