Recuperações judiciais avançam e deixam crédito mais restrito no agro
Pedidos crescem 21,9% e produtores pessoa jurídica lideram avanço
O avanço das recuperações judiciais no agronegócio tem aumentado a cautela de bancos, revendas de insumos e outros financiadores e tende a manter o crédito mais caro e restrito. No primeiro trimestre de 2026, foram registrados 474 pedidos, alta de 21,9% em relação às 389 solicitações do mesmo período do ano passado, segundo a Serasa Experian.
Os números foram apresentados durante o 15º Congresso Andav, realizado de 11 a 13 de agosto, em São Paulo. De acordo com Marcelo Pimenta, diretor-geral de Agronegócio da Serasa Experian, o movimento ainda é de alta entre as pessoas jurídicas, embora haja sinais de desaceleração entre produtores rurais que atuam como pessoa física.
“A quantidade de RJ continua a crescer entre as pessoas jurídicas, embora comece a ceder entre o produtor rural pessoa física”, afirmou Pimenta durante painel que discutiu os efeitos da recuperação judicial e as perspectivas para os mercados financeiro e de capitais.
A diferença entre os dois grupos é expressiva. Entre produtores rurais que atuam como pessoa jurídica, foram contabilizados 196 pedidos entre janeiro e março, aumento de 73,5% diante dos 113 registrados no primeiro trimestre de 2025. Foi o maior crescimento anual entre os três perfis acompanhados pela Serasa Experian.
O cultivo de soja concentrou 137 dessas solicitações, seguido pela criação de bovinos, com 42. Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul lideraram os registros entre produtores pessoa jurídica. Considerando todos os perfis analisados, Mato Grosso somou 135 pedidos no primeiro trimestre e ocupou a primeira posição entre os Estados.
Entre produtores rurais pessoa física, o movimento foi inverso. Foram 182 pedidos de recuperação judicial no período, queda de 6,7% em comparação com as 195 solicitações dos três primeiros meses de 2025.
Liquidez ganha peso nas decisões do setor
O aumento da percepção de risco já influencia as condições oferecidas aos produtores. Instituições financeiras, distribuidores de insumos e demais agentes que participam do financiamento da produção vêm reforçando critérios de análise e incorporando o risco à precificação das operações. “O crédito fica mais caro e restrito”, resumiu Pedro Fernandes, diretor de Agronegócio do Itaú BBA.
Com juros elevados e maior pressão financeira, preservar caixa e reduzir a dependência de recursos de terceiros passaram a ganhar importância nas estratégias das empresas do agronegócio. O economista Antônio da Luz defendeu maior rigor na concessão de crédito, redução do endividamento e atenção à liquidez durante o período de margens mais apertadas.
“É ano de fazer o número da receita, receber e gerar fluxo de caixa”, afirmou. Apesar das dificuldades de curto prazo, o economista mantém avaliação positiva sobre os fundamentos do agronegócio e vê perspectivas mais favoráveis para 2027. Até lá, a recomendação é reduzir a alavancagem e fortalecer a gestão financeira.
A pressão não está restrita aos produtores. Empresas relacionadas à cadeia do agronegócio fizeram 96 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre, crescimento de 18,5% diante das 81 solicitações registradas no mesmo período de 2025. As agroindústrias de transformação primária responderam por 23 pedidos, seguidas pelas indústrias de processamento de agroderivados, com 19.
O cenário ganha relevância diante do peso das distribuidoras de insumos no financiamento da produção brasileira. As empresas associadas à Andav estão presentes em 1.041 municípios e respondem por aproximadamente 20% do financiamento do agronegócio no país, conforme dados apresentados durante o congresso.
Ricardo Bonacin, CEO da Núcleo Agrícola, afirmou que a análise financeira passou a ter importância equivalente à atividade comercial dentro das empresas. “A concessão de crédito hoje se tornou um pilar tão importante quanto o comercial”, disse.
Para Aldair Santos, CEO da Precisão Rural, as decisões de crédito devem considerar informação, proximidade com o produtor e análises compartilhadas. Paulo Lima, sócio-diretor da RUMO.Agro, chamou a atenção para os desafios jurídicos e para a necessidade de aprimorar processos internos de concessão e buscar garantias mais efetivas.
Agregação de valor entra no radar do agronegócio
Além do ambiente financeiro, o cenário internacional também foi apontado como fator relevante para as decisões do setor. Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, destacou que a China alcançou elevada autossuficiência em produtos como arroz, trigo e suínos, mas ainda enfrenta limitações para ampliar a produção de milho e, principalmente, de soja.
Nos últimos 25 anos, as exportações brasileiras de soja para a China cresceram, em média, 9% ao ano. Cogo avalia que esse ritmo dificilmente será mantido, mas considera igualmente difícil que o país asiático alcance autossuficiência na oleaginosa devido às restrições de área e disponibilidade de água.
Diante de margens mais pressionadas no campo, o especialista apontou a agregação de valor como um dos caminhos para o agronegócio brasileiro nos próximos anos. “Daqui para frente, a agenda será a agregação de valor, com a soja sendo exportada também via biodiesel, carnes, outras proteínas, e assim por diante”, afirmou.
A combinação entre crédito mais seletivo, necessidade de geração de caixa e margens apertadas deve manter a gestão financeira entre as prioridades do setor nos próximos meses. A evolução dos pedidos de recuperação judicial ao longo de 2026 dependerá da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições de renegociação dos compromissos, enquanto uma melhora mais consistente do ambiente é esperada para 2027.
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