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Navegar pela incerteza também é produzir valor

O mercado muda rápido, mas gestão e informação seguem decisivas

Há momentos em que o maior desafio do produtor está dentro da porteira. Em outros, ele vem de fora. A safra 2026/27 reúne um pouco dos dois. Produzir bem continua sendo indispensável, mas já não basta. Em um ambiente de volatilidade, custos elevados e mudanças constantes, compreender o mercado passou a ser parte da estratégia de quem busca preservar rentabilidade.

Existe um comportamento recorrente no setor. Quando o ATR sobe, comemoramos. Quando cai, a primeira reação costuma ser procurar um culpado. Poucas vezes, porém, fazemos a pergunta mais importante: por que o preço mudou?

A remuneração da cana não nasce na usina nem termina na lavoura. Ela é resultado de uma cadeia que envolve o comportamento do açúcar e do etanol, o mercado internacional, o câmbio, o petróleo, o clima e as expectativas econômicas. O produtor administra sua propriedade, mas o valor da sua produção também é influenciado por decisões tomadas muito além da porteira.

Vivemos uma verdadeira “tempestade perfeita”. A combinação entre preços voláteis, eventos climáticos, custos elevados e incertezas econômicas reduziu a margem para erros. Nesse ambiente, informação deixa de ser diferencial para se tornar instrumento de gestão.

O preço da cana é consequência, não ponto de partida

O ATR concentra naturalmente a atenção do fornecedor, pois define sua remuneração. Mas ele é o resultado de um processo, não sua origem.

O modelo do Consecana foi construído justamente para traduzir, de forma transparente, o desempenho econômico dos produtos derivados da cana. O valor do ATR reflete o comportamento do açúcar, do etanol, do mix de produção das usinas e de diversos fatores que mudam ao longo da safra. Por isso, acompanhar apenas o número divulgado mensalmente oferece uma visão limitada da realidade.

Na abertura da safra 2026/27, o ATR foi projetado em R$ 0,9398 por quilo, considerando um mix de 56,15% para açúcar e 43,85% para etanol. Bastaram poucos meses para que as oscilações do mercado alterassem parte dessas perspectivas, mostrando como o cenário exige acompanhamento permanente.

Gestão separa quem reage de quem se antecipa

Os ciclos de alta e de baixa sempre fizeram parte do setor sucroenergético. A diferença está na forma como cada produtor atravessa esses momentos. Da mesma forma, políticas de incentivo são importantes para estimular investimentos e fortalecer a competitividade. O desafio surge quando esse processo deixa de considerar o equilíbrio do mercado como um todo. Expandir a oferta sem que a demanda acompanhe esse movimento tende a aumentar a pressão sobre preços e margens, afetando toda a cadeia produtiva.

Nesse contexto, conhecer os custos, acompanhar os mercados e planejar as decisões torna-se tão importante quanto produzir bem. Quem observa apenas o preço da cana reage aos acontecimentos. Quem compreende os fatores que formam esse preço consegue antecipar movimentos e reduzir sua exposição às oscilações do mercado.

Tem uma frase de Warren Buffett que resume bem esse momento: “Só quando a maré baixa é que descobrimos quem estava nadando sem roupa”. No agronegócio, os ciclos menos favoráveis cumprem exatamente esse papel. Eles revelam quais negócios foram estruturados apenas para aproveitar os bons momentos e quais construíram resultados sustentados por eficiência, disciplina e visão de longo prazo.

A volatilidade não deixará de existir. O que está ao alcance do produtor é desenvolver a capacidade de interpretar os sinais do mercado e transformar informação em decisão. Em um setor cada vez mais conectado aos mercados globais, navegar pela incerteza também é produzir valor.

Almir Torcato é diretor executivo da Canaoeste.

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