O etanol segue abrindo caminhos mesmo em meio às incertezas
O momento exige cautela. Juros elevados, insegurança sobre o Plano Safra, volatilidade internacional e aumento dos custos seguem pressionando o produtor rural e toda a cadeia agroindustrial. Não dá para ignorar esse cenário. O produtor sente no dia a dia o peso do financiamento mais caro, das margens apertadas e das incertezas sobre os próximos meses. É um ambiente que naturalmente gera preocupação e deixa o setor mais defensivo na hora de investir.
Mas é justamente em períodos assim que alguns movimentos merecem mais atenção. E um deles é o protagonismo que o etanol voltou a ganhar nos últimos meses. Mesmo em um ambiente econômico mais travado, o biocombustível segue atraindo investimentos, tecnologia e espaço nas discussões sobre o futuro da energia e da mobilidade. Enquanto parte do mercado olha apenas para as dificuldades, o setor sucroenergético começa a enxergar novas possibilidades de crescimento.
A Agrishow 2026 mostrou bem esse contraste. Apesar da queda de 22% na intenção de negócios, a feira manteve cerca de 197 mil visitantes ao longo dos cinco dias. O produtor foi à feira, circulou, buscou informação e acompanhou as novidades, mas adotando uma postura mais cautelosa na hora de fechar contratos. Isso mostra que o interesse continua forte, embora o momento peça mais prudência nas decisões.
E no meio desse ambiente de cautela, o etanol apareceu como uma das principais apostas tecnológicas e estratégicas do agro brasileiro. Chamaram atenção os avanços em motores híbridos, soluções de substituição parcial do diesel e equipamentos desenvolvidos para reduzir emissões sem comprometer desempenho e produtividade. O setor mostrou que o etanol deixou de ser apenas uma alternativa para veículos leves e passou a ganhar espaço também em máquinas agrícolas e operações pesadas.
Outro ponto importante é que o biocombustível começa a avançar em novas frentes ligadas à transição energética global. Além do crescimento do etanol de milho, aumentam os estudos e investimentos relacionados ao SAF, combustível sustentável de aviação, e ao bio bunker voltado ao transporte marítimo. O mundo busca alternativas para reduzir emissões em setores considerados mais difíceis de descarbonizar, como aviação e navegação, e o Brasil reúne condições estratégicas para ocupar espaço relevante nesse movimento.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina voltou ao centro do debate nacional. A proposta do E32, elevando a mistura para 32%, gerou reações previsíveis de parte da indústria automotiva, que pediu mais testes técnicos antes da implementação definitiva. Esse debate é natural e faz parte de qualquer mudança estrutural importante, principalmente em um setor que envolve milhões de veículos e uma cadeia econômica complexa.
Mas o Brasil já enfrentou discussões semelhantes em outros momentos da história do etanol. Foi assim com os veículos flex fuel e também com os aumentos graduais das misturas anteriores. No fim, o país consolidou uma das matrizes de combustíveis renováveis mais avançadas do mundo. O debate técnico é necessário e precisa acontecer com responsabilidade, mas também é importante reconhecer os benefícios estratégicos que o aumento da mistura pode trazer para o país.
O avanço do E32 fortalece a segurança energética nacional, reduz a dependência de gasolina importada e amplia a demanda por um combustível renovável produzido internamente. Além disso, cria efeitos positivos em toda a cadeia produtiva, desde o campo até a indústria. Em um momento de expansão da produção de etanol, medidas como essa ajudam a equilibrar oferta, demanda e previsibilidade para o setor.
Existe ainda outro ponto importante nesse contexto. Em meio às transformações do mercado de energia e combustíveis, o setor sucroenergético também avançou internamente em uma pauta histórica: a revisão do modelo Consecana-SP. Depois de um longo período de negociações, produtores e indústria conseguiram construir um acordo que trouxe avanços importantes em governança, previsibilidade e remuneração para os fornecedores de cana. Talvez não tenha sido exatamente tudo o que o produtor esperava ou desejava neste primeiro momento, mas representa um avanço relevante depois de anos de discussões e impasses.
A definição do fator adicional de 4,5% garantido ao produtor nos contratos padrão, além do fortalecimento da governança técnica e da revisão periódica do modelo, ajuda a criar um ambiente mais seguro para o planejamento da atividade. E o mais importante é que esse movimento abre espaço para futuras evoluções do sistema, tornando as discussões mais objetivas e transparentes ao longo do tempo. Isso é fundamental em um momento em que o produtor precisa decidir sobre investimentos, renovação de canaviais, adoção de tecnologia e ampliação da eficiência dentro da propriedade.
O etanol continua sendo uma das poucas agendas capazes de unir competitividade, sustentabilidade, geração de renda e desenvolvimento regional. Claro que os desafios continuam. O produtor segue convivendo com custos elevados, pressão financeira e incertezas econômicas. Mas talvez a principal mensagem neste momento seja justamente essa: enquanto muitos enxergam apenas as dificuldades do presente, o etanol continua abrindo portas para o futuro e consolidando novas oportunidades para toda a cadeia sucroenergética.
Almir Torcato é diretor executivo da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canaoeste)
Compartilhe este artigo:
Veja também:
Você também pode gostar
Confira os artigos relacionados: