Excelência e dedicação ao associado!

  (16) 99710-6190      (16) 3511-3300        Rua Dr. Pio Dufles - 532 Sertãozinho | SP

Microbioma abre nova frente para elevar resiliência da cana

Interação entre planta, solo e microrganismos amplia possibilidades de manejo

A busca por maior produtividade e resiliência nos canaviais começa a avançar para além do uso isolado de microrganismos. Estudos sobre o microbioma da cana-de-açúcar mostram que a resposta da cultura depende da interação entre planta, solo, comunidades microbianas e práticas de manejo.

O tema foi apresentado pelo professor Fabio Lopes Olivares, vice-reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, durante o III EnTéc Cana, promovido recentemente pela DNAgro e pelo CTC, em Ourinhos – SP. A palestra abordou a evolução da microbiologia aplicada à cultura e as possibilidades de uso desse conhecimento no campo.

A pesquisa nessa área teve como ponto de partida uma questão observada nos canaviais brasileiros nas décadas de 1950 e 1960. Mesmo sem aplicações elevadas de fertilizantes nitrogenados, a cultura mantinha altas produtividades ao longo de sucessivos cortes, o que levou pesquisadores a investigar a participação de agentes biológicos fixadores de nitrogênio associados à planta.

Esse trabalho ganhou força com as pesquisas lideradas por Johanna Döbereiner. A partir do fim dos anos 1950, sua equipe identificou bactérias diazotróficas associadas à rizosfera da cana e avançou na compreensão da relação entre esses organismos e a cultura. Estudos posteriores ampliaram essa visão para microrganismos presentes também no interior dos tecidos vegetais.

Da bactéria isolada ao sistema

A evolução das pesquisas modificou a forma de compreender a sanidade vegetal. A presença de microrganismos deixou de ser associada apenas a doenças e passou a ser estudada também pela contribuição de determinadas comunidades à nutrição, ao crescimento e à resposta das plantas às condições do ambiente.

Essa mudança sustenta o conceito da cana-de-açúcar como um holobionte. Na prática, a planta passa a ser considerada em conjunto com a microbiota associada a ela. O sistema participa de processos relacionados à aquisição de nutrientes, crescimento, proteção contra patógenos e tolerância a estresses.

A diversidade é elevada. Dados apresentados por Olivares apontam 23.811 unidades taxonômicas bacterianas e 11.727 fúngicas associadas à cultura. Apesar dessa variedade, menos de 20% da riqueza identificada responde por mais de 90% da abundância, indicando a presença de um núcleo de organismos mais recorrentes.

O solo ocupa posição central nesse processo. Mais de 90% das unidades taxonômicas encontradas em raízes, colmos e folhas também ocorrem no solo a granel, apontado na apresentação como o principal reservatório da microbiota da cana.

Manejo interfere na resposta biológica

A composição dessas comunidades não é fixa. Genótipo e características do solo influenciam quais organismos são recrutados pela planta, enquanto as práticas agrícolas alteram as condições em que essa relação se estabelece.

Dose de nitrogênio, sistema de cultivo e cultivo contínuo estão entre os fatores capazes de modificar a composição ou a estrutura do microbioma. Os efeitos também dependem do solo e do compartimento da planta, reforçando que a resposta ao uso de agentes biológicos não ocorre de maneira uniforme.

Um dos estudos apresentados mostrou que o nitrogênio interfere na capacidade de bactérias promotoras de crescimento de reorganizar as comunidades associadas à cana. Sem nitrogênio adicional, a inoculação alterou 172 gêneros na rizosfera. Com a aplicação do nutriente, foram 25. Na endosfera radicular, foram observados 99 gêneros alterados sem nitrogênio adicional e 56 com o nutriente.

Os resultados indicam que o desempenho de um inoculante depende não apenas da cepa utilizada, mas também do manejo nutricional e da comunidade microbiana já estabelecida. A apresentação destaca que reduzir a fertilização não garante, isoladamente, melhor resultado da inoculação, mas pode criar condições para ampliar seu efeito quando há compatibilidade com o sistema.

Pesquisa busca tornar respostas mais previsíveis

O avanço desse conhecimento amplia o desafio para o desenvolvimento de bioinsumos. A pesquisa deixa de avaliar apenas a função de um microrganismo e passa a considerar sua capacidade de colonização, a interação com a microbiota residente e as condições do ambiente.

Apesar dos avanços na identificação dessas comunidades, ainda é necessário demonstrar função, causalidade e estabilidade em diferentes genótipos, solos e manejos. Na avaliação apresentada por Olivares, a estrutura do microbioma já está mais bem compreendida, mas sua função causal ainda precisa avançar.

A próxima etapa é tornar o sistema recrutável, funcional e previsível, integrando solo, planta, microbiota e manejo.

Compartilhe este artigo:

LinkedIn
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *