Agroindústria precisa de estratégia de Estado para ganhar competitividade
Congresso aponta regulação, crédito e inovação como desafios do setor
O avanço da agroindústria brasileira dependerá de uma estratégia de longo prazo capaz de combinar competitividade, inovação, financiamento e maior inserção internacional. A avaliação marcou os debates da edição de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio, Abag, e pela B3, em São Paulo, no dia 10 de agosto.
O encontro reuniu mais de 800 participantes e teve mais de 3 mil visualizações na transmissão online. Entre os principais pontos discutidos estiveram o ambiente regulatório, o elevado custo do crédito, a necessidade de novos acordos comerciais e a incorporação mais rápida de tecnologias pela indústria ligada ao campo.
Para Ingo Plöger, presidente da Abag, o crescimento do agronegócio precisa estar conectado ao desenvolvimento industrial e a uma atuação coordenada entre diferentes setores. Segundo ele, o País também necessita ampliar instrumentos capazes de sustentar investimentos e reduzir os riscos da atividade produtiva.
“Queremos ser uma nação de oportunidades e traduzir nossos anseios em um país que possa trabalhar de forma consequente”, afirmou. Para o executivo, pacificação, harmonia, trabalho e visão de longo prazo são elementos necessários para a construção desse ambiente.
Crédito e comércio exterior pressionam competitividade
A situação financeira do agronegócio foi apontada como um dos principais obstáculos para os próximos anos. Sérgio Vale, economista chefe da MB Associados, afirmou que o elevado endividamento do setor, combinado aos juros e à inflação, deverá continuar pressionando empresas e produtores.
“O tamanho da dívida do agro é grande e vai continuar sendo um desafio, assim como os juros e a inflação”, disse. Na avaliação de Vale, será necessário encontrar mecanismos capazes de ajustar as taxas sem provocar distorções nos demais segmentos do mercado.
O economista também chamou a atenção para a maior presença de produtos chineses no mercado brasileiro, que chegam com preços competitivos e aumentam a pressão sobre segmentos da indústria nacional. Nesse cenário, a ampliação dos acordos comerciais aparece como uma das frentes para fortalecer a inserção brasileira no exterior.
Alberto Pfeifer, Senior Policy Fellow do Insper Agro, destacou que o domínio brasileiro da produção tropical representa um ativo estratégico, mas precisa ser acompanhado por tecnologia e informação para ampliar a presença do País nas relações comerciais internacionais.
Luiz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da Canaplan e presidente do Conselho Estratégico de Alto Nível da Abag, ressaltou que a liderança brasileira em mercados como açúcar e soja amplia a importância do País no comércio agrícola, mas também aumenta sua exposição às mudanças econômicas e geopolíticas globais.
Regulação influencia ritmo dos investimentos
Além das condições financeiras e comerciais, a previsibilidade regulatória foi apontada como determinante para acelerar investimentos na agroindústria. Ana Repezza, presidente da CropLife Brasil, afirmou que marcos legais, proteção de cultivares e regras previsíveis são fundamentais para empresas que desenvolvem novas tecnologias.
Segundo ela, a agricultura tropical enfrenta elevada pressão de pragas e condições climáticas desafiadoras, o que exige acesso a diferentes ferramentas de manejo. A demora nos processos regulatórios pode retardar a chegada de novas moléculas e soluções ao produtor e afetar a competitividade da produção.
Ana avaliou que o Brasil dispõe de uma estrutura regulatória moderna, apesar das críticas recebidas internacionalmente. O desafio, segundo ela, está em atualizar os marcos legais no mesmo ritmo das inovações disponíveis para o setor.
A necessidade de previsibilidade também alcança os biocombustíveis. Gustavo Mariano, vice-presidente da Inpasa, afirmou que regras mais claras ajudam as empresas a reduzir custos e planejar investimentos diante das mudanças nos mercados internacionais.
“A velocidade de adoção de tecnologias para a melhoria dos processos é o caminho para uma agroindústria forte”, afirmou Mariano. Ele observou que a América Latina precisou responder rapidamente às novas exigências internacionais e que regulamentações em áreas como o transporte marítimo deverão provocar novas adaptações.
Tecnologia amplia espaço na estratégia industrial
A digitalização também entrou no debate sobre produtividade e eficiência. Gastón Díaz Pérez, presidente e CEO da Bosch América Latina, defendeu um ambiente regulatório que não imponha obstáculos desnecessários às empresas em um momento de juros elevados, volatilidade econômica e incertezas geopolíticas.
Segundo Pérez, ferramentas digitais já fazem parte das operações na América Latina e o desafio passa a ser sua aplicação eficiente. No caso da inteligência artificial, ele ressaltou que os modelos preditivos precisam caminhar junto com a qualificação profissional para que as empresas consigam aproveitar os ganhos proporcionados pela tecnologia.
Na palestra de encerramento, o ex-presidente Michel Temer defendeu o fortalecimento das exportações, o multilateralismo e a segurança institucional. “O fortalecimento da agroindústria contribui para ampliar a industrialização e a capacidade produtiva do País”, afirmou.
Temer também ressaltou que o Brasil deve preservar relações comerciais com diferentes mercados e evitar que questões ideológicas restrinjam oportunidades. Para os próximos anos, a capacidade de transformar escala agrícola em produção industrial de maior valor agregado deverá depender do avanço dos investimentos, da disponibilidade de crédito e da adaptação das regras às novas tecnologias.
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