El Niño amplia contraste climático para safra 2026/27 na América do Sul
Sul tende a ganhar produtividade, enquanto Centro-Norte enfrenta riscos
A confirmação de um novo ciclo de El Niño para o segundo semestre de 2026 recoloca o clima entre os principais fatores de atenção do mercado agrícola. Segundo análise da Hedgepoint Global Markets, os impactos sobre as safras de soja, milho e trigo devem se concentrar na América do Sul, com efeitos distintos entre as regiões produtoras. Enquanto o Sul do continente tende a registrar condições mais favoráveis ao desenvolvimento das lavouras, parte do Centro-Norte do Brasil pode enfrentar menor disponibilidade de chuvas durante períodos decisivos do ciclo das culturas.
Historicamente, episódios de El Niño de intensidade moderada a forte iniciados na segunda metade do ano costumam produzir reflexos importantes entre o final do mesmo ano e o primeiro semestre seguinte. O período coincide com o plantio, desenvolvimento e colheita das safras de soja e milho dos principais países produtores da América do Sul, tornando o comportamento do clima um fator determinante para a produtividade.
Na metade sul do continente, o fenômeno normalmente provoca aumento das chuvas durante a primavera e o verão. Já na metade norte, a tendência é de precipitações abaixo da média, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste do Brasil.
Sul da América do Sul pode ampliar produtividade
De acordo com a Hedgepoint, o aumento das chuvas tende a favorecer o desenvolvimento das lavouras de soja e milho no Sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. Em episódios anteriores, o El Niño esteve associado a elevadas produtividades nessas regiões, como ocorreu na safra 2018/19, quando as condições climáticas favoreceram o desempenho das principais culturas.
No Brasil, o cenário é especialmente relevante para Paraná e Rio Grande do Sul, estados que, em anos de clima favorável, costumam ocupar a segunda e a terceira posições entre os maiores produtores nacionais de soja. O Rio Grande do Sul também responde pela maior produção brasileira de milho de verão, cultura que tende a se beneficiar da maior regularidade das chuvas.
Além da soja e do milho, o trigo argentino também figura entre as culturas historicamente favorecidas pelo El Niño. O aumento da frequência e da distribuição das chuvas durante o ciclo da cultura costuma melhorar as condições de estabelecimento das lavouras, desenvolvimento das plantas e enchimento dos grãos, elevando o potencial produtivo.
Após períodos de seca associados à neutralidade climática ou ao La Niña, o fenômeno frequentemente permite uma recuperação significativa da produção argentina e do excedente exportável. Com isso, o país amplia sua participação no comércio internacional, especialmente nos mercados da América do Sul e do Norte da África.
Centro-Norte brasileiro concentra as maiores preocupações
Se parte da América do Sul tende a ser beneficiada pelo aumento das chuvas, o mesmo não ocorre na metade norte do continente. A previsão é de precipitações abaixo da média durante a primavera e o verão, cenário que amplia os riscos para importantes regiões produtoras de grãos do Brasil.
Entre os estados mais expostos estão Mato Grosso, Goiás e Bahia, responsáveis por parcela significativa da produção nacional de soja. Em eventos anteriores de El Niño, essas regiões registraram perdas expressivas de produtividade. Um dos exemplos mais recentes foi a safra 2023/24, quando a baixa umidade comprometeu o desenvolvimento das lavouras, especialmente em Mato Grosso, maior produtor brasileiro da oleaginosa.
Segundo a Hedgepoint, apesar dos impactos opostos entre as metades sul e norte da América do Sul, o El Niño não deve ser automaticamente associado a perdas generalizadas na produção continental. Os ganhos de produtividade observados em países e regiões favorecidos podem compensar parte das perdas registradas em outras áreas. Ainda assim, o peso do Centro-Norte brasileiro na produção de soja e milho faz com que qualquer redução de produtividade tenha influência significativa sobre o resultado final da safra brasileira.
Efeitos podem alcançar o milho segunda safra
Os reflexos do fenômeno também podem se estender ao milho segunda safra. Caso a menor disponibilidade de chuvas provoque atraso no plantio da soja, o calendário de semeadura do cereal tende a ser deslocado para um período menos favorável.
Esse atraso aumenta a probabilidade de que o desenvolvimento do milho ocorra sob condições de menor umidade durante o outono e o inverno, elevando os riscos climáticos para uma cultura que responde pela maior parte da produção nacional.
Mercado acompanha o comportamento das safras
No Hemisfério Norte, o El Niño normalmente não provoca alterações relevantes nos regimes de chuva e temperatura das principais regiões produtoras de soja e milho. Por isso, em anos de ocorrência do fenômeno, o mercado internacional volta suas atenções para as safras do Hemisfério Sul, principalmente de Brasil e Argentina.
Para o trigo, a influência sobre o mercado global depende do equilíbrio entre eventuais perdas na Austrália e os ganhos de produtividade registrados nas Américas. Nesse cenário, a Argentina surge como uma das origens com maior potencial para ampliar a oferta exportável caso as condições climáticas previstas se confirmem.
“Os impactos esperados do El Niño nas safras de soja e milho concentram-se principalmente no Hemisfério Sul. A tendência de chuvas acima da média na primavera e no verão na metade sul da América do Sul tende a favorecer as safras no Sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Por outro lado, a tendência de chuvas abaixo da média na metade norte da América do Sul pode trazer problemas para o plantio e desenvolvimento das safras no Centro-Norte do Brasil, incluindo a segunda safra de milho”, afirma Luiz Fernando Gutierrez Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets.
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