Fertilizante micronizado eleva produtividade da cana em estudo
Pesquisa registra avanço na produção e melhora da fertilidade do solo
A aplicação de fertilizante à base de calcário micronizado elevou a produtividade da cana-de-açúcar e melhorou indicadores de fertilidade do solo em profundidade. Os resultados fazem parte de um estudo conduzido pelo Instituto Agronômico (IAC), em parceria com a Massari Fértil e a Morro Verde, publicado na revista STAB Açúcar, Álcool e Subprodutos.
No experimento, a área que recebeu o tratamento alcançou produtividade de 127,8 toneladas de cana por hectare, ante 85,1 toneladas por hectare no controle, que recebeu adubação NPK convencional. A diferença foi de aproximadamente 43 toneladas por hectare, segundo os dados apresentados pelos pesquisadores.
Além do resultado na produção, as análises identificaram aumento nos teores de cálcio, magnésio e fósforo, além de melhora do pH e da saturação por bases. Parte desses efeitos foi observada entre 25 e 30 centímetros de profundidade e, para alguns parâmetros e tratamentos, chegou a 35 centímetros, mesmo 404 dias após a aplicação.
“Investir na construção de um solo fértil é investir na base de toda a lavoura. Nossos resultados mostram que, ao micronizar o calcário, conseguimos corrigir a acidez em camadas mais profundas do solo, e isso muda o jogo para o desenvolvimento das raízes e o aproveitamento dos nutrientes”, afirma Claudio de Jesus Monteiro, pesquisador da Massari e um dos autores do estudo.
Correção avança para camadas mais profundas
A acidez dos solos está entre os fatores que limitam o potencial produtivo da agricultura brasileira. De acordo com os pesquisadores, solos com pH inferior a 5,5 favorecem maior concentração de alumínio tóxico, condição que prejudica o alongamento das raízes e reduz a capacidade das plantas de absorver água e nutrientes.
A pesquisa avaliou o uso de partículas mais finas de calcário como alternativa para ampliar a eficiência da correção. Segundo Monteiro, a menor granulometria acelera a reação do material e favorece sua atuação no perfil do solo, criando condições para que as raízes explorem camadas mais profundas.
“Partículas menores reagem mais rápido e conseguem descer no perfil do solo, o que potencializa a correção química em profundidade. Com isso, a raiz encontra espaço para crescer mais, e a cultura fica mais preparada para enfrentar períodos de estiagem”, explica.
O experimento foi realizado em um canavial de terceiro corte da cultivar IACSP95-5094, em solo classificado como LVE. O tratamento reuniu DGMS, enxofre, Fosfakal 20:20, boro e zinco, com aplicação de quatro toneladas por hectare.
Ao longo da safra, foram realizadas quatro campanhas de amostragem. As avaliações mais detalhadas ocorreram aos 180 e aos 404 dias após a aplicação, com coleta de amostras entre zero e 80 centímetros de profundidade, em intervalos de dez centímetros.
Efeito permanece mais de um ano após aplicação
Aos 180 dias, os pesquisadores identificaram aumento significativo na disponibilidade de fósforo entre 15 e 45 centímetros de profundidade. A saturação por bases ficou próxima de 80% na camada superficial, permaneceu acima de 75% até 25 centímetros e superou 60% até 35 centímetros.
O cálcio também apresentou avanço. Sua participação na capacidade de troca catiônica passou de cerca de 40% para mais de 60% na camada superficial e permaneceu acima do patamar considerado ideal para solos férteis até aproximadamente 35 centímetros.
Os efeitos não ficaram restritos aos primeiros meses. Após 404 dias, o tratamento ainda apresentava níveis superiores de cálcio, magnésio, pH e saturação por bases em comparação ao controle, resultado apontado pelos autores como evidência do efeito residual da tecnologia.
As avaliações do sistema radicular mostraram ainda maior crescimento das raízes em profundidade nas áreas tratadas. Segundo os pesquisadores, a melhoria das condições químicas amplia o volume de solo explorado pela planta e, consequentemente, o acesso à água e aos nutrientes.
“Ao corrigir a fertilidade abaixo da camada superficial, ampliamos o espaço que a raiz tem para se desenvolver. É esse volume maior de solo explorado, com mais água e nutrientes disponíveis, que explica boa parte do ganho de produtividade que registramos no experimento”, afirma Monteiro.
Manejo do solo ganha peso diante do clima
O fertilizante avaliado também foi desenvolvido para disponibilizar nutrientes gradualmente durante o ciclo da cultura, reunindo fontes de cálcio, magnésio, fósforo, enxofre e micronutrientes em uma única formulação.
Os resultados indicam que o manejo da fertilidade abaixo das camadas superficiais pode ganhar importância na busca por canaviais mais produtivos e com maior capacidade de enfrentar períodos de restrição hídrica. A persistência dos efeitos após mais de um ano também abre espaço para avaliar o impacto da tecnologia ao longo de novos cortes. Para o produtor, o próximo passo será acompanhar se os ganhos registrados no experimento se mantêm em diferentes condições de solo, clima e manejo. Essa resposta será relevante para dimensionar o potencial da estratégia de elevar a produtividade e prolongar a vida útil dos canaviais sem depender da expansão da área cultivada.
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