ATR da cana é o menor desde 2019/20 no Centro-Sul
Indicador recua mesmo com produtividade agrícola 7% maior na safra
A recuperação da produtividade dos canaviais do Centro-Sul na safra 2026/27 ainda não se refletiu na qualidade da matéria-prima. Até o início de agosto, o ATR médio acumulado estava em 123,8 quilos por tonelada, o menor desde 2019/20, enquanto a produtividade agrícola alcançava 85,5 toneladas por hectare, alta de 7% sobre igual período do ciclo anterior.
Os dados foram apresentados por Nilceu Piffer Cardozo, consultor da Canaplan, durante o III EnTéc Cana, promovido recentemente pela DNAgro e pelo CTC, em Ourinhos – SP. O encontro reuniu produtores e profissionais ligados ao setor.
Apesar da menor concentração de açúcar, o ganho de rendimento elevou em 6% a quantidade de ATR produzida por hectare no Centro-Sul. Entre as regiões paulistas, Ribeirão Preto apresentou um dos maiores avanços de produtividade, de 16%, para 90,2 toneladas por hectare. Em Catanduva, o crescimento foi de 14%.
Área sustenta avanço da moagem
A evolução da produção nas últimas duas décadas mostra que o aumento da moagem no Centro-Sul esteve mais associado à expansão da área de colheita do que a ganhos contínuos de produtividade. Entre 2006/07 e 2025/26, a área passou de 4,4 milhões para 8,2 milhões de hectares, enquanto o rendimento agrícola apresentou fortes oscilações. “Apesar dos investimentos em tecnologia, sempre que se fala de expansão de moagem no Centro-Sul, a primeira medida tomada, em geral, é aumentar a área de produção, não a produtividade”, ressaltou Cardozo.
Esse movimento deve continuar em 2026/27. A expectativa apresentada é de que a área de colheita supere 8,2 milhões de hectares, consolidando um novo patamar. Na safra passada, foram 8,19 milhões de hectares, ante 7,45 milhões três ciclos antes. A idade média do canavial também tende a subir, de 3,49 para 3,56 anos. Ao mesmo tempo, a redução do plantio em 2026 deve deixar 3% mais cana-planta disponível para colheita.
Com mais área e recuperação do rendimento agrícola, a Canaplan passou a trabalhar, na atualização de agosto, com quatro cenários de moagem entre 651,8 milhões e 676,5 milhões de toneladas. A produtividade considerada varia de 79 a 82 toneladas por hectare.
Chuva melhora canavial, mas dificulta moagem
A formação da atual safra ocorreu sob condições melhores de chuva. O volume acumulado chegou a 1.311,4 milímetros, acima dos 1.054,8 milímetros registrados na formação de 2025/26. Segundo o consultor, apesar das irregularidades, houve melhora tanto no volume quanto na distribuição das precipitações.
A mesma chuva que favoreceu o desenvolvimento dos canaviais, porém, passou a dificultar a retirada da matéria-prima. As precipitações no outono e no inverno atrasaram a moagem em meses importantes da safra, deslocando a atenção para o comportamento climático no fim de 2026.
Cardozo apresentou dois cenários. Em uma safra com outono e inverno secos, a moagem acelera, a qualidade melhora e a ocorrência de cana bisada fica mais restrita. Em condições úmidas, a moagem oscila e se prolonga, a qualidade da matéria-prima é prejudicada e aumenta o risco de a safra terminar com cana no campo.
O ritmo da colheita reforça essa preocupação. Até o início de agosto, 44,3% da safra havia sido colhida no cenário de maior disponibilidade de matéria-prima considerado pela Canaplan, ante 46,8% no mesmo período de 2025/26.
Para a primavera, as projeções apresentadas indicavam continuidade das chuvas. No Centro-Sul, os volumes previstos eram de 274,7 milímetros em outubro, 189,9 milímetros em novembro e 202,4 milímetros em dezembro. Em Ribeirão Preto, a estimativa para outubro era de 236,3 milímetros.
Efeito pode avançar para 2027/28
A preocupação não termina com o fechamento da atual temporada. O estudo usa ciclos anteriores de El Niño para avaliar os possíveis efeitos sobre 2027/28. Os períodos analisados foram marcados por chuvas com distribuição irregular entre as regiões, volumes elevados na primavera e no verão e ocorrência de episódios extremos intercalados com veranicos.
Outro comportamento observado foi a ocorrência de temperaturas elevadas e ondas de calor. Nos eventos anteriores usados como referência, houve períodos com registros de temperaturas máximas elevadas, condição que pode aumentar a perda de água das plantas e afetar o desenvolvimento dos canaviais.
O histórico apresentado pela Canaplan mostra ainda um comportamento distinto entre o ano de formação do El Niño e a safra seguinte. Os ciclos de formação do fenômeno tendem a apresentar aumento da produtividade agrícola, enquanto a temporada posterior pode registrar quebra, mesmo com a entrada de cana bisada.
Manejo exige atenção ao clima
Diante desse quadro, Cardozo apontou medidas de manejo para reduzir a exposição dos canaviais aos extremos climáticos. Entre elas estão cuidados com conservação do solo, escolha de variedades adaptadas às condições previstas, rotação de culturas e acompanhamento mais próximo da sanidade e do vigor das plantas. A apresentação também recomenda atenção a pragas e doenças, que podem encontrar condições favoráveis de desenvolvimento em ambientes mais quentes e úmidos.
Outro ponto é o planejamento da brotação das soqueiras, principalmente em áreas sujeitas a condições adversas, além da prevenção contra incêndios e da revisão das estratégias para períodos de estresse térmico. O objetivo é preservar o potencial produtivo em uma temporada na qual chuva e temperatura podem ter peso maior sobre o desempenho dos canaviais.
Para 2027/28, a análise considera que temperaturas elevadas podem acelerar a desidratação e prejudicar o metabolismo das plantas. A combinação de calor e chuva também pode acelerar a degradação da cana bisada que permanecer no campo ao fim da atual temporada.
Compartilhe este artigo:
Veja também:
Você também pode gostar
Confira os artigos relacionados: