Brasil aproveita menos de 2% do potencial de biometano da cana
Resíduos do setor podem ampliar oferta nacional do combustível renovável
O setor sucroenergético brasileiro tem capacidade estimada para produzir 41,4 bilhões de m³ de biometano por ano, mas menos de 2% desse volume é aproveitado atualmente. O montante equivale a mais de 41 bilhões de litros de diesel e evidencia o espaço para transformar resíduos da cana-de-açúcar em combustível renovável.
Os dados fazem parte de um estudo internacional encomendado pelo Instituto MBCBrasil e desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Instituto Agronômico (IAC) e Instituto Mauá de Tecnologia.
O levantamento reúne evidências científicas e econômicas sobre o uso do biometano no transporte terrestre. Produzido pela biodigestão de matérias-primas como vinhaça, dejetos animais, lixo urbano e esgoto, o combustível aparece como alternativa principalmente para veículos pesados e operações de longa distância.
No mundo, biogás e biometano têm potencial sustentável estimado em cerca de 1 trilhão de m³ por ano, volume equivalente a aproximadamente 25% da demanda global de gás natural. O biometano já é produzido em cerca de 40 países e utilizado no transporte em quase 30 mercados.
Brasil pode exportar tecnologia de biometano
Além da produção do combustível, o avanço desse mercado abre espaço para fornecedores brasileiros de equipamentos, engenharia e serviços. A indústria nacional acumulou experiência em biodigestores verticais, sistemas de purificação de gás, transporte de biometano liquefeito e integração da produção com fertilizantes de baixo carbono.
Parte desse conhecimento foi desenvolvida no aproveitamento de vinhaça e torta de filtro pelas usinas. Segundo o estudo, as soluções adotadas no Brasil podem atender países da América Latina, Ásia e África com produção agrícola relevante e infraestrutura de biodigestão ainda limitada.
“Dentro desse cenário mundial, o Brasil se destaca pela escala, mas a grande oportunidade do país não é apenas produzir o combustível, e sim liderar o fornecimento de tecnologia, equipamentos, engenharia e soluções integradas desenvolvidas aqui para outros mercados que buscam se descarbonizar”, afirmou Gláucia Mendes Souza, professora da USP e uma das autoras do estudo.
Outros mercados também estabeleceram metas para ampliar a oferta. A União Europeia pretende alcançar 35 bilhões de m³ de biometano por ano até 2030, dentro do plano REPowerEU, com investimentos estimados em € 37 bilhões. Os Estados Unidos já contam com 470 projetos de gás natural renovável.
Biometano reduz custo no transporte pesado
No transporte pesado, a substituição do diesel pelo biometano pode reduzir entre 45% e 75% as emissões de CO₂ equivalente, considerando o ciclo completo do combustível. Em projetos que também evitam a liberação do metano proveniente da decomposição de resíduos, o balanço pode ficar até 246% abaixo das emissões associadas ao diesel.
O estudo aponta ainda redução de até dez vezes nas emissões de material particulado e fuligem em relação aos combustíveis fósseis líquidos. A vantagem ambiental pode ser acompanhada por custos menores de operação.
Simulações de custo total de propriedade no Brasil, que consideram aquisição, manutenção e operação dos veículos, indicam US$ 1,73 por quilômetro para gás natural comprimido ou biometano, ante US$ 1,87 para o diesel. No gás natural liquefeito, o custo estimado é de US$ 1,59.
As plantas também podem obter receitas além da comercialização do combustível. Em mercados mais maduros, entre 20% e 60% do faturamento pode vir de atividades como tratamento de resíduos, venda de digestato como biofertilizante e créditos de carbono.
Vinhaça amplia matéria-prima disponível no país
A dimensão da produção brasileira de cana-de-açúcar favorece a disponibilidade de matéria-prima. Na safra 2024/25, o país processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana, atividade que gerou aproximadamente 380 bilhões de litros de vinhaça.
Projetos comerciais já aproveitam esse material. Em Narandiba – SP, uma unidade da Cocal produz cerca de 50 mil Nm³ de biometano por dia a partir de vinhaça e torta de filtro. Em Paraguaçu Paulista – SP, outra planta da companhia produz entre 30 mil e 40 mil Nm³ diários.
O mercado também avança com outras matérias-primas. Em Paulínia – SP, uma unidade abastecida por gás de aterro sanitário tem capacidade nominal de até 225 mil Nm³ por dia. Em Goiânia – GO, foi anunciada a conversão da frota de ônibus urbanos para o uso de biometano produzido a partir de resíduos.
No ambiente regulatório, a Lei do Combustível do Futuro criou o Certificado de Garantia de Origem de Biometano e estabeleceu uma meta compulsória de redução de emissões no mercado de gás natural. O percentual começa em 0,5% em 2026 e poderá avançar gradualmente até 10%.
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