Etanol de milho amplia pressão por biomassa no Brasil
Expansão das usinas exigirá avanço das florestas energéticas até 2030
O avanço do etanol de milho no Brasil começa a impor um novo desafio ao setor. A oferta de biomassa terá de acompanhar o aumento da capacidade industrial, movimento que tende a elevar a procura por madeira de reflorestamento e exigir investimentos em florestas energéticas nos próximos anos.
Levantamento da Consultoria Agro do Itaú BBA mostra que a capacidade instalada de produção de etanol de milho no país poderá passar de 10,9 bilhões de litros, no fim de 2025, para 25,3 bilhões de litros em 2030. A projeção considera os projetos anunciados, embora parte deles ainda esteja sujeita à viabilidade econômica.
O tema ganha importância porque parcela da biomassa consumida atualmente ainda tem origem em áreas de supressão vegetal legalmente autorizada. Restrições ambientais e regulatórias, porém, aumentam a necessidade de formação de uma base sustentável de florestas plantadas para atender às novas unidades.
Em Mato Grosso, principal polo do etanol de milho no país, a mudança já ganhou contornos regulatórios. O estado estabeleceu um cronograma para reduzir gradualmente o consumo de biomassa proveniente de vegetação nativa por grandes consumidores. Para as indústrias já instaladas, o limite será de até 40% em 2034, com eliminação dessa fonte a partir de 2035.
Expansão pode exigir 816 mil hectares no país
Em um cenário de eficiência média, a capacidade projetada de 13 bilhões de litros ao fim de 2026 demandaria cerca de 35 milhões de metros cúbicos de biomassa de eucalipto. Para manter esse consumo de forma contínua, seriam necessários aproximadamente 440 mil hectares de florestas plantadas, com corte anual estimado em 63 mil hectares.
Até 2030, considerando a utilização integral da capacidade projetada e o eucalipto como única fonte de suprimento energético, a área necessária chegaria a aproximadamente 816 mil hectares no Brasil. O consumo de milho associado às plantas alcançaria cerca de 57 milhões de toneladas.
O cálculo busca dimensionar a ordem de grandeza do desafio e não representa uma projeção exata para cada empreendimento. Resíduos agrícolas e agroindustriais, bagaço e palha de cana, casca de arroz e capins podem integrar a matriz das usinas, enquanto ganhos de eficiência energética também podem reduzir a necessidade de madeira.
A logística será determinante para a competitividade. Segundo o estudo, distâncias superiores a 150 a 200 quilômetros entre a origem e o centro consumidor começam a representar um desafio relevante para o custo da biomassa, sobretudo em regiões com infraestrutura limitada.
Mato Grosso concentra necessidade de novas florestas
Em Mato Grosso, uma capacidade próxima de 12 bilhões de litros de etanol em 2030 demandaria cerca de 383 mil hectares de eucalipto em um cenário de eficiência média. O estado tinha 165,62 mil hectares cultivados em 2025, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária citados no relatório.
A diferença indica um déficit potencial próximo de 218 mil hectares de novas florestas energéticas. Considerando custo de implantação e condução de R$ 35 mil por hectare ao longo de um ciclo de 13 anos, a expansão exigiria investimentos da ordem de R$ 7,6 bilhões.
Em um cenário de menor eficiência operacional, a necessidade total poderia alcançar 572 mil hectares plantados. Nesse caso, os investimentos necessários para a expansão florestal poderiam chegar a aproximadamente R$ 14,3 bilhões.
A competição pela matéria-prima vai além das usinas de etanol. Esmagadoras de soja, unidades de armazenagem e secagem de grãos e frigoríficos também utilizam biomassa para geração de energia térmica. Pelas estimativas preliminares do Itaú BBA, a indústria de etanol de milho responde por pouco mais de 60% do volume consumido em Mato Grosso.
Eucalipto ganha espaço como alternativa de investimento
A demanda crescente também pode abrir espaço para o eucalipto em áreas de menor aptidão agrícola. Em uma simulação para Mato Grosso, o Itaú BBA considerou dois cortes ao longo de 13 anos, preço da madeira de R$ 200 por metro cúbico e custo operacional de R$ 35 mil por hectare.
Nas premissas adotadas, o projeto apresentou receita acumulada de R$ 104 mil por hectare e lucro de aproximadamente R$ 54 mil no período. O resultado corresponde a uma geração média de cerca de R$ 4,2 mil por hectare ao ano, equivalente a aproximadamente 30 sacas de soja por hectare ao ano pelo preço de referência utilizado no estudo.
A análise calculou Taxa Interna de Retorno de 17% ao ano e Valor Presente Líquido de R$ 4,3 mil por hectare, considerando taxa mínima de atratividade de 14%. Os resultados, porém, são sensíveis ao preço da madeira, ao custo do capital e à produtividade florestal.
Com ciclos que podem chegar a 13 anos considerando dois cortes, a previsibilidade comercial será decisiva para os projetos. Segundo a Consultoria Agro do Itaú BBA, contratos de longo prazo podem reduzir o risco de descasamento entre as decisões de investimento tomadas hoje e as condições de mercado no momento da colheita.
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