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Produtividade deve orientar investimentos na próxima safra

João Rosa Botão defende eficiência operacional diante da pressão sobre margens

A combinação entre preços menos favoráveis, custos elevados e incertezas sobre a próxima safra exige mais critério na definição dos investimentos no campo. Para João Rosa, o Botão, da Pecege Consultoria e Projetos, a resposta não deve passar apenas por cortes no orçamento, mas pela busca de produtividade e eficiência nas operações.

O tema foi abordado durante a terceira edição do Diálogos Cana, promovida pela Sumitomo Chemical recentemente, em Ribeirão Preto – SP. Em sua apresentação, Botão discutiu o impacto dos investimentos na próxima safra e chamou a atenção para a necessidade de avaliar os custos em relação ao resultado obtido.

Segundo as projeções apresentadas, a moagem do Centro-Sul pode alcançar 629,5 milhões de toneladas na safra 2026/27, avanço de 3% sobre as 611,2 milhões de toneladas do ciclo anterior. A estimativa considera recuperação da produtividade agrícola, de 74,43 para 80,10 toneladas por hectare, mesmo com redução da área colhida.

Para o especialista, porém, o volume produzido isoladamente não é suficiente para medir eficiência. O custo precisa ser relacionado à produtividade, à qualidade da matéria-prima e à longevidade do canavial. Na comparação apresentada durante a palestra, propriedades com diferentes gastos e níveis de produtividade chegaram ao mesmo custo de R$ 1,13 por quilo de ATR.

Corte de custos exige atenção à eficiência

A pressão sobre as margens tende a ampliar as discussões sobre redução dos orçamentos agrícolas. Botão alertou que cortes lineares em fertilizantes, defensivos ou outras tecnologias podem produzir economia imediata, mas comprometer produtividade e elevar despesas futuras.

A estrutura de custos apresentada pelo Pecege reforça essa avaliação. Na safra 2025/26, o custo operacional médio da cana ficou em R$ 177 por tonelada, equivalente a R$ 1,3045 por quilo de ATR. Desse total, 51% estavam concentrados nas operações, que incluem maquinário, diesel, mão de obra, irrigação e serviços. Os insumos responderam por 26% e o arrendamento por 17%.

Dentro dos insumos, fertilizantes representaram 10,7% do custo total, enquanto defensivos responderam por 7,5%. Herbicidas tiveram participação de 4,6%, inseticidas de 2,3% e nematicidas de 0,3%.

A avaliação de Botão é que a gestão precisa olhar também para pontos menos imediatos do orçamento. Uma colhedora opera, em média, cerca de dez horas efetivas por dia, segundo os dados apresentados. Ele citou unidades mais eficientes que alcançam jornadas efetivas superiores e destacou que ampliar o aproveitamento das máquinas pode gerar impacto relevante sobre o custo.

“Melhorar uma hora de corte por dia, por máquina, dá diferença no custo”, afirmou. Para ele, esse tipo de ganho exige gestão operacional e acompanhamento das equipes, mas pode ser mais sustentável do que simplesmente retirar investimentos do manejo.

Tecnologia deve ser avaliada pelo retorno

Botão também defendeu que tecnologias agrícolas sejam analisadas pela relação entre investimento e ganho de produtividade. Um dos exemplos apresentados foi uma análise com ProGibb, um regulador de crescimento vegetal à base de ácido giberélico (comumente na concentração de 400 g/kg), fabricado pela Sumitomo, na qual uma aplicação elevou a produtividade em 8,76%, com incremento de 6,62 toneladas por hectare. Com duas aplicações, o avanço chegou a 13,02%, ou 9,84 toneladas adicionais por hectare.

No estudo, investimentos de R$ 40 e R$ 80 por hectare resultaram em retornos líquidos estimados em R$ 813 e R$ 1.188 por hectare, respectivamente. A análise apontou ainda redução do custo de produção por tonelada à medida que a produtividade aumentou.

O mesmo raciocínio foi aplicado às decisões de manejo. Segundo o palestrante, o produtor deve considerar quantas toneladas adicionais são necessárias para pagar determinada tecnologia, em vez de avaliar somente seu preço por hectare. A relação de troca, segundo ele, permite comparar de forma mais objetiva o desembolso com o resultado esperado.

Essa lógica ganha importância em um cenário de menor remuneração. A projeção apresentada pelo Pecege indica preço de referência do Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana-SP), em R$ 0,9790 por quilo de ATR na safra 2026/27. Para 2027/28, a estimativa inicial é de R$ 1,0558.

Planejamento deve considerar todo o ciclo da cana

Outro ponto destacado foi o risco de postergar investimentos necessários para preservar caixa. Como a cana-de-açúcar é uma cultura semiperene, decisões tomadas em uma safra podem produzir efeitos durante vários ciclos.

Botão citou como exemplo a redução excessiva da área de reforma. Embora a medida possa aliviar despesas em determinado ano, o envelhecimento do canavial tende a exigir uma correção posterior mais intensa, concentrando investimentos e pressionando novamente o caixa.

A produtividade aparece, nesse cenário, como principal instrumento para diluir custos. Dados do Índice Compara apresentados pelo Pecege mostram que os grupos mais eficientes combinam maior produtividade agrícola com menores custos relativos de formação, tratos soca e corte, transbordo e apoio.

Na avaliação do consultor, a decisão de investimento deve considerar produtividade, longevidade, qualidade da matéria-prima e resultado econômico. Na safra 2025/26, a referência utilizada pelo Pecege considerou produtividade média de 75,5 toneladas por hectare, ATR de 135,68 quilos por tonelada e longevidade de seis cortes.

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