Reforma tributária muda decisões do canavieiro
Crédito fiscal, venda e fornecedores ganham peso na gestão
A reforma tributária deve alterar de forma estrutural a rotina do produtor de cana-de-açúcar, com impacto direto sobre compra de insumos, emissão de nota fiscal, escolha de fornecedores e relação com usinas. O diagnóstico foi apresentado no painel Impactos da Reforma Tributária para o Produtor de Cana, no Cana Summit 2026, realizado em Ribeirão Preto – SP, nos dias 15 e 16 de abril
Com mediação de Henrique Domingues Montanare, sócio e diretor da Senior Business Solutions, o debate reuniu Analelia Galhardo, tax partner da PwC Brasil, Marcos Ribeiro, sócio da Simões Pires, e Renato Conchon, coordenador do Núcleo Econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.
Na abertura, Montanare afirmou que a proposta de simplificação tende a exigir maior profissionalização do produtor. “A reforma deixa de ser apenas um tema tributário e passa a influenciar decisões comerciais, econômicas e operacionais dentro e fora da porteira”, disse.
Analelia detalhou a nova estrutura de tributação sobre o consumo, com substituição de ICMS, PIS, Cofins e ISS por IBS e CBS. Segundo ela, a alíquota de referência considerada nos estudos gira em torno de 27%. “Os dois tributos terão a mesma base e o mesmo fato gerador, com diferença concentrada na alíquota”, afirmou.
Para a cana-de-açúcar, a legislação prevê redução de 60% da alíquota, o que levaria a uma carga efetiva estimada em 10,8% no cenário cheio. A especialista destacou ainda a mudança no enquadramento do produtor. “Quem faturar acima de R$ 3,6 milhões por ano será contribuinte da CBS a partir de 2027, independentemente de ser pessoa física ou jurídica”, disse.
Crédito fiscal muda custo e fornecedor
O crédito tributário passa a ter papel central nas decisões. Analelia explicou que o diesel deve gerar crédito integral, enquanto insumos e serviços tendem a operar com diferimento. “O produtor vai precisar olhar o regime tributário do fornecedor. Um serviço mais barato pode sair mais caro se não gerar crédito”, afirmou.
Renato Conchon destacou que a mudança altera a lógica de formação de custo. “Hoje já existe cumulatividade que vira custo sem o produtor perceber. No novo sistema, isso pode ser reduzido, desde que ele esteja organizado para aproveitar os créditos”, disse.
Segundo ele, estudo com base em dados de Jaboticabal – SP indica que 9,1% do custo de produção da cana corresponde a tributos não recuperáveis no modelo atual. “A reforma já começou e exige providências imediatas, como ajustes na nota fiscal e na estrutura cadastral”, afirmou.
O especialista também alertou para o aumento da exigência documental. “Recibos aceitos hoje para Imposto de Renda não serão suficientes no ambiente do IBS e da CBS”, disse.
Relação com usinas e modelo de negócio
Na avaliação de Marcos Ribeiro, a reforma deve ser tratada como mudança de negócio. “Não é possível adaptar o novo sistema à lógica atual. A base de preço, os contratos e a política de compras terão de ser revistos”, afirmou.
Ele destacou que o enquadramento do produtor influencia diretamente a relação com as usinas. “Se o fornecedor for contribuinte, a usina aproveita crédito integral. Se não for, entra o crédito presumido, que ainda depende de regulamentação”, disse.
Ribeiro também chamou atenção para o impacto do compliance na cadeia. “A usina vai olhar não só o preço, mas a regularidade fiscal do fornecedor. Isso pode levar à revisão de contratos e até à troca de prestadores”, afirmou.
Outro ponto levantado foi a operação no campo. Segundo ele, ainda há dúvidas sobre o fluxo de emissão de nota fiscal, já que pesagem e dados de entrega da cana permanecem concentrados nas usinas.
Sobre o modelo de exploração da terra, Analelia alertou que a decisão entre produção própria, parceria ou arrendamento exige análise completa. “Quando se considera também a tributação da renda, a vantagem do arrendamento pode desaparecer”, disse.
Os debatedores também destacaram riscos na fragmentação de receita em mais de um CPF. Segundo eles, a estratégia pode reduzir acesso a créditos relevantes, comprometendo o resultado econômico.
Na avaliação final, a reforma impõe revisão de processos, contratos e gestão de dados. A transição até 2033 será gradual, mas, segundo os especialistas, o custo de não adaptação pode ser maior do que o esforço de ajuste já a partir de 2026.
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