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Adubação reduzida em 2026 exige atenção para próxima safra

Rafael Otto recomenda recompor manejo para preservar produtividade

A redução da adubação dos canaviais ao longo de 2026 pode aumentar a pressão sobre o manejo nutricional na próxima safra. Para Rafael Otto, professor da Esalq/USP, o desempenho dos canaviais exige atenção ao balanço de nutrientes diante da combinação entre produtividade elevada e menor investimento em fertilizantes.

Durante o 20º Grande Encontro sobre Variedades de Cana & Novas Técnicas de Fertilização, realizado em setembro, em Ribeirão Preto – SP, Otto afirmou que a adubação feita em 2025 foi dimensionada para níveis normais de produtividade. As condições climáticas, porém, favoreceram os canaviais e algumas unidades chegaram a registrar produção cerca de 10% acima das estimativas, ampliando a retirada de nutrientes do solo.

Em 2026, os ajustes se concentraram principalmente em nitrogênio e fósforo, enquanto o potássio foi preservado ou sofreu reduções menores. Com perspectiva favorável para os canaviais em 2027, Otto considera que novos cortes devem ser avaliados com cautela.

“Estamos vivendo dois anos devendo na adubação e uma hora a conta chega”, afirmou. “Sugiro voltar à adubação normal em 2027 para ter cana em 2028”.

Correção do solo permanece entre as prioridades

Mesmo em um cenário de controle de custos, Otto considera que a correção do perfil do solo deve ser preservada. A estratégia envolve não apenas a definição das doses de calcário e gesso, mas também a incorporação adequada dos corretivos.

Em áreas de abertura, com solos mais pobres, doses superiores a 5 toneladas por hectare ou problemas com pragas, a indicação é de preparo intensivo, com alternativas como arado, grade superpesada e canteirizador. Em áreas de reforma já corrigidas e sem ocorrência de pragas de solo, podem ser adotados sistemas conservacionistas, entre eles subsolador, canteirizador e plantio direto.

Experiências apresentadas por Otto mostram que grades de 42 polegadas podem incorporar corretivos entre 30 e 35 centímetros, enquanto o arado alcança cerca de 40 centímetros. A definição do equipamento deve considerar as condições da área e a quantidade aplicada, já que elevar a dose sem melhorar sua distribuição no perfil não garante o resultado esperado.

A rotação de culturas completa esse trabalho na implantação. Dados reunidos da literatura e do setor apontam ganhos de produtividade de 10 a 15 toneladas por hectare com crotalárias, 10 toneladas com mix de culturas, entre 6 e 10 toneladas com soja e 3 toneladas com amendoim. Braquiária e milheto foram destacados principalmente pelo papel na conservação do solo.

Composto orgânico amplia opções no plantio

Outra frente abordada foi o aproveitamento de fontes orgânicas. Os resultados apresentados mostram que o posicionamento do composto interfere na resposta do canavial e deve ser considerado na definição da estratégia de aplicação.

Em dez experimentos, o uso de 15 toneladas por hectare no fundo do sulco proporcionou ganho de 16 toneladas de cana por hectare. Com a mesma dose no pós-plantio, sobre a linha e antes do quebra-lombo, o incremento foi de 10 toneladas. Na aplicação localizada em soqueira, o ganho indicado foi de 5 toneladas por hectare.

No caso da distribuição antecipada, Otto ressaltou a necessidade de precisão para que o sulco coincida com a faixa onde o composto foi depositado. Entre as alternativas apresentadas está também a aplicação pós-plantio, utilizada em algumas unidades com 15 toneladas por hectare.

Para cana-planta destinada a altas produtividades, as recomendações variam conforme a análise do solo e a produção esperada. Em áreas com expectativa superior a 140 toneladas por hectare e baixo teor de potássio, a indicação apresentada chega a 200 quilos de K2O por hectare, dos quais 80 quilos são aplicados no sulco e o restante no quebra-lombo.

Potássio ganha peso no manejo das soqueiras

Na soqueira, a referência apresentada por Otto para condições normais é de cerca de 1 quilo de nitrogênio, 0,5 quilo de P2O5 e 1,4 quilo de K2O por tonelada de cana, além de enxofre e micronutrientes. Para 2026, a estratégia admite reduzir o nitrogênio para 0,8 quilo por tonelada com Azospirillum e diminuir o fósforo, mas sem cortar potássio.

Experimentos conduzidos em nove locais ajudam a explicar essa orientação. No primeiro ano, a produtividade média passou de 96 toneladas por hectare sem K2O para 111 toneladas com a aplicação de 240 quilos por hectare. No segundo, variou de 74 para 91 toneladas por hectare entre os mesmos extremos de dose.

O professor também chamou atenção para o enxofre. Em avaliações realizadas em cinco locais, a aplicação de 50 quilos por hectare no primeiro ano resultou em ganhos de 5 a 7 toneladas de cana por hectare. No segundo, os incrementos ficaram entre 7 e 10 toneladas.

Manejo foliar segue no planejamento

A adubação foliar é outro investimento que Otto evitaria retirar do planejamento. Na apresentação, ele avaliou duas situações encontradas nas unidades, aquelas que cogitam suspender a aplicação devido ao excedente de cana e as que pretendem mantê-la para favorecer a produtividade em 2027.

“Eu manteria o pacote de adubação foliar”, afirmou. O manejo apresentado contempla três períodos, pré-seca, entre março e abril, vegetativo, entre outubro e janeiro, e pré-maturação, entre fevereiro e março.

As condições climáticas, porém, interferem na resposta. Segundo ele, a aplicação de pré-seca pode apresentar menor efeito em anos de inverno chuvoso. Entre as estratégias mostradas, o manejo vegetativo é o mais utilizado pelas unidades, enquanto a pré-maturação vem ampliando sua adoção.

Além do trabalho de campo, o grupo ligado ao professor desenvolve uma plataforma de recomendação agronômica voltada ao planejamento orçamentário de insumos. A ferramenta deverá cruzar análises de solo com diferentes níveis de investimento para gerar cenários de adubação.

Uma simulação apresentada no evento calculou custos de R$ 1.014, R$ 1.327 e R$ 1.640 por hectare para três cenários de adubação NPK. Em outro exercício, voltado à calagem, o desembolso estimado foi de R$ 4,4 milhões, R$ 6 milhões e R$ 7,5 milhões para trabalhar com saturação por bases de 70%, 75% e 80%, respectivamente.

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