Etanol brasileiro avança como opção para descarbonizar navios
Operação pioneira reforça potencial do etanol na descarbonização marítima
O etanol brasileiro começa a ganhar uma nova frente de demanda fora do transporte rodoviário. A navegação marítima, pressionada por metas internacionais de redução de emissões, avalia o biocombustível entre as alternativas para reduzir a intensidade de carbono das frotas.
O tema foi discutido no painel “Etanol na Navegação Marítima O Futuro Chegou”, nesta terça-feira (11), no primeiro dia da Fenasucro & Agrocana, em Sertãozinho – SP. Plínio Nastari, presidente da DATAGRO, afirmou que a demanda potencial do setor pode chegar a 225 milhões de toneladas de etanol, ante uma produção mundial de aproximadamente 100 milhões de toneladas.
“É um potencial muito grande. Hoje, a produção mundial de etanol é de 100 milhões de toneladas, o que equivale a 125 bilhões de litros. O mercado potencial para etanol só para navegação marítima são 225 milhões de toneladas”, disse.
Durante o painel, a Copersucar apresentou um vídeo de uma ação pioneira realizada no Porto de Santos, na qual um navio cargueiro preparado para operar com e-metanol foi abastecido com etanol. Henrique Araújo, diretor de Relações Institucionais e Governamentais da companhia, afirmou que a iniciativa é resultado de cerca de dois anos de trabalho e exigiu autorizações específicas, já que o biocombustível ainda não é homologado para esse tipo de embarcação.
O diretor explicou que o abastecimento também exigiu procedimentos específicos, entre eles uma entrada mais lenta do etanol no tanque devido à liberação de vapores. A experiência permitiu avaliar aspectos técnicos e de segurança e, segundo ele, demonstrou a possibilidade de utilização do combustível em embarcações projetadas para e-metanol.
“O que a gente tem constatado, e esse teste serviu para isso, inclusive para fins securitários, é que o navio a e-metanol é apto a usar etanol. Do ponto de vista energético, inclusive, o etanol é até mais eficiente do que o e-metanol e com um custo muito menor”, afirmou.
Etanol mira rotas marítimas regulares
A Copersucar já identifica quase uma dezena de navios em linhas regulares que passam pelo Brasil com condições para esse tipo de abastecimento. “O que a gente acredita é que o etanol faz parte das rotas”, disse Araújo.
Outras alternativas, como amônia e gases renováveis, também estão em avaliação pela indústria marítima. A escolha deverá considerar fatores como preço, disponibilidade e intensidade de carbono.
O presidente da DATAGRO comentou que cerca de 70 navios já estão adaptados para combustíveis dessa natureza e que a expectativa é superar 400 embarcações até 2027. Pelos cálculos apresentados no painel, um único navio abastecido exclusivamente com etanol poderia consumir cerca de 520 mil toneladas por ano, volume superior a 600 milhões de litros.
“Existe um certo senso de urgência e precisa aumentar a oferta de etanol certificado, que é o que o Brasil tem”, afirmou Nastari. Segundo ele, quanto menor a intensidade de carbono, maior tende a ser a demanda e a remuneração oferecida aos biocombustíveis sustentáveis.
Biometano reduz consumo de diesel até Santos
A Copersucar também utiliza biometano no transporte rodoviário de açúcar das usinas até o Porto de Santos. Segundo o diretor da companhia, a iniciativa já substitui entre 5 milhões e 6 milhões de litros de diesel, com emissões cerca de 90% menores. Atualmente, o biometano também apresenta custo inferior ao diesel nessa operação explicou.
Na safra atual, perto de 16% do volume movimentado pelas 42 usinas que integram o ecossistema da companhia já utiliza essa logística. Os caminhões movidos a biometano têm prioridade de entrada nos pátios reguladores de fluxo do porto.
“Em breve, queremos estar aqui falando de levar o açúcar para o porto com biometano e transportar o açúcar no navio com etanol”, afirmou Araújo.
Mário Ferreira Campos Filho, presidente da SIAMIG Bioenergia e da Bioenergia Brasil, avaliou que o crescimento da produção brasileira aumenta a necessidade de buscar novas fontes de demanda. Para ele, metas internacionais obrigatórias podem dar maior previsibilidade aos investimentos, embora o etanol dispute espaço com outras alternativas.
“Você tem ali um direcionamento claro de que precisa descarbonizar. Depois é com a gente. Nós vamos precisar ser competitivos para que a gente seja a alternativa escolhida por eles, porque também não temos só o etanol como opção”, alertou.
Regulação definirá ritmo da expansão
O avanço comercial depende agora da regulamentação. Araújo ressaltou que o etanol ainda não está contemplado em escala comercial nas regras brasileiras para combustíveis marítimos e que há discussões para incluir essa possibilidade.
“Estamos fazendo um trabalho, em uma frente institucional e política, para que o Brasil seja o primeiro, inclusive, a ter a regulamentação de etanol para uso marítimo, ainda aqui em águas nacionais”, disse.
Pedro Tavares Campos Neto, presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Açúcar e do Álcool, ligada ao Ministério da Agricultura e Pecuária, destacou a importância da continuidade das políticas para biocombustíveis. Ele citou o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina para 32% e as discussões sobre percentuais maiores.
Na navegação, os próximos passos dependerão da definição das regras internacionais e do avanço da regulamentação brasileira. A certificação da intensidade de carbono será outro fator para que operações como a realizada em Santos possam ganhar escala comercial.
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