Setor precisa fazer sua parte para ampliar consumo de etanol
Pecege aponta potencial em frotas, exportações e novos usos do biocombustível
Com a oferta de etanol em expansão no Brasil, o desafio do setor sucroenergético está em criar novos mercados para acompanhar esse crescimento. Para João Rosa “Botão”, sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, ampliar o consumo passa por iniciativas que vão das frotas das próprias empresas à mecanização agrícola e à conquista de mercados no exterior.
A análise foi apresentada no painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, da 9ª Conferência NovaCana, realizada nesta segunda-feira (28), em São Paulo – SP. O encontro continua nesta terça-feira (29), com debates sobre crédito, novos mercados para biocombustíveis e oportunidades de investimento.
Entre as mudanças recentes na oferta está o crescimento do etanol de milho. Em 2015, o cereal respondia por aproximadamente 140 milhões de litros de etanol, cerca de 0,5% da oferta nacional. Dez anos depois, o volume chegou a 9 bilhões de litros e uma participação de 25%. Outras 17 plantas estão em construção.
Além do volume, mudou a dinâmica do mercado. O milho pode ser armazenado e processado ao longo de todo o ano, enquanto a produção de cana-de-açúcar se concentra na safra. Essa oferta mais regular reduz a sazonalidade que historicamente favorecia a valorização do etanol na entressafra.
Botão afasta, porém, a ideia de uma disputa entre as duas matérias-primas. Para ele, milho e cana terão de conviver em um mercado capaz de absorver a produção adicional.
Diferença de custo chega a 60%
Nesse ambiente, eficiência ganha peso. O Pecege acompanha cerca de 100 clientes em seus benchmarks e encontra diferenças expressivas entre as operações. O custo agrícola fica próximo de R$ 1 por quilo de ATR entre as mais eficientes e chega, em média, a R$ 1,60 na outra ponta. A distância é de 60%.
O preço do milho interfere diretamente nessa conta. Quando o grão está barato, o etanol produzido a partir do cereal ganha vantagem. A resposta da cana está principalmente na produtividade e no controle de custos.
A trajetória do setor, segundo o diretor, mostra que os grandes saltos de produção ocorreram quando surgiu consumo para sustentá-los. O Pró-Álcool abriu um desses ciclos. Décadas depois, os veículos flex deram novo impulso ao mercado e contribuíram para levar a produção brasileira de cana à faixa de 600 milhões a 700 milhões de toneladas.
Hoje, os próprios carros flex mostram o tamanho da oportunidade. Eles representam cerca de 75% da frota leve circulante no país, mas apenas 35% são abastecidos com etanol.
Consumo pode começar dentro das empresas
Durante a Conferência NovaCana, o consultor defendeu que empresas ligadas à cadeia priorizem o etanol no abastecimento de suas frotas flex. “É isso que nós vamos mudar o jogo, que é na geração, no aumento da demanda”, afirmou.
Em Alagoas, a Usina Caeté mantém postos que comercializam apenas etanol em Delmiro Gouveia e São Miguel dos Campos. A unidade de São Miguel fica em frente à usina e trabalha com venda direta do combustível.
Segundo Botão, o modelo dispensa a passagem do etanol pelas distribuidoras, o que permite preços mais atrativos ao consumidor e maior margem para a usina. Em São Miguel dos Campos, o abastecimento também pode ser parcelado em três vezes sem juros. Outras duas unidades estão previstas para Palmeira dos Índios e Arapiraca.
O campo é outra frente. Uma unidade da Viterra já opera oito tratores movidos a etanol, com motores adaptados. A MWM foi citada entre as empresas que trabalham com a tecnologia. Segundo o executivo, a adaptação custa cerca de R$ 200 mil por motor.
Mercado externo amplia possibilidades
A procura por novos mercados passa também pelo exterior. Dos 95 países considerados na análise apresentada pelo especialista, apenas 15 adotam mistura de etanol à gasolina, geralmente em percentuais entre 10% e 15%.
SAF, voltado à aviação, e biocombustíveis para navegação marítima também foram citados como alternativas. São mercados com potencial, mas que, de acordo com ele, ainda precisam avançar técnica e comercialmente.
Mistura maior exige atenção ao consumidor
No mercado brasileiro, Botão vê limites para uma estratégia baseada apenas no aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. O teor está em 32% e uma eventual elevação para 35%, embora aumente o consumo do biocombustível, pode afetar a percepção de quem abastece.
“Estamos muito perto de uma participação de mistura que começa a ser perigosa junto ao consumidor”, afirmou. Em tom informal, resumiu a preocupação ao mencionar o risco de o motorista enxergar o produto como uma “gasolina sabor etanol”.
A alternativa defendida pelo especialista é conquistar mais consumidores para o etanol hidratado. Parte dos proprietários de veículos flex, segundo ele, continua abastecendo com gasolina por hábito. Há ainda percepções negativas herdadas das décadas de 1980 e 1990, associadas a problemas como partida a frio e corrosão, apesar da evolução dos motores.
A comunicação também entrou na discussão. Durante o painel, Botão contou que recebeu, a caminho de São Paulo, uma ligação de um amigo que havia passado a usar etanol depois de ouvi-lo falar repetidamente sobre o biocombustível. “Tem muito espaço ainda para a gente ocupar, sem ser necessariamente por aumento de mistura”, afirmou.
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