Oferta de etanol cresce mais rápido que demanda e desafia setor
UNICA vê pressão no curto prazo e aposta em novos mercados para ampliar o consumo
A produção brasileira de etanol deve aumentar cerca de 7 bilhões de litros entre 2026 e 2027, ampliando a pressão sobre um mercado que ainda depende principalmente do consumo doméstico. A expansão, impulsionada sobretudo pelo milho, ocorre enquanto novas oportunidades na aviação e no transporte marítimo ainda precisam ganhar escala.
O descompasso foi destacado por Luciano Rodrigues, diretor de Economia e Inteligência Setorial da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), durante o Vision Tech Summit – A Usina do Amanhã 2026, realizado nos dias 7 e 8 de outubro, em Ribeirão Preto – SP.
“A oferta está crescendo de maneira mais rápida do que todo esse potencial de demanda”, afirmou. Na avaliação do executivo, o setor precisará fortalecer o consumo de etanol nos mercados atuais, desenvolver novas aplicações e melhorar a eficiência das unidades produtoras para enfrentar um período de maior pressão sobre os preços.
Mercado interno ainda tem espaço para crescer
O mercado brasileiro oferece uma possibilidade de expansão que não depende da abertura de novas frentes de consumo. Em 2025, o etanol hidratado respondeu por 28,8% do consumo da frota flex. Mesmo nos municípios onde apresentava vantagem econômica em relação à gasolina, menos da metade dos motoristas escolheu o biocombustível.
A UNICA calcula que, somente nessas localidades, a adesão de dois terços dos consumidores elevaria a demanda em 10,6 bilhões de litros. O volume seria suficiente para absorver o crescimento da produção previsto para os próximos dois anos, embora sua concretização dependa de uma mudança no comportamento dos motoristas.
Rodrigues considera que o setor precisa investir mais na comunicação com o consumidor. A entidade tem realizado pesquisas com motoristas, frentistas, donos de postos e profissionais de oficinas para compreender por que o etanol nem sempre é escolhido, mesmo quando apresenta preços competitivos.
Outra mudança poderá vir da reforma tributária. Com a implementação gradual das novas regras até 2031, a tendência é de redução das diferenças de tributação entre os estados, favorecendo a comercialização do etanol fora das regiões produtoras. O custo do transporte, porém, continuará influenciando sua competitividade.
Aviação abre mercado bilionário, mas concorrência será maior
Enquanto o mercado doméstico oferece uma resposta mais imediata, a aviação representa uma oportunidade de longo prazo. A demanda mundial por combustível sustentável de aviação (SAF) poderá alcançar aproximadamente 449 bilhões de litros em 2050, quando o produto responderia por 65% do consumo de combustíveis do setor aéreo, conforme as projeções apresentadas.
O etanol pode ocupar parte desse mercado por meio da tecnologia Alcohol-to-Jet (ATJ), que permite sua conversão em combustível de aviação. Rodrigues utilizou como referência uma relação aproximada de dois litros de etanol para produzir um litro de SAF, o que demonstra a dimensão da demanda potencial.
A dificuldade estará na concorrência com outras matérias-primas. Além do querosene fóssil, o etanol terá de disputar espaço com combustíveis sustentáveis produzidos a partir de óleos vegetais, gorduras, resíduos agrícolas e hidrogênio. A escolha entre essas alternativas dependerá principalmente dos custos de produção e da intensidade de carbono.
No transporte marítimo, o diretor da UNICA identifica uma possibilidade de avanço mais rápido. Embarcações com sistemas de propulsão preparados para metanol oferecem uma alternativa para o uso de etanol, embora ainda existam exigências técnicas e regulatórias para sua adoção comercial.
O setor aguarda definições da Organização Marítima Internacional (IMO) sobre os mecanismos de redução e precificação das emissões. O adiamento das decisões sobre o marco regulatório mantém incertezas para os investimentos, apesar das metas internacionais de descarbonização estabelecidas para as próximas décadas.
Biometano busca ampliar participação no mercado de gás
O biometano é outra alternativa para diversificar a receita das usinas, mas ainda ocupa uma parcela reduzida do mercado brasileiro de gás. Sua produção passou de 36 milhões de metros cúbicos em 2020 para 82 milhões em 2024, enquanto o consumo nacional de gás natural alcançou 28 bilhões de metros cúbicos naquele ano.
O Programa Nacional do Biometano pode contribuir para mudar essa relação. A meta inicial de redução de emissões de 0,5%, prevista para 2026, representa uma demanda estimada em 200 milhões de metros cúbicos do combustível renovável.
Uma das novidades é o Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB), que permite negociar o atributo ambiental do produto separadamente da entrega física do gás. Com isso, consumidores poderão adquirir certificados vinculados à produção renovável, sem depender necessariamente do transporte direto entre a unidade produtora e o local de consumo.
A estrutura de produção também deverá crescer. O país conta com 19 plantas autorizadas, com capacidade conjunta de 1,2 milhão de metros cúbicos por dia. A previsão apresentada é chegar a 48 unidades até o final de 2027, quando a capacidade poderá alcançar 2,4 milhões de metros cúbicos diários.
Competitividade exigirá menor emissão e maior produtividade
A conquista desses mercados dependerá não apenas da capacidade de produzir mais, mas também das condições em que os combustíveis chegam ao consumidor. Rodrigues destacou que a integração entre cana e milho e a diversificação de produtos deram maior flexibilidade à indústria, permitindo combinar receitas de açúcar, etanol, bioeletricidade, biogás e biometano.
A intensidade de carbono já é um indicador importante dessa competitividade. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que mais de 280 empresas produtoras de etanol estão certificadas pelo RenovaBio. Entre as unidades certificadas, os índices de emissão do hidratado variam de aproximadamente 16 a 50 gramas de CO₂ equivalente por megajoule.
A diferença entre as usinas poderá influenciar tanto o acesso aos novos mercados quanto a remuneração dos combustíveis. Na aviação e no transporte marítimo, a redução das emissões tende a pesar cada vez mais na escolha dos fornecedores.
Dentro das próprias unidades produtoras, também existe espaço para ampliar o consumo de energia renovável. As atividades relacionadas à produção de cana e milho destinados ao etanol respondem por aproximadamente 6% a 7% do diesel consumido no Brasil, segundo o executivo. A substituição desse combustível nas operações agrícolas e industriais representa uma oportunidade adicional para o setor.
Esse esforço ganha importância diante da expansão prevista para a capacidade instalada. Dados da ANP apresentados no evento indicam 26 novos projetos de produção de etanol, que poderão acrescentar 17 mil metros cúbicos diários à oferta nacional. O milho responde por 85% dessa capacidade adicional.
Para Rodrigues, a ampliação da produção deverá vir acompanhada de ganhos de eficiência e redução de custos, em um mercado no qual os biocombustíveis terão de competir não apenas com os derivados de petróleo, mas também entre si. “Não vai ser só olhar preço de gasolina, eu vou ter que olhar muitas outras coisas”, afirmou.
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