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Murcha atinge 14,5% de área avaliada em 107 mil hectares

Levantamento da Atvos indica impacto potencial de 658 mil toneladas de cana

A Síndrome da Murcha da Cana ganhou espaço entre as preocupações do setor sucroenergético diante dos impactos sobre produtividade e da dificuldade de identificar o problema apenas pelos sintomas externos. Levantamento realizado pela Atvos em 107 mil hectares apontou incidência média de infecção de 14,5%, enquanto 40% da área apresentou índice superior a 15%.

Os números foram apresentados durante o I Grande Encontro de Doenças da Cana e II Simpósio Nacional da Síndrome da Murcha da Cana, realizado nesta terça-feira (29), em Ribeirão Preto – SP. O evento reuniu cerca de 300 profissionais no Centro de Cana do Instituto Agronômico (IAC).

Segundo Inayê Parente Almeida Campos, especialista de Experimentação Agrícola e Fitossanidade da Atvos, o índice de 15% é utilizado pela companhia como gatilho para antecipar a colheita. A avaliação dos colmos também mostrou a dificuldade de dimensionar o problema visualmente.

“Quase metade dos casos identificados só foi encontrada após a abertura dos colmos. Ou seja, observar apenas os sintomas externos poderia levar a uma subestimativa da presença da doença”, afirmou.

Com base na incidência encontrada e em uma estimativa conservadora de perdas, a companhia calculou impacto potencial de 658 mil toneladas de cana nos 107 mil hectares avaliados.

Perdas alteraram expectativa de produção

A dimensão do problema começou a ficar mais evidente para a Atvos em 2024. A empresa iniciou a safra com TCH acima do planejado e chegou a trabalhar com a possibilidade de sobra de cana ao final do ciclo. A ocorrência da síndrome, porém, contribuiu para uma redução de 10% na produção final.

Os resultados levaram à ampliação dos levantamentos e dos experimentos de manejo. Em 13 ensaios consolidados com fungicidas e diferentes estratégias de aplicação, os tratamentos reduziram, em média, 52% dos colmos doentes e 35% dos colmos mortos em relação às áreas sem tratamento.

A resposta também apareceu nos indicadores produtivos. O ganho médio chegou a cerca de 4 toneladas de cana por hectare no TCH e a aproximadamente 1 tonelada de açúcar por hectare no TAH. O ATR apresentou aumento médio de 8 quilos por tonelada.

Apesar dos resultados, as apresentações do encontro reforçaram que a murcha não deve ser associada automaticamente a um único agente. Fungos, nematoides, cigarrinhas, brocas, condições ambientais e outros fatores podem produzir sintomas semelhantes ou atuar simultaneamente sobre a planta.

Diagnóstico orienta estratégia de manejo

Abel Galon Torres, consultor em Fitopatologia do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), destacou que encontrar determinado fungo em uma amostra não significa, isoladamente, que ele seja responsável pelo problema observado no campo. Até o ponto do colmo escolhido para análise pode alterar o resultado. “O laudo vai representar aquilo que você enviou”, afirmou Torres.

A fitopatologista Fernanda Dias Pereira, da Croppen, também apontou a necessidade de identificar quais agentes predominam em cada área antes da definição do tratamento. Entre os patógenos citados estão Fusarium, Colletotrichum e Phaeocytostroma, que podem aparecer isoladamente ou em combinação com outros problemas.

Além do diagnóstico, as discussões apontaram para estratégias integradas, com controle de pragas e nematoides, nutrição equilibrada, proteção do sistema radicular e redução dos estresses enfrentados pela planta.

A relação entre incidência e produtividade foi dimensionada em dados apresentados pelo consultor João Ulisses de Andrade, da AGR Cana. Uma correlação construída a partir de acompanhamentos dos últimos 15 anos indicou redução de aproximadamente 2,65% no TAH para cada 1% de entrenós infectados com SMC de grau 2 ou superior.

O encontro também marcou o lançamento do livro “Doenças da Cana-de-Açúcar: Manual de Identificação”, de Sizuo Matsuoka. A obra reúne informações e fotografias catalogadas ao longo da carreira do pesquisador para auxiliar na identificação das principais doenças da cultura.

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