“Garapeiros” e “pipoqueiros” fazem as contas para investir em etanol
Custos, logística, incentivos e sustentabilidade orientam decisões do setor
O avanço do etanol de milho, a pressão sobre as margens e as diferenças regionais de produção estão mudando as decisões de investimento dos grupos sucroenergéticos. Embora o setor mantenha projetos de expansão, a prioridade é assegurar a rentabilidade, reduzir custos e avaliar se haverá mercado para absorver a oferta adicional de biocombustíveis. A disponibilidade de biomassa, os incentivos fiscais e a logística também pesam nas contas das empresas.
O tema marcou o painel Líderes da Bioenergia, Margens, Investimentos e Próximas Decisões, realizado durante o Vision Tech Summit – A Usina do Amanhã 2026, nos dias 7 e 8 de outubro, em Ribeirão Preto – SP. O encontro reuniu Renato Pretti, CEO e presidente do Grupo CerradinhoBio, Ricardo Toniello, diretor administrativo financeiro do Grupo Viralcool, Felipe Vicchiato, CFO do Grupo São Martinho, e Hugo Cagno Filho, presidente da União Nacional da Bioenergia (UDOP) e diretor-presidente da Usina Vertente. A moderação foi de Alexandre Ramos, CEO do Grupo Visão Agro.
Ao chamar os produtores de etanol de cana de “garapeiros” e os de milho de “pipoqueiros”, Toniello recorreu ao humor para tratar das particularidades de cada atividade. “A associação de tudo é a melhor alternativa”, afirmou. O executivo reconheceu as vantagens do milho, mas ponderou que sua competitividade depende também da disponibilidade de biomassa, dos custos logísticos, das condições tributárias e das exigências ambientais. São fatores que podem tornar um investimento viável em determinada região, mas pouco atraente em outra.
Investimentos exigem retorno mesmo em cenários adversos
Na CerradinhoBio, a aprovação de novos empreendimentos depende de testes que consideram preços desfavoráveis, condições de financiamento e alinhamento com as atividades da companhia. Pretti citou a implantação da fábrica de açúcar em Chapadão do Céu, em Goiás, como exemplo de investimento voltado à diversificação das receitas e ao melhor aproveitamento da estrutura industrial existente.
No Grupo Viralcool, a expansão recente ocorreu por meio da aquisição de ativos próximos às unidades existentes. Toniello citou a incorporação da antiga Unidade Andrade, em Ibitiúva, distrito de Pitangueiras, e da Usina Furlan como oportunidades de integração agrícola e industrial. A proximidade das operações favorece o compartilhamento de estruturas, a redução de despesas e o aproveitamento da capacidade de processamento.
A São Martinho também passou a concentrar esforços na eficiência após um período de investimentos expressivos em etanol de milho. Vicchiato informou que a companhia está concluindo sua segunda unidade de produção do biocombustível, em Goiás, com previsão apresentada no painel de início das operações em junho ou julho de 2027. A decisão sobre novos projetos dependerá das condições de mercado, sobretudo dos preços do etanol, do petróleo e da gasolina.
Enquanto isso, a empresa busca reduzir o custo agrícola e ampliar a produtividade das unidades de cana. O executivo mencionou a aquisição de aproximadamente 8 mil hectares ligados à antiga operação da Santa Elisa, em Sertãozinho – SP, por cerca de R$ 200 milhões, como exemplo de investimento destinado a aproveitar melhor a estrutura existente.
Expansão do milho aumenta pressão sobre as margens
Para Vicchiato, o etanol de milho apresenta custos de produção inferiores aos do biocombustível de cana, uma diferença que deverá influenciar as decisões das empresas nos próximos anos. O executivo observa que diversas destilarias já anunciadas têm investimentos encaminhados e contratos de fornecimento de biomassa, o que deve sustentar o crescimento da produção mesmo diante de preços menos favoráveis.
“Se não tiver mercado além do mercado brasileiro de etanol, mercados novos para exportar nos próximos anos, a gente vai ter uma sobreoferta de etanol aqui no Brasil”, alertou.
A preocupação se estende à situação financeira das companhias. Segundo o diretor da São Martinho, os juros elevados e a inflação dos custos industriais e agrícolas comprometeram a capacidade de investimento, sobretudo entre os grupos mais endividados. A chegada de novos volumes ao mercado poderá ampliar as dificuldades dessas empresas caso a demanda permaneça próxima dos níveis atuais.
Na CerradinhoBio, a diversificação das atividades reduziu a dependência das oscilações do etanol. Pretti explicou que, há cinco anos, aproximadamente 80% das receitas vinham do biocombustível. Atualmente, essa participação está próxima de 50%, após o crescimento da produção de açúcar e a ampliação das receitas com coprodutos.
O milho responde hoje por cerca de 70% da receita líquida do grupo, enquanto a unidade de cana representa os outros 30%. Nas operações de milho, DDG e óleo correspondem a aproximadamente 20% da receita líquida. Já na cana, a comercialização de energia elétrica participa com até 5%.
Essa composição permite à empresa equilibrar fontes de receita com características diferentes. O açúcar oferece a possibilidade de fixar preços para períodos mais longos, enquanto o etanol acompanha mais diretamente as oscilações do mercado doméstico de combustíveis. Pretti citou meses em que a operação de cana apresentou resultado superior ao milho, beneficiada pela comercialização antecipada do açúcar.
Terras e biomassa limitam a expansão em algumas regiões
A disponibilidade de matéria-prima e energia foi um dos principais contrapontos à vantagem de custos atribuída ao milho. Cagno questionou a possibilidade de reproduzir em São Paulo o crescimento observado no Centro-Oeste, onde a oferta de grãos e a disponibilidade de áreas agrícolas favorecem a instalação de destilarias.
