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São Martinho leva pesquisa a campo para avançar no manejo de pragas

Experimentação orienta decisões em larga escala nos canaviais

Pesquisa agronômica, controle biológico e acompanhamento das operações em tempo real formam a base da estratégia adotada pelo Grupo São Martinho para o manejo de pragas nos canaviais. O modelo busca transformar resultados experimentais em recomendações que possam ser adotadas em escala comercial nas quatro unidades da companhia.

A estratégia foi apresentada por Estêvão Landell, do Suporte Técnico Agronômico Corporativo da São Martinho, durante o InsectShow 2026, realizado no dia 22 de julho, em Ribeirão Preto – SP, pelo Grupo IDEA. Na palestra “Manejo Integrado de Pragas em escala”, ele mostrou como experimentação e inovação são incorporadas às decisões em grandes operações agrícolas.

Um dos exemplos é o controle do Sphenophorus levis, o bicudo da cana. Após uma primeira etapa concentrada na comparação da eficiência de produtos, a companhia ampliou o protocolo e passou a trabalhar com uma rede de ensaios em diferentes áreas, variedades, regiões e níveis de infestação, além de reaplicar os tratamentos por mais anos. “Percebemos que não era apenas um ensaio. Precisávamos de uma rede de ensaios, trabalhando em diferentes áreas, variedades e regiões”, afirmou.

A estrutura de pesquisa reúne oito polos distribuídos pelas quatro unidades, em diferentes solos e condições de produção. São 1.054 hectares destinados à experimentação agrícola, em áreas situadas entre 423 e 850 metros de altitude e com diferentes condições hídricas, entre elas sequeiro, gotejamento e salvamento.

O número de ensaios também aumentou. Entre 2020 e 2021 foram conduzidos 83 experimentos em dois anos. Já entre 2024 e 2025 foram 193 em 20 meses, crescimento de 132%. A expansão ocorreu acompanhada de maior diversificação dos temas pesquisados.

Estudos acompanham comportamento do Sphenophorus

Os trabalhos com Sphenophorus levis avançaram da avaliação da eficiência dos tratamentos para o estudo do comportamento do inseto. Em um dos experimentos, 2.745 adultos foram separados por sexo, identificados individualmente e distribuídos nos tratamentos para que sua movimentação pudesse ser acompanhada.

Os resultados indicaram diferenças conforme a condição da palha. Quando mantida sobre o solo, houve maior movimentação dos insetos, por mais tempo e em mais direções, em comparação às situações de palha afastada ou totalmente removida. Os trabalhos de campo também apontaram diferenças no controle da praga entre essas condições.

Outra frente de pesquisa procura correlacionar a população de larvas e adultos com precipitação e temperatura. Nas avaliações dos últimos dois anos, a equipe observou que o aumento das chuvas e da temperatura tende a coincidir com o pico de larvas. Aproximadamente três meses depois, ocorre o pico de adultos.

“Quando há um aumento de precipitação e começa a aumentar a temperatura, normalmente estamos no pico de larvas. Três meses depois, temos o pico de adultos. Isso é para nos ajudar a posicionar essa segunda aplicação”, explicou.

O acompanhamento é relevante porque o adulto é o alvo dessa aplicação. Para Landell, a experimentação precisa considerar não apenas a eficiência de controle, mas também a possibilidade de transformar os resultados em procedimentos viáveis para a operação agrícola.

Controle biológico avança no manejo

A trajetória da São Martinho no controle biológico começou em 1979, com a implantação da biofábrica de Cotesia flavipes para o controle da broca-da-cana. Em 2001, a companhia incorporou a produção de Metarhizium anisopliae e, em 2011, de Beauveria bassiana.

Em 2020, a estratégia passou a incluir Trichogramma galloi e o uso de drones na liberação de agentes biológicos. Em 2025, a companhia inaugurou uma biofábrica dedicada à produção de Trichogramma galloi. A evolução ocorreu paralelamente aos trabalhos de pesquisa e experimentação conduzidos pela companhia para avaliar a aplicação dessas ferramentas em escala comercial.

Nos dados apresentados no InsectShow, o controle biológico responde por 100% do manejo de nematoides considerado pela companhia. A participação é de 85% na broca-da-cana, 55% no Sphenophorus levis e 92% na cigarrinha-das-raízes. Para outros alvos mostrados na apresentação, o manejo permanece integralmente químico.

Uma revisão bibliográfica conduzida pela equipe analisou trabalhos publicados entre 1991 e 2025. O levantamento reuniu 20 estudos e 188 ensaios, dos quais 47% avaliaram tratamentos químicos, 46% biológicos e 7% a interação entre as duas estratégias.

“A composição entre químicos e biológicos trouxe um resultado importante quando fazemos uma revisão bibliográfica. Quando olhamos apenas para biológicos, duas espécies de nematoides entomopatogênicos também tiveram bom desempenho”, disse.

Resultados passam da pesquisa para a operação

Para chegar ao campo, os resultados seguem um fluxo que começa pela priorização dos temas e definição da metodologia experimental. Após a análise dos dados, os manejos considerados adequados passam pela avaliação operacional e podem ser incorporados aos manuais agronômicos da companhia.

“Todo esse trabalho de P&D, tudo isso que fazemos em experimentação, esse ganho, esse resultado de parcela, tem que virar um resultado comercial, porque, afinal, somos uma empresa de produção”, afirmou.

Os manejos aprovados seguem para negociação de insumos e para o plano tático das unidades. No campo, a execução é acompanhada pelos Centros de Operações Agrícolas, os COAs, que recebem em tempo real informações sobre qualidade e rendimento das atividades.

O modelo começou a ser estruturado em 2019 na Unidade São Martinho. Atualmente, cada uma das quatro unidades conta com um COA, enquanto um quinto centro reúne as informações e permite uma visão integrada das operações do grupo.

A dimensão da operação ajuda a explicar a necessidade desse acompanhamento. Em dados apresentados por Landell, a Unidade São Martinho opera em uma área de 135 mil hectares e durante cerca de 240 dias de safra, com capacidade de moagem de 50 mil toneladas de cana por dia. Nesse ritmo, a operação demanda a chegada de um caminhão de cana a cada 1,8 minuto.

“Temos todas as operações com informação de qualidade e rendimento em tempo real, inclusive se está sendo aplicado ou não o insumo recomendado e a qualidade dessas aplicações”, comentou.

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