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Bicudo muda comportamento e desafia manejo da cana

Estudos indicam que monitoramento deve começar mais cedo

O monitoramento do Sphenophorus levis, conhecido como bicudo da cana, precisa começar mais cedo. Levantamentos realizados em diferentes regiões produtoras mostram que o pico populacional dos adultos, tradicionalmente esperado entre novembro e dezembro, passou a ocorrer entre setembro e outubro. A mudança altera o momento das intervenções e pode aumentar a eficiência do manejo da praga.

O assunto foi um dos destaques da palestra “Canavial sem promessas e mais resultados”, apresentada por Michel Fernandes, da MS Fernandes Consultoria, durante o InsectShow 2026, realizado pelo Grupo Idea em 22 de julho, em Ribeirão Preto – SP. A apresentação reuniu resultados obtidos ao longo de vários anos em áreas comerciais e questionou conceitos que, segundo o consultor, precisam ser reavaliados diante das condições observadas atualmente no campo.

Os primeiros levantamentos começaram há cerca de sete anos em um grupo sucroenergético de Minas Gerais. O objetivo era verificar se o comportamento da praga seguia o padrão descrito na literatura. Em vez disso, os monitoramentos passaram a registrar aumento da população adulta já entre setembro e outubro. A tendência foi confirmada em diferentes grupos produtores, indicando que a antecipação não se restringe a uma única região.

“A partir do momento que a gente acha que sabe tudo, estamos andando de lado”, disse Michel Fernandes, ao defender a revisão de conceitos consolidados sobre o bicudo.

Monitoramento orienta o manejo

Uma das pesquisas avaliou a concentração de adultos nos pontos de carregamento da cana. Durante dois anos, equipes acompanharam essas áreas para entender a dinâmica da infestação e testar aplicações localizadas de produtos com maior efeito residual, principalmente a partir de setembro, período em que a população adulta começa a aumentar.

Os estudos também colocam em discussão o número de aplicações necessárias para manter a praga sob controle. Ensaios conduzidos em áreas comerciais mostraram redução dos perfilhos atacados em comparação às áreas sem tratamento. Novas avaliações buscam identificar quais sequências de aplicações proporcionam maior eficiência ao longo da safra e podem contribuir para ampliar a longevidade do canavial.

Outro resultado relevante diz respeito ao comportamento do inseto. Durante três dias consecutivos, pesquisadores acompanharam as capturas ao longo das 24 horas e verificaram que praticamente toda a movimentação dos adultos ocorreu durante a noite. No período diurno, o bicudo permanece protegido sob a palha, informação que pode influenciar tanto o monitoramento quanto o posicionamento das operações de manejo.

Experimentos também indicaram diferenças na atratividade entre variedades de cana. Em um dos ensaios, aproximadamente 60% dos insetos migraram para apenas duas variedades avaliadas. A equipe investiga agora quais características desses materiais favorecem essa preferência e de que forma essa informação poderá ser incorporada às estratégias de manejo.

Zoneamento aumenta eficiência

Outra linha de pesquisa buscou mapear a distribuição da infestação dentro dos talhões. Em uma das áreas estudadas foram avaliados 197 pontos, permitindo identificar que grande parte dos ataques começa pelas bordaduras e avança aproximadamente entre 20 e 70 metros para o interior da lavoura. Essas informações deram origem ao zoneamento das áreas em níveis alto, médio e baixo de infestação, permitindo direcionar os investimentos para os locais de maior risco, principalmente em safras com restrição orçamentária.

Com base nesse mapeamento, o número de aplicações passa a ser definido de acordo com o histórico de infestação de cada área, substituindo recomendações padronizadas por intervenções direcionadas. Em um dos casos acompanhados pela consultoria, uma lavoura de segundo corte apresentou 42% de tocos atacados, evidenciando o impacto do bicudo quando a infestação não é identificada precocemente. Os primeiros resultados também indicam que um manejo mais preciso pode preservar a produtividade por mais tempo e acrescentar um a dois cortes ao ciclo econômico do canavial.

Resultados reforçam manejo integrado

Complementando a discussão, Silvio Marcussi, da IHARA, apresentou resultados de ensaios conduzidos em 2026. Em média de 20 experimentos, os tratamentos avaliados alcançaram até 95% de controle da cigarrinha entre 30 e 90 dias após a aplicação e produtividades próximas de 94 toneladas por hectare. Outro conjunto de 15 ensaios registrou média de 90 toneladas por hectare e 86% de controle de ninfas, reforçando a importância do posicionamento correto das aplicações e do monitoramento regional das populações.

“A cana não mente”, resumiu Michel Fernandes. Para o consultor, a resposta da lavoura deve orientar as decisões de manejo. As pesquisas continuam em áreas comerciais para validar estratégias como aplicações localizadas, monitoramento antecipado da população adulta, uso de armadilhas e zoneamento das lavouras. Os próximos resultados deverão contribuir para aperfeiçoar as recomendações de manejo do Sphenophorus levis, com intervenções cada vez mais direcionadas ao nível de infestação de cada área.

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