Tarifa dos EUA reduz margens, mas impacto no setor é regional
Medida afeta principalmente usinas do Norte e Nordeste do país
A tarifa adicional de 25% anunciada na sexta-feira (17) pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros deverá reduzir a rentabilidade das exportações de açúcar e praticamente interromper as vendas de etanol brasileiro ao mercado norte-americano. Apesar disso, os efeitos para o setor sucroenergético nacional tendem a ser limitados e concentrados nas usinas do Norte e Nordeste, segundo avaliação de Murilo Mello, head de Açúcar nas Américas da Hedgepoint Global Markets.
No caso do etanol, o Brasil exporta anualmente entre 250 mil e 350 mil metros cúbicos aos Estados Unidos, volume destinado à mistura obrigatória da gasolina naquele país. Com a tarifa adicional, a tendência é que esse fluxo deixe de existir, já que outros fornecedores passarão a oferecer produto mais competitivo.
Segundo Mello, cerca de 300 mil metros cúbicos deverão ser redirecionados ao mercado interno ou para outros destinos de exportação. A demanda doméstica, impulsionada pelo crescimento da frota flex e pela ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32% (E32), deve absorver esse volume sem dificuldades. Assim, o principal efeito tende a ocorrer sobre os preços, e não sobre a oferta do biocombustível.
Açúcar perde rentabilidade, mas mantém competitividade
No açúcar, os reflexos são mais relevantes para as usinas do Norte e Nordeste. Os Estados Unidos mantêm uma cota anual de aproximadamente 150 mil toneladas de açúcar brasileiro com isenção tarifária, destinada exclusivamente às unidades dessas regiões como forma de compensar seus custos de produção mais elevados.
Como o mercado norte-americano remunera o açúcar acima das cotações internacionais, essa cota representa uma importante fonte de receita para essas usinas. A tarifa de 25% reduz essa vantagem econômica, mas, segundo a Hedgepoint, a exportação para os Estados Unidos continua sendo mais atrativa do que vender o produto no mercado interno ou no mercado internacional sem preferência tarifária. Por isso, a expectativa é de manutenção dos embarques dentro da cota existente, ainda que com margens menores.
A principal preocupação passa a ser a possibilidade de novas medidas tarifárias por parte do governo norte-americano. Caso ocorram, a perda de rentabilidade poderá se intensificar e alterar a estratégia comercial das usinas voltadas ao mercado externo.
União Europeia pode ampliar oportunidades
Uma alternativa para compensar parte desse impacto está na ampliação das exportações para a União Europeia. O acordo entre Mercosul e União Europeia ampliou o volume de açúcar que poderá ingressar no bloco com preferência tarifária, abrindo espaço para redirecionar parte da produção destinada aos Estados Unidos.
Na avaliação de Murilo Mello, as usinas nordestinas têm condições de aproveitar essa oportunidade graças à proximidade dos portos e à experiência em operar mercados com cotas preferenciais, o que pode amenizar parte da perda de rentabilidade provocada pela tarifa norte-americana.
Mercado acompanha desdobramentos da medida
Enquanto a Hedgepoint avalia os efeitos diretos sobre açúcar e etanol, outras instituições consideram que os impactos macroeconômicos da medida ainda permanecem restritos.
Para Álvaro Maia, banker da StoneX, a nova tarifa ainda não altera o cenário-base do mercado. Segundo ele, fatores como a política monetária, os conflitos geopolíticos e a demanda global por commodities continuam tendo peso maior na formação dos preços. Para o agronegócio, incluindo o açúcar, o risco é considerado menor do que o inicialmente projetado.
A Amcham Brasil avalia que a lista de produtos excluídos da sobretaxa contribui para reduzir parte dos impactos econômicos e defende a continuidade das negociações entre os dois países. A entidade também alerta que novas tarifas em discussão poderão ampliar as restrições ao comércio bilateral caso não haja avanços nas negociações.
Na mesma linha, a Faesp defende que o Brasil priorize a negociação técnica e permanente com os Estados Unidos para preservar mercados estratégicos do agronegócio e evitar uma escalada tarifária que aumente os custos e a insegurança para produtores e exportadores.
Compartilhe este artigo:
Veja também:
Você também pode gostar
Confira os artigos relacionados: