Safra recorde convive com pressão do crédito e risco climático
Grãos chegam a 360,8 milhões de toneladas em cenário de maior incerteza
A produção brasileira de grãos deve alcançar o recorde de 360,8 milhões de toneladas na safra 2025/26, crescimento de 2,4% em relação ao ciclo anterior. O avanço, porém, não ocorre de maneira uniforme entre as culturas e chega acompanhado de um ambiente mais desafiador para as decisões do produtor, com crédito pressionado, dólar em alta e maior atenção ao clima.
O cenário é apresentado no #CafécomPrado desta semana, da Prado Agronegócios, que reúne dados da Conab, do USDA e indicadores de mercado. Soja e milho continuam sustentando a maior parte da produção nacional, enquanto sorgo avança e trigo enfrenta redução de área, produtividade e oferta.
A soja responde por metade da produção brasileira de grãos, com 180,46 milhões de toneladas estimadas em 2025/26. Para 2026/27, o USDA projeta novo avanço, para 186 milhões de toneladas, acompanhado pelo crescimento de 3% da área colhida, que deve atingir 50 milhões de hectares.
A demanda também aumenta. O consumo doméstico de soja está projetado em 69,6 milhões de toneladas, alta de 4,8%, enquanto as exportações podem chegar a 118 milhões, crescimento de 2,6%. Mesmo com a expansão da produção, os estoques finais brasileiros são estimados em 36,9 milhões de toneladas, recuo de 2,1%.
Milho amplia uso industrial e sorgo ganha espaço
No milho, a safra brasileira 2025/26 está estimada pela Conab em 142,95 milhões de toneladas. Para o ciclo seguinte, o USDA trabalha com produção de 139 milhões de toneladas, queda de 0,7%, apesar do crescimento de 1,8% da área colhida.
O consumo doméstico, por outro lado, deve avançar 2%, para 100 milhões de toneladas. O uso industrial para produção de etanol é um dos principais vetores dessa expansão e pode chegar a 35 milhões de toneladas em 2026/27, aumento de 6,1%. As exportações estão projetadas em 44 milhões de toneladas, 4,8% acima da temporada anterior.
O sorgo também amplia participação na produção nacional. A estimativa para 2025/26 é de 7,37 milhões de toneladas, crescimento de 20,7%, mesmo com queda de 9,2% na produtividade. A expansão é sustentada principalmente pelo aumento de 32,9% da área, para 2,17 milhões de hectares, em meio ao maior uso do cereal na alimentação animal, produção de etanol e outros mercados.
O movimento contrasta com o trigo. A Conab estima produção de 5,81 milhões de toneladas em 2026, queda de 26,2% frente ao ciclo anterior, refletindo redução de 20,4% na área e de 7,2% na produtividade. No balanço do USDA para 2026/27, a menor oferta brasileira deve elevar as importações para 7,5 milhões de toneladas, crescimento de 17,2%.
Chicago e dólar melhoram preços em reais
A oferta elevada encontra um mercado externo que voltou a dar algum suporte às cotações. A soja encerrou a semana de 10 a 14 de agosto em recuperação em Chicago, com o contrato de novembro próximo de US$ 11,91 por bushel. Compras chinesas, expectativas para a produtividade norte-americana e condições climáticas nos Estados Unidos estiveram entre os fatores de sustentação.
No Brasil, o movimento ganhou força com a valorização do dólar. O indicador da soja Cepea/Esalq em Paranaguá avançou cerca de R$ 19 por saca em 60 dias e chegou à região de R$ 148. Segundo a análise, valores próximos de R$ 150 nos portos voltam a colocar oportunidades de comercialização no radar do produtor.
O milho também reagiu em Chicago, com o contrato de dezembro próximo de US$ 4,83 por bushel. A revisão das expectativas de produtividade nos Estados Unidos e as tensões entre Rússia e Ucrânia deram suporte aos futuros. No mercado brasileiro, entretanto, a disponibilidade elevada da segunda safra continua limitando uma recuperação mais consistente.
A combinação entre Bolsa de Chicago e câmbio tende, portanto, a ser decisiva para novas oportunidades de venda. Com grande volume de milho ainda disponível no mercado doméstico, movimentos externos de alta podem ganhar importância para o avanço da comercialização e o escoamento da produção.
Câmbio traz receita maior e encarece insumos
O dólar encerrou quinta-feira (14) próximo de R$ 5,22, depois de subir 2,7% na semana. Para o agronegócio, o movimento produz efeitos em direções opostas. A moeda mais valorizada melhora a conversão para reais das commodities exportadas, mas também aumenta a pressão sobre fertilizantes, defensivos e outros insumos dolarizados.
O petróleo adiciona outra variável aos custos. O Brent terminou a semana próximo de US$ 88,5 por barril, com valorização de cerca de 6%. As tensões geopolíticas elevaram o prêmio de risco e mantiveram o mercado sensível às condições de oferta.
A permanência do Brent próximo ou acima de US$ 90 pode aumentar a pressão sobre diesel, fretes e custos logísticos. Para o produtor que começa a estruturar a safra 2026/27, a evolução simultânea do petróleo e do câmbio passa a ter peso adicional na formação do orçamento.
Crédito rural acende sinal de atenção
O quadro financeiro é outro ponto de preocupação. O Plano Safra 2025/26 encerrou junho com R$ 338,9 bilhões desembolsados, o equivalente a 83,5% dos R$ 405,9 bilhões programados. O volume liberado ficou 11,6% abaixo do registrado no ciclo anterior.
Ao mesmo tempo, o crédito rural problemático chegou a R$ 202 bilhões em maio, avanço de 84,4% em 12 meses. O indicador reúne operações em atraso, inadimplentes e prorrogadas e mostra uma deterioração relevante justamente no período em que começa a ganhar força o planejamento financeiro da próxima temporada.
O comportamento do crédito tende a influenciar desde a compra de insumos até a definição do pacote tecnológico. Em um cenário de custos ainda elevados, a disponibilidade de financiamento e as condições para contratação de novos recursos podem ser tão importantes quanto a trajetória das próprias commodities.
El Niño aumenta atenção ao manejo do solo
O clima completa o conjunto de variáveis para a safra 2026/27. As projeções apresentadas pelo #CafécomPrado apontam aumento da probabilidade de um El Niño de maior intensidade, com período de maior risco concentrado entre a primavera e o início do verão, fase importante para implantação e desenvolvimento das lavouras.
Um evento mais intenso pode favorecer volumes de chuva acima da média no Sul e aumentar a irregularidade das precipitações no Centro-Norte. A projeção não determina o comportamento do clima em cada região, mas amplia a necessidade de planejamento para eventuais períodos de excesso ou deficiência hídrica.
Nesse ambiente, a construção do perfil do solo ganha importância por favorecer o aprofundamento do sistema radicular e ampliar o acesso das plantas à água armazenada em camadas subsuperficiais. A prática também melhora o aproveitamento de nutrientes e pode contribuir para maior tolerância das lavouras a períodos de restrição hídrica.
A correção da acidez por meio da calagem integra esse manejo ao melhorar as condições químicas para o desenvolvimento das raízes e fornecer cálcio e magnésio. Com a aproximação do plantio da safra 2026/27, a evolução do crédito, do câmbio e das projeções climáticas deverá orientar as próximas decisões de investimento e manejo no campo.
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