Curtailment pressiona cogeração e amplia desafios da biomassa
Cortes de geração afetam receita, eficiência industrial e sustentabilidade das usinas
O crescimento acelerado das fontes renováveis no Brasil, especialmente solar e eólica, trouxe um novo desafio ao setor elétrico: o curtailment, mecanismo de corte compulsório da geração de energia para preservar a estabilidade do sistema. Embora a medida seja necessária para garantir a segurança da rede, seus efeitos passaram a preocupar geradores de diferentes fontes, incluindo as usinas de biomassa movidas a bagaço de cana-de-açúcar, cuja cogeração representa uma importante fonte de receita para o setor sucroenergético.
Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), as distribuidoras devem executar cortes de carga e de geração sempre que houver determinação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A medida pode limitar a potência gerada ou até mesmo desconectar usinas temporariamente, atingindo inclusive empreendimentos de biomassa.
Para Isabela Garcia, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, o tema deixou de ser apenas uma questão técnica e passou a ocupar posição estratégica no planejamento das empresas. Segundo ela, a combinação entre a rápida expansão das fontes intermitentes e a limitação da infraestrutura de transmissão faz do curtailment um fator de risco financeiro, já que parte da energia produzida deixa de ser comercializada, reduzindo a previsibilidade das receitas dos geradores.
Biomassa enfrenta impactos operacionais
O curtailment ocorre quando há desequilíbrio entre a oferta e a demanda de energia. Mesmo em períodos de elevada disponibilidade de recursos energéticos, o sistema pode determinar a redução da geração para manter seu equilíbrio operacional. Entre 2023 e 2025, as fontes solar e eólica responderam por 82% da expansão da capacidade instalada no Brasil, ampliando a complexidade de gestão da rede elétrica nacional.
Outro fator que contribui para o aumento dos cortes é o descompasso entre os horários de produção e consumo. Enquanto a demanda costuma atingir seu pico entre o fim da tarde e o início da noite, a geração solar se concentra nas horas de maior incidência de radiação, produzindo excedentes em períodos de menor consumo.
Nesse cenário, as usinas de biomassa apresentam vantagens operacionais por sua maior flexibilidade e pela localização, em muitos casos, em regiões com melhor infraestrutura de transmissão. Ainda assim, elas não estão imunes às restrições impostas pelo sistema.
De acordo com Marcelo Di Bonifácio Filho, também analista de Inteligência de Mercado da StoneX, os impactos vão além da perda de energia comercializada. O corte de geração pode comprometer a eficiência industrial das usinas sucroenergéticas, provocar desperdício de vapor e dificultar a gestão de subprodutos, como bagaço e biogás. Em situações mais severas, pode haver descarte ou queima desses materiais sem aproveitamento energético, com reflexos ambientais e econômicos.
Receita e certificações em risco
Embora o bagaço de cana possa ser armazenado, essa característica possui limitações. Com o passar do tempo, o material perde poder calorífico, reduzindo sua eficiência energética e ampliando os prejuízos em períodos prolongados de restrições de geração.
As dificuldades tendem a ser maiores para usinas de menor porte conectadas diretamente às redes de distribuição. Nessas unidades, a redução compulsória da geração pode afetar a própria operação industrial, uma vez que nem sempre há margem para diminuir a produção de energia sem comprometer os processos produtivos.
Os efeitos também alcançam a agenda de sustentabilidade. O aumento do volume de resíduos não aproveitados pode impactar indicadores ambientais e certificações relevantes para o setor, como o RenovaBio e a Bonsucro, além de elevar riscos regulatórios e reputacionais para as empresas.
Em 2025, a biomassa respondeu por 9% da geração de energia elétrica no Brasil, sendo que as usinas de cana-de-açúcar representam aproximadamente 75% desse total. A cogeração, por sua vez, corresponde, em média, a 9% do faturamento das usinas, atrás apenas das receitas obtidas com açúcar e etanol. Para a safra 2026/27, em um ambiente de margens mais apertadas, a receita proveniente da energia tende a ganhar importância ainda maior, enquanto soluções como armazenamento em baterias seguem em estágio inicial de expansão no país.
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