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Bagaço de cana vira hidrogel para conservação de obras de arte

Pesquisa da Unicamp e UFMG transforma resíduo em material biodegradável

O bagaço da cana-de-açúcar ganhou uma nova aplicação na conservação de obras de arte e documentos históricos. Pesquisadoras da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desenvolveram um hidrogel à base de nanocelulose extraída do resíduo, capaz de controlar a aplicação de água e solventes durante processos de limpeza e restauração.

A tecnologia permite reduzir a penetração de líquidos em superfícies delicadas, como pinturas, papéis antigos e tecidos, preservando camadas que poderiam ser danificadas pelos métodos convencionais. O material utiliza polímeros de origem natural, renováveis e biodegradáveis, ampliando as possibilidades de aproveitamento da biomassa da cana em produtos de maior valor agregado.

O desenvolvimento é resultado do trabalho da química Camila Rezende, professora do Instituto de Química da Unicamp, e da pesquisadora Camilla Camargos, atualmente docente da UFMG. A tecnologia teve pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com titularidade compartilhada entre as duas universidades e apoio da Agência de Inovação Inova Unicamp.

Diferentemente dos produtos de limpeza convencionais, o hidrogel não atua diretamente na remoção de resíduos. Sua função é armazenar o líquido utilizado pelo restaurador e liberá-lo gradualmente, evitando que água ou solventes atinjam partes da obra que precisam permanecer intactas. A estrutura também reduz a evaporação dos compostos durante o procedimento.

Nanocelulose amplia aproveitamento do bagaço

A formulação utiliza nanocelulose obtida do bagaço de cana combinada com outros biopolímeros. As pesquisadoras desenvolveram dois sistemas principais, um à base de gelatina e outro de alginato, substância extraída de algas. A combinação permite formar uma estrutura resistente e flexível, com capacidade de reter líquidos e controlar sua liberação.

Um dos desafios da pesquisa foi ajustar as propriedades físicas do material para que pudesse ser manuseado sem se romper e, ao mesmo tempo, acompanhar as irregularidades das superfícies. Para isso, foram estudadas diferentes formas de ligação entre as cadeias dos polímeros, responsáveis pela resistência, porosidade e capacidade de retenção do hidrogel.

A solução busca superar limitações de técnicas utilizadas na restauração, como a aplicação de solventes com cotonetes, que oferece menor controle sobre a quantidade de líquido absorvida. Também representa uma alternativa aos géis sintéticos comercializados principalmente no exterior e a determinadas formulações tradicionais que podem deixar resíduos em materiais porosos.

Segundo Camargos, a principal vantagem está na possibilidade de restringir a ação do produto à região que precisa ser tratada. Ao manter o líquido retido em sua estrutura, o gel diminui o risco de atingir camadas inferiores de uma pintura ou comprometer documentos e tecidos antigos.

Tecnologia busca novas aplicações e parceiros

A pesquisa teve origem em 2020, durante um período de estudos de Camargos na Universidade de Florença, na Itália. Um experimento com nanocelulose resultou na formação inesperada de um gel rígido, despertando o interesse pela adaptação do material aos procedimentos de conservação e restauração.

Parte do desenvolvimento ocorreu no âmbito do GreenArt, projeto internacional voltado à criação de soluções ambientalmente sustentáveis para a preservação do patrimônio cultural. Os testes de aplicação contaram com a colaboração de pesquisadores da Itália e dos Estados Unidos.

Além da restauração de obras de arte, as pesquisadoras identificam possibilidades de utilização em outras superfícies sensíveis, especialmente em procedimentos que exigem controle da umidade ou aplicação localizada de líquidos. Os estudos prosseguem para aprimorar a flexibilidade do material e ajustar sua capacidade de retenção às características de diferentes substratos.

A tecnologia ainda busca parceiros interessados em avaliar possibilidades de aplicação e licenciamento. A aproximação com empresas e instituições é conduzida pela Inova Unicamp, responsável pela transferência de tecnologias desenvolvidas na universidade.

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