Etanol alcança maior vantagem sobre a gasolina desde 2018
Oferta elevada reduz preços nas usinas e amplia a economia do consumidor
O etanol hidratado voltou a ganhar competitividade no mercado brasileiro e atingiu a maior vantagem frente à gasolina desde 2018. A combinação entre maior oferta, avanço da moagem e preços mais baixos nas usinas reduziu o valor do biocombustível nas bombas, ampliando a economia para o consumidor. Em contrapartida, o aumento da disponibilidade do produto mantém pressão sobre as cotações e preocupa parte das unidades produtoras, que convivem com estoques elevados.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), julho terminou com novas quedas nos preços do etanol em São Paulo. O movimento foi impulsionado pelo volume ofertado tanto por usinas paulistas quanto por produtores de outros estados, que abastecem as principais bases de distribuição do estado. Com mais produto disponível, os estoques cresceram e reduziram o poder de negociação dos vendedores.
As boas condições climáticas favoreceram o avanço das operações agrícolas e da moagem ao longo do mês. Ao mesmo tempo, a necessidade de geração de caixa levou parte das usinas a acelerar as vendas, oferecendo descontos maiores em algumas regiões. O Cepea observa que os negócios permaneceram concentrados em pequenos volumes durante quase todo o período, com reação discreta apenas nos últimos dias de julho.
Biocombustível amplia vantagem nas bombas
A redução dos preços aumentou a atratividade do etanol para o consumidor. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que o hidratado foi comercializado, em média, a R$ 3,70 por litro em São Paulo, enquanto a gasolina chegou a R$ 6,39.
Considerando o rendimento técnico de 73%, utilizado como referência para comparar os combustíveis, o preço equivalente do etanol seria de R$ 5,07 por litro. Na prática, isso representa economia de R$ 1,32 por litro abastecido ou R$ 79,29 em um tanque de 60 litros. Trata-se da maior vantagem registrada desde 2018 e da segunda maior desde o início da série histórica da ANP, em 2013.
A competitividade foi observada em todos os municípios pesquisados pela ANP em São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Em Mato Grosso, a paridade ficou em 55%, com o etanol vendido a R$ 3,74 por litro e a gasolina a R$ 6,80, diferença de R$ 3,06 entre os combustíveis. O resultado reforça a vantagem do biocombustível nas regiões onde a produção sucroenergética possui maior presença.
Para a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), a competitividade do etanol também fortalece a segurança energética do país diante das oscilações do mercado internacional de petróleo.
“A maior participação do etanol na matriz energética representa uma alternativa eficiente para substituir combustível fóssil, importado e mais caro pelo biocombustível produzido domesticamente com geração de renda, emprego, economia ao consumidor e menores emissões de gases de efeito estufa”, afirma Luciano Rodrigues, diretor de Inteligência Setorial e Regulação da Unica.
Açúcar registra reação e clima ganha importância
Além da movimentação no mercado de combustíveis, o açúcar cristal branco apresentou leve valorização nos últimos dias em São Paulo. Segundo o Cepea, a liquidez continua restrita, com compradores atuando de forma seletiva e concentrando as aquisições em volumes reduzidos.
O setor também acompanha os impactos da entrada em vigor da mistura obrigatória de 32% de etanol anidro na gasolina, válida desde 1º de agosto. A medida, prevista na Lei do Combustível do Futuro, pode reduzir entre 800 milhões e 1 bilhão de litros por ano a necessidade de importação de gasolina. Em 2025, o Brasil importou aproximadamente 3,5 bilhões de litros do combustível, segundo dados da ANP.
No campo, as atenções começam a se voltar para a evolução do El Niño. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) projeta intensificação do fenômeno entre agosto e outubro, com mudanças nos padrões de precipitação. Para o Centro-Sul, a expectativa é de chuvas mais frequentes durante o segundo semestre. O cenário tende a favorecer o desenvolvimento dos canaviais, mas também pode retardar a colheita e limitar o avanço do ATR, fatores que devem influenciar o comportamento do mercado ao longo da safra.
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