Como exemplo, citou a Usina Vertente, que processa aproximadamente 2,5 milhões de toneladas de cana em uma área de 30 mil hectares. Segundo seus cálculos, para obter volume equivalente de etanol a partir do milho seriam necessários cerca de 65 mil hectares destinados ao cereal, além de 35 mil hectares de florestas para fornecimento de biomassa. “Onde São Paulo tem essa área? São Paulo não consegue mais nem achar área para plantar cana”, questionou.
O presidente da UDOP também levantou dúvidas sobre as condições ambientais da expansão do etanol de milho em Mato Grosso. O executivo criticou a possibilidade de utilização de biomassa de vegetação nativa, mediante autorizações estaduais, enquanto produtores paulistas enfrentam restrições rigorosas para a supressão de árvores. Na avaliação dele, as diferenças de exigências ambientais precisam ser consideradas quando se comparam os custos dos empreendimentos.
Pretti reconheceu que a disponibilidade de biomassa poderá se tornar uma barreira à instalação de novas destilarias, principalmente em regiões onde a demanda por essa matéria-prima para geração de vapor já é elevada. A CerradinhoBio realizou um estudo sobre a oferta desse insumo no Centro-Oeste antes de decidir pelo investimento em uma unidade de etanol de milho em Maracaju, no Mato Grosso do Sul.
A companhia optou por desenvolver áreas próprias de reflorestamento com eucalipto, destinadas ao abastecimento futuro da indústria. Como a cultura exige de seis a sete anos até o corte, o planejamento prevê a compra de florestas em pé e a utilização complementar de bagaço durante a formação das áreas plantadas.
A logística também influencia a viabilidade dos empreendimentos. Toniello observou que o etanol produzido longe dos grandes centros consumidores precisa incorporar o custo do frete, particularmente no transporte do Centro-Oeste para São Paulo. A conta ainda é afetada pelos incentivos fiscais concedidos em diferentes estados, cuja configuração deverá mudar com a implementação da reforma tributária.
No Grupo Viralcool, essas condições contribuíram para a revisão de um projeto de etanol de milho em Castilho, no interior paulista. A empresa passou a priorizar o aproveitamento das unidades de cana e a retomada de investimentos em biogás na unidade de Pitangueiras.
Novas aplicações podem ampliar o consumo de etanol
Diante da perspectiva de aumento da oferta, Cagno defendeu a substituição do diesel por etanol em tratores, colhedoras e caminhões das próprias usinas. Segundo ele, a dependência brasileira de diesel importado abre espaço para o biocombustível, cujo custo interno pode tornar a conversão economicamente atraente, mesmo com um consumo volumétrico maior. Algumas empresas já testam equipamentos adaptados, mas a adoção em larga escala ainda depende dos fabricantes de motores.
Outra alternativa é o biometano, especialmente no transporte de açúcar. Vicchiato relatou que a São Martinho utiliza caminhões de uma empresa parceira, abastecidos com o combustível produzido pela companhia, para realizar entregas ao porto, com redução do custo do frete. O Grupo Viralcool aprovou um projeto semelhante para o transporte até o Porto de Santos. A expansão desse modelo, porém, ainda esbarra na disponibilidade de veículos pesados e na infraestrutura de abastecimento.
Toniello ressaltou que a diversificação não pode comprometer as credenciais ambientais do setor. “Nós só não podemos perder o brilho do etanol ser ecologicamente correto”, afirmou, ao defender que a sustentabilidade seja considerada independentemente da matéria-prima utilizada na produção.
Eletrificação traz incertezas para a demanda
No mercado de veículos leves, Cagno observou que, embora aproximadamente 80% da frota brasileira seja flex, apenas uma parcela dos motoristas abastece regularmente com etanol. O preço em relação à gasolina continua sendo determinante para ampliar o consumo doméstico.
O avanço dos veículos híbridos e elétricos, entretanto, poderá alterar esse mercado. Cagno e Toniello defenderam o potencial do híbrido flex no Brasil e questionaram a velocidade de expansão dos modelos exclusivamente elétricos, diante das limitações da infraestrutura de recarga.
Pretti ponderou que a maior eficiência dos híbridos e o crescimento da frota elétrica já representam um fator de atenção. “O elétrico, gente, é uma realidade. Eu vejo um pouco esse debate de carro elétrico como o mesmo debate que a gente tinha sobre etanol de milho há uns anos”, afirmou. O executivo citou um estudo do Citibank que projeta, até 2030, uma redução de aproximadamente 5 bilhões de litros de gasolina equivalente na demanda, associada a essas tecnologias.
Tecnologia e qualificação entram nas decisões das usinas
Na São Martinho, Vicchiato apontou o desenvolvimento de novas variedades de cana e o projeto de sementes do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) como oportunidades para elevar a produtividade agrícola. A companhia trabalha com a perspectiva de ganhos mais expressivos entre 2030 e 2032, mas mantém a estratégia de testar inovações antes de adotá-las em larga escala.
Pretti chamou atenção para a formação dos profissionais que estarão à frente das operações nos próximos anos. Segundo ele, a inteligência artificial e a automação deverão transformar funções e exigir novas competências. A CerradinhoBio já estruturou uma área dedicada ao desenvolvimento tecnológico e à melhoria de seus processos.
Com mais de 50 anos de atuação no setor, Cagno ressaltou a capacidade de adaptação das usinas às mudanças econômicas e tecnológicas, além da importância de valorizar os produtos renováveis brasileiros. Toniello, por sua vez, defendeu que as empresas busquem uma posição entre as operações mais produtivas e eficientes do mercado, como condição para enfrentar os desafios de custos e margens.
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