Ondas de calor triplicam impacto no campo brasileiro
Perdas chegam a 42% e irrigação ganha papel estratégico
As ondas de calor tornaram-se mais frequentes, prolongadas e intensas no Brasil, com efeitos diretos sobre a produção agrícola. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que a média anual de dias sob esse fenômeno saltou de 7 entre 1961 e 1990 para 52 no período de 2011 a 2020. As ocorrências são mais intensas no Centro Oeste, Sudeste e Nordeste, regiões que concentram grande parte das áreas cultivadas.
A Organização Meteorológica Mundial define onda de calor como aquecimento acentuado do ar em determinada região por vários dias. No Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia considera o evento quando a temperatura máxima supera em ao menos 5 °C a média histórica por cinco dias consecutivos.
Segundo Derblai Casaroli, doutor em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e professor da Universidade Federal de Goiás, não há critério único global. “O que é extremo em uma localidade pode ser normal em outra. Por isso muitos países utilizam índices baseados em percentis, como CTX90pct e CTN90pct, que identificam o evento quando as temperaturas ultrapassam o percentil 90 dos registros históricos por pelo menos três dias consecutivos”, afirma.
Perdas produtivas e novo regime climático
O impacto agronômico já é mensurável. Sob calor extremo associado a déficit hídrico, as perdas podem alcançar 22% no feijão, 42% no arroz, 34% no trigo e 18% na mandioca. “O calor excessivo atua como estressor fisiológico, reduz o período de enchimento de grãos e compromete o balanço energético das plantas. Quando há falta de água, os efeitos se somam e ampliam as perdas”, diz Casaroli.
A análise integra o estudo Ondas de calor e a agricultura irrigada, conduzido por Casaroli e por José Alves Júnior, doutor em Irrigação e Drenagem pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Para os pesquisadores, o avanço dos extremos representa mudança estrutural no padrão produtivo. “Estamos diante de um novo regime climático. A irrigação deve ser tratada como estratégia de adaptação”, afirma José Alves Júnior.
Levantamentos indicam que áreas irrigadas podem registrar ganhos de até 65% frente ao sequeiro em condições de calor intenso. O manejo adequado reduz a temperatura do dossel entre 1 °C e 3 °C e pode elevar a fotossíntese em até 20%, além de favorecer absorção de nutrientes e estabilidade fisiológica nas fases reprodutivas.
Tecnologia amplia precisão do manejo hídrico
O avanço das pesquisas sobre estresse térmico tem impulsionado o desenvolvimento de ferramentas de apoio à decisão no manejo da irrigação. Modelos baseados em balanço hídrico e dados climáticos vêm sendo incorporados à rotina produtiva como forma de reduzir riscos associados a eventos extremos.
Entre as soluções disponíveis no mercado está o Scheduling, sistema desenvolvido no Brasil e atualmente adotado globalmente pela Valmont Industries, controladora da marca Valley. A ferramenta calcula diariamente a necessidade hídrica das culturas a partir de variáveis como tipo de solo, condições meteorológicas e estádio fenológico.
Segundo Sandro Rodrigues, gerente comercial e líder do Departamento Agronômico da Valley, o modelo foi calibrado com cerca de duas décadas de dados e adaptado para mais de 80 culturas. “O sistema funciona como um balanço hídrico automatizado. A partir das entradas e saídas de água no solo, indica o momento e o volume adequados para irrigação”, afirma.
Especialistas avaliam que, diante do aumento da variabilidade climática, instrumentos baseados em modelagem tendem a ganhar relevância na gestão agrícola. A adoção de critérios técnicos para definição do momento de irrigar pode contribuir para maior eficiência no uso da água e mitigação de perdas associadas ao calor extremo.
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