Etanol ganha espaço em cenário de pressão no açúcar e incertezas globais
Mercado projeta maior oferta do biocombustível e mudanças no mix das usinas
O setor sucroenergético iniciou a safra 2026/27 em um ambiente marcado por mudanças no mercado internacional, maior volatilidade econômica e expectativa de expansão do etanol no Brasil. A combinação entre excedente global de açúcar, crescimento da demanda por combustíveis renováveis e melhora dos indicadores financeiros das empresas tende a influenciar as estratégias de produção das usinas nos próximos meses.
As projeções apresentadas durante a 1ª Reunião da Canaplan, em Ribeirão Preto – SP, indicam que a moagem no Centro-Sul deverá alcançar 628,2 milhões de toneladas de cana, alta de 3,2% em relação ao ciclo anterior. A recuperação da produtividade, associada à renovação dos canaviais e às condições climáticas mais favoráveis, sustenta a expectativa de maior disponibilidade de matéria-prima para a indústria.
Nesse contexto, a produção de etanol deverá atingir 37,95 bilhões de litros, crescimento de 13% frente à safra anterior. Desse total, cerca de 11 bilhões de litros serão produzidos a partir do milho, elevando a participação do cereal para 35,6% da oferta total de etanol no país.
Açúcar enfrenta pressão do mercado internacional
Enquanto o etanol amplia seu espaço, o mercado global de açúcar caminha em direção oposta. A expectativa é de um superávit de aproximadamente 2,8 milhões de toneladas em 2025/26, resultado da combinação entre recuperação da produção em países asiáticos e demanda ainda insuficiente para absorver o aumento da oferta.
A Índia, um dos principais produtores mundiais, deverá recuperar sua produção em 2026/27 com expansão de área e melhora da produtividade. Ao mesmo tempo, colheitas acima do esperado na China, Tailândia, Paquistão e Europa reforçam a disponibilidade global da commodity.
Esse cenário tem pressionado as cotações internacionais. Após uma reação observada em março, impulsionada pela alta do petróleo, os preços do açúcar bruto voltaram a recuar e devem permanecer entre 14 e 16 centavos de dólar por libra-peso ao longo de 2026, segundo as estimativas apresentadas.
Além do aumento da oferta, o mercado acompanha os desdobramentos das tensões geopolíticas no Oriente Médio, que influenciam os preços da energia e ampliam a volatilidade das commodities agrícolas.
Setor chega mais capitalizado à nova safra
Mesmo diante das incertezas externas, a avaliação é que o setor sucroenergético brasileiro chega à safra 2026/27 em situação financeira mais robusta do que em ciclos anteriores. A melhora da rentabilidade, a redução do endividamento e o acesso ampliado ao mercado de capitais fortaleceram a estrutura financeira das empresas.
Os indicadores apresentados mostram que os preços do açúcar e do etanol permaneceram em patamares historicamente favoráveis nos últimos anos, contribuindo para maior geração de caixa. Esse movimento ocorreu mesmo em um ambiente de juros elevados, permitindo às empresas ampliar investimentos em renovação de canaviais, tratos culturais e manutenção agrícola.
No mercado financeiro, os instrumentos de captação também ganharam relevância. As emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) para empresas ligadas aos segmentos de açúcar e etanol alcançaram R$ 6,1 bilhões em 2024 e R$ 5,7 bilhões em 2025. As debêntures mantiveram participação expressiva, com emissões próximas de R$ 8 bilhões nos dois anos.
Economia global aumenta riscos para o agronegócio
O ambiente macroeconômico, porém, exige cautela. O aumento da dívida pública mundial, a persistência da inflação em diversas economias e os conflitos geopolíticos elevam os riscos para os mercados de crédito e de commodities.
No Brasil, a inflação projetada para 2026 é de 5%, acima do centro da meta. Os alimentos devem registrar alta de 5,4%, enquanto os transportes podem avançar 6,2%. Ao mesmo tempo, o crédito apresenta sinais de deterioração, com aumento da inadimplência entre consumidores e empresas.
Outro ponto de atenção está nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O etanol tornou-se um dos focos das investigações conduzidas pelo governo norte-americano, que questiona a política tarifária aplicada pelo Brasil ao combustível importado. Dependendo do desfecho das negociações, produtos como açúcar, café, carne bovina e suco de laranja também poderão ser afetados.
Além dos fatores econômicos, o clima segue no radar do mercado. A elevação da probabilidade de formação de um novo episódio de El Niño poderá influenciar a produção agrícola em importantes regiões produtoras do mundo, especialmente na Ásia, enquanto seus efeitos sobre a safra brasileira ainda permanecem sob acompanhamento dos analistas.
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