Produtividade da cana cresce, mas queda do ATR pressiona produtores
Safra 2026/27 tem recuperação agrícola, mas preços menores reduzem ganhos
A recuperação da produtividade agrícola na safra 2026/27 contrasta com a deterioração da receita dos fornecedores de cana-de-açúcar do Centro-Sul. A queda na qualidade da matéria-prima, medida pelo Açúcar Total Recuperável (ATR), e os preços inferiores aos registrados nos últimos anos limitam os benefícios do maior rendimento das lavouras.
Os dados foram apresentados por Ciro Mendes Sitta, durante a segunda reunião da Canaplan, realizada na última quinta-feira (22), em Ribeirão Preto – SP. Segundo levantamento do Projeto Safra Canaplan, a produtividade acumulada até 1º de outubro alcançou 85,4 toneladas por hectare, ante 77,7 toneladas no mesmo período de 2025/26, avanço de 9,9%.
As condições climáticas favoreceram o desenvolvimento das lavouras ao longo dos primeiros meses da safra. Em contrapartida, o ATR acumulado ficou em 129,8 quilos por tonelada, redução de 3,3% em relação aos 134,3 quilos registrados no ciclo anterior. A combinação desses indicadores resultou em crescimento de 6,3% na produção de açúcar recuperável por hectare, que passou de 10,4 para 11,1 toneladas.
Envelhecimento dos canaviais pode limitar resultado final
A Canaplan estima que a produtividade agrícola encerre a safra entre 80,5 e 82 toneladas por hectare. A projeção considera o comportamento dos ciclos anteriores e a redução do rendimento observada a partir de setembro, quando aumentou a participação de lavouras mais velhas na colheita.
Até o início de outubro, a idade média das áreas colhidas estava em 3,27 anos. Já a cana disponível para corte apresentava idade estimada entre 3,85 e 4,1 anos, reflexo dos ciclos de renovação dos canaviais. O resultado final dependerá da parcela dessa matéria-prima que ainda será processada até dezembro.
Parte das lavouras poderá permanecer no campo para a próxima temporada, formando a chamada cana bisada. O volume transferido dependerá do avanço das operações agrícolas e industriais nos meses restantes, com possíveis consequências para a área disponível no ciclo seguinte.
O levantamento também identificou diferenças expressivas entre as regiões produtoras. Enquanto algumas registraram aumentos de produtividade próximos de 15% a 17%, outras apresentaram retração. A qualidade da matéria-prima teve comportamento igualmente desigual, ampliando a dispersão dos resultados em relação à safra passada.
Ganhos agrícolas não chegam a todos os fornecedores
A distribuição dos resultados de ATR por hectare mostra que 39% da amostra analisada pela Canaplan apresentou desempenho inferior ao de 2025/26. Outros 27% registraram ganhos de até 10%, enquanto 34% superaram esse percentual.
Para avaliar os efeitos sobre a receita, Sitta apresentou simulações que relacionam a produção de açúcar recuperável, o preço do ATR e a área efetivamente colhida. Considerando uma remuneração de R$ 1 por quilo de ATR, seria necessário elevar em aproximadamente 12,5% a produção por hectare para manter o faturamento anterior, mesmo sem redução da área de colheita.
O cálculo se torna mais desfavorável quando parte da produção permanece no campo. Com uma redução de 10% na área colhida, nem mesmo um aumento de 20% no ATR por hectare garantiria a manutenção da receita de 2025.
A análise também considerou um preço de R$ 1,10 por quilo de ATR, cenário que melhora a remuneração dos fornecedores, embora não compense integralmente os efeitos de uma eventual redução no volume comercializado.
Queda dos preços aumenta pressão sobre o caixa
O preço médio do Consecana-SP caiu 23% entre maio e setembro de 2026, passando de R$ 1,1521 para R$ 0,8864 por quilo de ATR, na comparação com igual período do ano anterior. Em 2024, a média havia alcançado R$ 1,1711. O intervalo concentra parte importante das entregas de matéria-prima e da formação de receita dos fornecedores.
A remuneração menor ocorre em um período de custos financeiros elevados, restringindo a capacidade de investimento na atividade. Segundo Sitta, a pressão sobre o caixa tem levado os produtores a adiar decisões de compra e a priorizar despesas necessárias à manutenção das operações.
“É difícil fazer compras olhando mais para frente”, afirmou o representante da Canaplan ao comentar as dificuldades enfrentadas pelos fornecedores.
Durante a apresentação, Sitta também retomou uma simulação sobre o comportamento do endividamento, divulgada em abril. O exercício relaciona a dívida ao faturamento em diferentes condições de pagamento de juros e refinanciamento, mostrando o aumento do comprometimento da receita quando os encargos são incorporados ao saldo devedor.
Entre as medidas apontadas para enfrentar as restrições financeiras estão o alongamento dos prazos de pagamento, a reestruturação das dívidas e a busca por maior eficiência operacional e produtividade.
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