Tecnologia no campo avança, mas adoção ainda enfrenta gargalos
Validação, organização de dados e infraestrutura limitam uso de novas soluções
A agricultura brasileira já dispõe de inteligência artificial, robótica, sensores e ferramentas digitais capazes de apoiar a produção. O desafio agora está menos na disponibilidade dessas tecnologias e mais na capacidade de incorporá-las à rotina das propriedades, com soluções que respondam a problemas concretos e gerem retorno ao produtor.
A avaliação esteve entre os principais pontos discutidos no painel Agricultura do Futuro, durante o Campinas Innovation Week 2026, realizado recentemente em Campinas – SP. O encontro reuniu pesquisadores, empresas e representantes do ecossistema de inovação para discutir a aplicação de novas tecnologias em diferentes realidades da produção agrícola.
As discussões passaram por inteligência artificial, robótica, conectividade, integração de dados, recuperação de solos e sistemas integrados de produção. Um dos pontos levantados foi a necessidade de reduzir a distância entre o desenvolvimento de uma solução e sua utilização efetiva no campo.
Tecnologia precisa funcionar dentro da operação
Para Allan Daher, coordenador de Inovação e Marketing do AgNest Farm Lab, comprovar tecnicamente o funcionamento de uma ferramenta é apenas uma etapa do processo de validação. A adoção depende também de facilidade de uso, integração com a operação e capacidade de transformar os dados gerados em decisões.
“É preciso entender se o produtor consegue utilizar a solução, se ela se integra à sua operação, se os dados gerados são realmente úteis para uma tomada de decisão e, principalmente, se existe geração de valor que justifique sua adoção”, afirmou.
O acesso às tecnologias também varia conforme o perfil da propriedade. Eugênio Brito, gestor de Inovação e Linhas de Fomento do Parque Tecnológico de Sorocaba, destacou a necessidade de desenvolver alternativas compatíveis com a agricultura familiar e soluções de menor custo para pequenos e médios produtores.
Daniel Albiero, professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, avaliou que a agricultura digital já está presente no País. Entre as aplicações, citou o uso de robôs equipados com inteligência artificial como alternativa diante da redução da disponibilidade de mão de obra no campo. “Não digo que é a agricultura do futuro. Hoje é a agricultura atual”, disse.
Dados ainda limitam avanço da agricultura digital
A incorporação de equipamentos e softwares, porém, não resolve sozinha os desafios da digitalização. A estrutura necessária para armazenar, integrar e interpretar as informações geradas ainda representa uma barreira para parte das empresas e propriedades.
José Damico, CEO e cofundador da SciCrop, apontou que a falta de infraestrutura e conhecimento para trabalhar com dados compromete o aproveitamento das ferramentas disponíveis.
“Ainda existem empresas que não têm infraestrutura de dados e falta conhecimento. Esse é um dos principais gargalos. Pode-se ter o melhor hardware ou software, mas é preciso organizar os dados”, afirmou.
O debate também apontou dificuldades para levar soluções desenvolvidas em projetos-piloto a uma escala maior. Diferenças de infraestrutura e das condições de produção entre regiões e propriedades exigem adaptações e ampliam a necessidade de capacitação para acompanhar a transformação tecnológica do setor.
Tecnologia também avança sobre recuperação de áreas
A inovação no campo também vem sendo direcionada à recuperação de áreas degradadas e ao acompanhamento das condições do solo. Ferramentas de monitoramento passaram a integrar estratégias voltadas à agricultura regenerativa e à adoção de sistemas integrados de produção.
As discussões abordaram manejo, monitoramento, recuperação de pastagens degradadas e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Nesse processo, a geração de dados pode ajudar a medir resultados e orientar ajustes nos sistemas produtivos.
Gabriel Moura, coordenador do programa REVERTE, da Syngenta, defendeu a ampliação das iniciativas e da geração de informações sobre os resultados das práticas regenerativas. O programa é voltado à transformação de pastagens e áreas degradadas em áreas produtivas, com recuperação de terras sem necessidade de abertura de novas fronteiras de desmatamento.
Para os participantes, o avanço dessas soluções depende da aproximação entre produtores, empresas, startups e instituições de pesquisa. A avaliação é que tecnologias desenvolvidas fora da propriedade precisam ser testadas e adaptadas às condições de produção antes de ganhar escala.
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