Plano Safra 2026/27 amplia crédito, mas desafio ao produtor permanece
Recursos crescem 1,7%, enquanto especialistas veem avanço limitado
O governo federal lançou o Plano Safra 2026/27 para a agricultura empresarial com R$ 525,1 bilhões em recursos destinados ao crédito rural, montante R$ 9 bilhões superior ao da safra anterior. Embora o programa reduza taxas de juros, amplie linhas de investimento e reforce incentivos à produção sustentável, especialistas avaliam que o crescimento dos recursos ainda é insuficiente para acompanhar a alta dos custos de produção e as demandas do setor.
Do total anunciado, R$ 384,9 bilhões serão destinados às operações de custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões às linhas de investimento. O Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) contará com R$ 72,6 bilhões, com taxa de juros de 9% ao ano, enquanto as linhas empresariais terão taxa máxima de 12,5%, abaixo das praticadas no ciclo anterior. Os recursos serão direcionados a projetos de armazenagem, irrigação, inovação tecnológica, recuperação de pastagens, eficiência energética e agricultura de baixo carbono.
Para o governo, a redução dos juros e o aumento dos investimentos fortalecem a capacidade de planejamento dos produtores e ampliam a competitividade da agropecuária. A política também mantém incentivos para projetos sustentáveis e aprimora regras do crédito rural, com maior transparência na utilização das fontes de financiamento e possibilidade de renegociação em situações excepcionais enfrentadas pelo produtor.
Análise aponta avanços, mas também limitações
Na avaliação da Cogo Inteligência em Agronegócio, o Plano Safra traz melhorias importantes, mas de alcance limitado. Entre os pontos positivos estão a redução das taxas de juros, o aumento de 41% dos recursos do Tesouro destinados à equalização dos financiamentos e a manutenção de condições favorecidas para os médios produtores. A consultoria também destaca a continuidade dos incentivos à agricultura de baixo carbono e à recuperação de pastagens, além da criação dos programas Move Agricultura e EcoInvest Brasil para ampliar as alternativas de financiamento do setor.
Apesar desses avanços, a Congo observa que o crescimento nominal de apenas 1,7% no volume de recursos não acompanha a inflação, a elevação dos custos de produção nem a expansão da agropecuária brasileira. Outro ponto levantado é que, mesmo com maior esforço fiscal do governo, o volume de crédito equalizado foi reduzido em relação ao ciclo anterior, indicando perda gradual da capacidade do modelo tradicional de financiamento rural.
O relatório também aponta redução de orçamento em nove das dez principais linhas tradicionais de investimento. Os cortes mais expressivos ocorreram no Moderfrota, Proirriga e Inovagro, programas voltados à mecanização, irrigação e inovação tecnológica. Na avaliação da consultoria, a diminuição dos recursos para irrigação ocorre justamente em um cenário de maior risco climático para a safra 2026/27, enquanto a redução do orçamento destinado à armazenagem mantém um dos principais gargalos logísticos do agronegócio brasileiro.
Mercado privado ganha protagonismo
Além das mudanças nas linhas oficiais, a análise da Cogo indica que o Plano Safra reforça uma transição observada nos últimos anos. A tendência é de aumento da participação de instrumentos privados de financiamento, como as Cédulas de Produto Rural (CPRs), as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e outras operações estruturadas pelo mercado financeiro. Para produtores e cooperativas, esse movimento amplia a necessidade de planejamento financeiro e de diversificação das fontes de recursos para viabilizar investimentos e custeio das próximas safras.
Finep lança programa para inovação no campo
Além das medidas voltadas ao crédito rural, o governo anunciou o Programa CooperaMais Brasil Tecnologia, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que destinará R$ 220 milhões ao desenvolvimento de soluções tecnológicas para a agricultura familiar e a aquicultura. A iniciativa foi apresentada durante o lançamento do Plano Safra e busca aproximar institutos de pesquisa, empresas e cooperativas para acelerar a adoção de inovação no campo.
Os recursos serão distribuídos em dois editais: R$ 100 milhões destinados a instituições científicas e tecnológicas para projetos de pesquisa, transferência de tecnologia e capacitação, e outros R$ 120 milhões em subvenção econômica para empresas desenvolverem máquinas, equipamentos e insumos voltados às necessidades da agricultura familiar e da pesca artesanal. Em ambos os casos, será obrigatória a parceria com cooperativas, garantindo que as tecnologias cheguem diretamente aos produtores.
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