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Acordo Mercosul UE pressiona agro por métricas de sustentabilidade

Especialistas apontam exigências regulatórias e agenda de pesquisa

O acordo entre Mercosul e União Europeia tende a influenciar o agronegócio brasileiro menos pelo volume imediato de comércio e mais pelo avanço de exigências regulatórias, rastreabilidade e comprovação de sustentabilidade. A avaliação foi feita por especialistas durante seminário promovido pela Embrapa que discutiu os impactos do tratado para a agenda técnica e científica do setor.

O debate reuniu pesquisadores e analistas de comércio internacional que destacaram que o acesso ao mercado europeu dependerá cada vez mais da capacidade de demonstrar conformidade ambiental, métricas climáticas e transparência nas cadeias produtivas. O encontro integrou a abertura da agenda de 2026 dos Debates em Socioeconomia e reuniu mais de 120 participantes.

Segundo o pesquisador Décio Gazzoni, que mediou o painel, o acordo representa um marco pela escala e pela complexidade regulatória. Ele destacou que a discussão vai além de tarifas e cotas comerciais e envolve assimetrias de competitividade e disputas por padrões ambientais e sanitários.

Pressão por evidências e competitividade

Para o professor Marcos Jank, do Insper, o debate técnico precisa ganhar protagonismo para sustentar o avanço do acordo. Ele observou que parte das salvaguardas previstas nas cotas adicionais limita a expansão do comércio caso haja aumento relevante de volume ou queda de preços, o que pode restringir o acesso de produtos do Mercosul ao mercado europeu.

Na avaliação do especialista, o setor precisa apresentar dados científicos que fortaleçam a cooperação internacional e demonstrem a sustentabilidade da produção agropecuária brasileira.

Rubens Barbosa, presidente executivo da Abitrigo e ex-embaixador do Brasil, afirmou que o aproveitamento das oportunidades depende de avanços internos em competitividade. Entre os principais desafios apontados estão gargalos logísticos, concentração de mercados e dependência de poucos produtos exportados.

Ele também ressaltou que o acordo prevê mecanismos de solução de controvérsias que podem ser acionados em caso de salvaguardas comerciais, o que tende a aumentar a complexidade operacional para empresas exportadoras.

Dados e inovação entram na agenda

Para o professor Antônio Márcio Buainain, da Unicamp, o acordo representa um teste de realidade para o agronegócio brasileiro. Ele destacou que a credibilidade internacional da produção agrícola dependerá cada vez mais da capacidade de organizar e disponibilizar dados confiáveis.

Um dos exemplos citados foi o Cadastro Ambiental Rural, que segundo o pesquisador precisa consolidar-se como base transparente de informações para demonstrar o cumprimento da legislação ambiental brasileira.

O pesquisador Bruno Capuzzi também destacou oportunidades relacionadas à valorização de produtos de origem. Segundo ele, o acordo restringe novas referências a denominações europeias por produtos brasileiros, mas abre espaço para o fortalecimento de indicações geográficas nacionais no mercado internacional.

Ao final do seminário, especialistas avaliaram que o acordo tende a ampliar a demanda por pesquisa em áreas como métricas climáticas, rastreabilidade, redução de emissões, bioinsumos e certificação ambiental, temas que devem ganhar peso crescente na agenda científica ligada ao agronegócio.

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