Biocombustíveis abrem nova frente de industrialização no Brasil
Setor soma R$ 289 bilhões em projetos e mira novos mercados
A expansão dos biocombustíveis começa a redesenhar a relação entre produção agrícola, indústria e energia no Brasil. Com R$ 289 bilhões em projetos de investimento já registrados no setor, a abertura de mercados para etanol, biodiesel, biometano e combustíveis de baixo carbono amplia as perspectivas para uma cadeia que até poucos anos atrás estava concentrada principalmente no transporte rodoviário.
O movimento foi discutido no painel Biocombustíveis e Transição Energética, realizado durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), nos dias 1 e 2 de outubro, em São Paulo – SP. O debate reuniu representantes dos setores de bioenergia e petróleo e apontou a industrialização da produção agrícola como uma das principais oportunidades para o país diante do crescimento esperado da demanda mundial por energia.
Para o deputado federal Arnaldo Jardim, presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde da Câmara dos Deputados, os biocombustíveis devem ser considerados parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento industrial. “Biocombustível é mais do que cada um isolado. É um eixo de industrialização do Brasil”, afirmou.
Jardim citou o avanço do etanol de milho como exemplo dessa transformação. Além do combustível, o processamento gera coprodutos como o DDG, utilizado na alimentação animal, o que amplia a conexão entre produção de energia e proteínas e acrescenta valor à industrialização do cereal.
Etanol avança para novos mercados
A expansão ocorre ao mesmo tempo em que a indústria busca destinos adicionais para uma oferta crescente de etanol. Mário Campos, presidente executivo da Siamig e da Bioenergia Brasil, afirmou que o mercado começa a olhar além dos veículos leves e identifica oportunidades na aviação, navegação e utilização do combustível em máquinas agrícolas.
O etanol de milho ajuda a acelerar esse movimento. Dados do Balanço Energético Nacional mostram que o cereal respondeu por cerca de 25% do volume de etanol produzido no Brasil em 2025. Para a safra 2026/27, a Conab estima produção de 11,91 bilhões de litros de etanol de milho, alta de 17%, diante de um volume total de 41,88 bilhões de litros.
A trajetória reforça a avaliação apresentada por Campos no painel de que uma indústria praticamente inexistente no país há uma década ganhou peso relevante na oferta brasileira. O crescimento também ampliou a presença da produção em regiões com grande disponibilidade de grãos, principalmente no Centro-Oeste.
No transporte marítimo, uma das novas fronteiras do setor, o Brasil realizou em julho o primeiro abastecimento de um navio de longo curso com uma solução envolvendo etanol. A operação foi citada como demonstração da possibilidade de utilização do combustível brasileiro em motores originalmente desenvolvidos para trabalhar com metanol e combustível marítimo convencional.
O executivo avalia que a diversificação será importante diante da expansão da capacidade produtiva. No curto prazo, o crescimento da oferta pode pressionar o mercado, mas novas aplicações podem alterar essa relação nos próximos anos. “A gente tem hoje um cenário de curto prazo que pode parecer que vai ter um excesso de oferta, mas logo ali, quem sabe, a nossa oferta atual não vai ser suficiente para os mercados que a gente está vislumbrando”, disse.
Biometano reduz intensidade de carbono
Outra frente de expansão está no biogás e no biometano. A cadeia sucroenergética concentra potencial para produzir o combustível a partir de resíduos e utilizá-lo dentro da própria operação agrícola e industrial.
Segundo Campos, empresas já empregam biometano no transporte de açúcar até os portos, no deslocamento da cana-de-açúcar entre o campo e as unidades industriais e em equipamentos agrícolas. O setor também discute a substituição do diesel por etanol em máquinas utilizadas nas lavouras.
Plinio Nastari, presidente da DATAGRO, afirmou que a intensidade de carbono média do etanol está entre 21 e 23 gramas de CO2 equivalente por megajoule. Com a substituição do diesel por biometano nas operações, esse indicador pode cair para 6,8 gramas. A adoção de captura e armazenamento de carbono pode levar a intensidade a valores negativos.
O desenvolvimento dessas alternativas ocorre depois de o país consolidar mecanismos para mensurar as emissões ao longo do ciclo dos combustíveis. Para o presidente da Siamig, a experiência adquirida com o RenovaBio criou uma base para que o setor passe a avaliar novos mercados também pela intensidade de carbono. “Depois de políticas públicas que levaram a gente a conseguir contar carbono, através do RenovaBio, hoje a gente pensa dessa forma dentro do nosso processo produtivo”, afirmou.
Biodiesel busca espaço com aumento da mistura
No biodiesel, a discussão está concentrada na ampliação da mistura ao diesel e na redução da dependência de importações. Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial, afirmou que o país reúne cerca de 60 indústrias, com capacidade instalada próxima de 17 bilhões de litros por ano.
A produção prevista para este ano é de aproximadamente 10 bilhões de litros, deixando cerca de 7 bilhões de litros de capacidade ociosa. Nesse cenário, Hammerschmidt defendeu antecipar o aumento da mistura. Segundo ele, a adoção do B20 acrescentaria entre 300 milhões e 350 milhões de litros de biodiesel por mês ao mercado.
O executivo contrapôs essa capacidade à dependência externa do diesel fóssil, cujas importações brasileiras chegam a cerca de 17 bilhões de litros. Para Hammerschmidt, ampliar a participação do biodiesel ajudaria a reduzir a exposição do país ao mercado internacional de energia e daria maior espaço à produção doméstica.
A expansão, porém, depende de previsibilidade para os investimentos. Hammerschmidt defendeu que os biocombustíveis sejam tratados como política de Estado, com regras de longo prazo que reduzam o risco de mudanças na estratégia energética do país.
Demanda global exige combinação de fontes
A expansão das fontes renováveis deverá ocorrer em um cenário de aumento do consumo mundial de energia. Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), defendeu que esse movimento seja tratado como uma evolução da matriz, com diferentes fontes avançando simultaneamente. “Mais do que transição energética, é uma evolução energética, onde todas as energias estão entrando na matriz energética mundial”, afirmou.
Segundo Ardenghy, os biocombustíveis evitaram a emissão de cerca de 86 milhões de toneladas de CO2 entre 2009 e 2023. No petróleo, a reinjeção de dióxido de carbono nos reservatórios do pré-sal teria evitado outras 88 milhões de toneladas.
A convivência entre diferentes fontes também aparece nas perspectivas para o petróleo. Atualmente, o pré-sal responde por cerca de 78% da produção brasileira, mas a expectativa apresentada no painel é de que a Bacia de Santos comece a entrar em processo de maturação entre 2030 e 2032. Para o setor de bioenergia, a abertura de novos mercados deverá ocorrer paralelamente a esse aumento da demanda. Desde o início do Proálcool, o etanol já substituiu o equivalente a 4,1 bilhões de barris de gasolina no Brasil. A próxima etapa será ampliar sua participação para além dos automóveis, com aplicações na aviação, navegação, transporte pesado e nas próprias operações agrícolas.
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