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Raízen amplia espaço do açúcar após priorizar etanol no início da safra

Companhia iniciou temporada com 54% do biocombustível e agora redireciona produção

A Raízen começou a aumentar a participação do açúcar em seu mix de produção depois de priorizar o etanol no primeiro trimestre da safra 2026/27. Entre abril e junho, o biocombustível respondeu por 54% da produção, ante 49% em igual período da temporada anterior. O açúcar ficou com 46%, abaixo dos 51% registrados um ano antes.

Com o avanço da safra, porém, a companhia já iniciou um movimento na direção contrária. Durante a teleconferência de resultados realizada na sexta-feira (14), o CEO da Raízen, Nelson Gomes, afirmou que uma parcela maior da matéria-prima passou a ser destinada ao açúcar. Segundo o executivo, a definição do mix é acompanhada praticamente todos os dias e passa por uma revisão formal semanal.

A preferência pelo etanol no começo da temporada esteve ligada não apenas à relação de rentabilidade entre os produtos, mas também à estratégia comercial e à necessidade de gestão do capital de giro. Gomes explicou ainda que fatores operacionais e climáticos contribuíram para uma safra inicialmente mais alcooleira.

O início da moagem tende naturalmente a favorecer a fabricação do biocombustível. Além disso, as interrupções provocadas pelas chuvas fizeram com que a retomada das operações fosse direcionada inicialmente ao etanol. O produto também permite uma conversão mais rápida da produção em recursos financeiros. “O açúcar demora um pouco mais para se transformar em caixa do que o etanol”, disse.

Etanol cresce 9,4% mesmo com menor moagem

Os números do trimestre refletem essa maior concentração da produção no etanol. A fabricação do biocombustível avançou 9,4%, para 737 mil metros cúbicos, enquanto a de açúcar recuou 13,6%, para 1,031 milhão de toneladas.

A moagem alcançou 19,7 milhões de toneladas de cana, queda de 2% na comparação anual, considerando a mesma base de 24 usinas. A companhia atribuiu o desempenho às chuvas, que provocaram interrupções na colheita, e ao déficit hídrico durante o desenvolvimento dos canaviais, com efeitos mais acentuados nas regiões de Andradina – SP e Araçatuba – SP.

A produtividade da cana própria caiu 0,9%, para 75,8 toneladas por hectare, enquanto a concentração de Açúcares Totais Recuperáveis recuou 2,9%, para 118,4 quilos por tonelada. A produtividade medida em toneladas de ATR por hectare passou de 9,3 para 9 toneladas, redução de 3,2%.

A companhia relacionou parte da queda à colheita de cana mais jovem, reflexo da antecipação do início das operações. Mesmo diante da menor moagem, a Raízen conseguiu reduzir o custo caixa em açúcar equivalente em 18,4%, de R$ 1.648 para R$ 1.344 por tonelada.

Sem considerar o efeito do Consecana, a redução foi de 8,7%, para R$ 1.504 por tonelada. A empresa atribuiu o resultado a ganhos nas operações de corte, carregamento e transporte, maior eficiência industrial e menor custo da matéria-prima, fatores que ajudaram a compensar a menor diluição dos custos fixos.

Preços menores pressionam açúcar e etanol

O aumento da produção de etanol foi acompanhado por maior comercialização. As vendas próprias cresceram 24,1%, para 617 mil metros cúbicos, mas o preço médio realizado caiu 12,2%, para R$ 2.629 por metro cúbico.

Segundo a Raízen, o avanço da safra e o crescimento da oferta de etanol de milho contribuíram para a pressão sobre as cotações. No açúcar, o volume próprio vendido caiu 10,8%, para 888 mil toneladas, enquanto o preço médio recuou 22,3%, para R$ 2.011 por tonelada.

A estratégia de proteção de preços reduziu parte desse impacto. Ao fim de junho, cerca de 80% do volume de açúcar previsto para a safra 2026/27 estava fixado, a um preço médio equivalente a R$ 2.310 por tonelada.

Os estoques também estavam menores. A Raízen encerrou junho com 349 mil toneladas de açúcar, redução de 63% em relação ao mesmo período do ano anterior. No etanol, eram 355 mil metros cúbicos, queda de 42%.

Apesar do redirecionamento da produção para o açúcar, a companhia ainda não decidiu elevar os estoques à espera de uma eventual recuperação das cotações. De acordo com Gomes, essa possibilidade continua sendo avaliada dentro das revisões do mix realizadas ao longo da safra.

Resultado do segmento agroindustrial recua

A combinação de preços menores e redução dos volumes comercializados pressionou o desempenho do negócio de Etanol, Açúcar e Bioenergia. O Ebitda ajustado do segmento caiu 63,1%, para R$ 300,8 milhões no primeiro trimestre.

Os investimentos também foram reduzidos. A Raízen destinou R$ 899,4 milhões ao segmento entre abril e junho, queda de 34,2% em relação ao mesmo período da safra anterior. Desse total, R$ 564,7 milhões foram aplicados em produtividade agrícola, incluindo plantio e tratos culturais.

No consolidado, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 1,642 bilhão, redução de 11% em relação à perda de R$ 1,844 bilhão observada um ano antes. A receita líquida cresceu 4%, para R$ 51,46 bilhões, e o Ebitda ajustado mais que dobrou, alcançando R$ 3,848 bilhões.

A melhora operacional veio principalmente da distribuição de combustíveis no Brasil, cujo Ebitda ajustado avançou para R$ 3,541 bilhões. Gomes ponderou, no entanto, que as margens alcançadas no primeiro trimestre não devem se repetir nos próximos períodos, já que parte do desempenho esteve associada a condições temporárias de oferta provocadas pelo cenário geopolítico. A expectativa é de normalização, embora em níveis ainda superiores aos registrados na temporada passada.

Dívida recua no trimestre e plano entra em nova etapa

A dívida líquida da Raízen encerrou junho em R$ 56,87 bilhões, queda de 2,3% em relação ao trimestre anterior, embora ainda 15,5% acima do registrado um ano antes. A alavancagem recuou de 5,2 vezes no encerramento da safra 2025/26 para 4,8 vezes no primeiro trimestre.

A pressão financeira, entretanto, permaneceu elevada. O resultado financeiro líquido ficou negativo em R$ 2,973 bilhões, piora de 42,4% na comparação anual, em meio ao aumento do custo da dívida.

A homologação do plano de recuperação extrajudicial, ocorrida em 30 de julho, abriu uma nova etapa da reestruturação. Na teleconferência, Gomes afirmou que a companhia passa agora a concentrar esforços na implementação das medidas previstas no plano, com maior atenção à geração de caixa, redução das despesas e seleção dos investimentos.

No negócio agroindustrial, a evolução dos preços de açúcar e etanol e das condições dos canaviais deverá orientar os próximos ajustes no mix ao longo da safra 2026/27.

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