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Cana-de-açúcar busca capital em cenário de juros altos

Painel no Cana Summit aponta pressão de custos e mudança estrutural

O setor de cana-de-açúcar no Centro-Sul entra em um novo ciclo de decisões financeiras em meio à alta do custo do capital, maior volatilidade de preços e pressão sobre margens. O tema foi discutido no painel “Onde a Cana-de-Açúcar entra no Mapa do Capital?”, durante o Cana Summit 2026, realizado nos dias 15 e 16 de abril, em Ribeirão Preto – SP, com participação de Guilherme Novaes Theodoro, gerente de crédito do Itaú BBA, e Matheus Cônsoli, sócio da Markestrat Group.

Cônsoli destacou que a expansão da produtividade, a renovação de canaviais e os investimentos em tecnologia seguem diretamente condicionados ao acesso a financiamento, em um ambiente mais restritivo. Segundo ele, o principal desafio do setor não está apenas na geopolítica global, mas no ambiente doméstico. “O capital vai para onde há menor risco ou maior retorno. O desafio é tornar o agro mais atrativo nesses dois pontos”, afirmou.

O executivo ressaltou que decisões como investimento em genética, irrigação e manejo exigem capital intensivo, enquanto o custo do dinheiro elevado limita o avanço tecnológico. Ele reforçou que a produtividade segue como principal fator de proteção, mas depende de variáveis como qualidade de mudas, momento de plantio e adoção de tecnologia. Nesse contexto, destacou também a mudança estrutural no financiamento no país, com o mercado de capitais superando os bancos em volume de recursos. Instrumentos como FIDCs, CRIs e CRAs ganham relevância, exigindo maior preparo de produtores e usinas para acessar esse tipo de funding.

Curto prazo mais desafiador

Theodoro detalhou o cenário financeiro e operacional do setor, com foco nos impactos mais recentes sobre margens e estrutura de capital. “As margens estão mais apertadas desde outubro e o setor de cana deixou de ser exceção dentro do agro”, afirmou.

A elevação da taxa de juros, que saiu de níveis entre 10,75% e 11% para patamares próximos de 14% a 15%, elevou o custo da dívida e aumentou a exigência de capital próprio. Projetos que antes eram viáveis com 30% a 40% de equity passaram a demandar praticamente esse nível como base. Indicadores do setor reforçam essa pressão. O CDI médio saltou de 11,3% para 14,7%, com impacto estimado em cerca de R$ 2 bilhões. A dívida líquida por tonelada avançou de 107 para 164, com projeção ao redor de 150 no próximo ciclo, enquanto as margens de EBITDA recuam de 29% para 27%.

O ambiente operacional também se tornou mais complexo. Antecipar compras de diesel e insumos garante disponibilidade, mas aumenta a necessidade de capital de giro em um momento de crédito caro. Postergar amplia a exposição à volatilidade e a riscos geopolíticos. Além disso, o avanço de recuperações judiciais e da inadimplência desde 2025 tornou o crédito mais seletivo em todo o agro.

Custos elevados e produtividade pressionada

Os custos seguem em trajetória de alta. O custo total do setor passou de R$ 47,6 bilhões para R$ 51,4 bilhões, com pressão relevante em operações agrícolas e industriais. O plantio avançou de R$ 14.358 para R$ 15.142 por hectare, enquanto o trato cultural subiu para R$ 4.485 por hectare. A produtividade recuou de 87 para 79 toneladas por hectare, com impacto direto das condições climáticas recentes. O TAH caiu de 11,7 para 10,7, e a utilização industrial recuou de 93% para 84%.

Esse cenário, segundo Cônsoli, reforça a centralidade do capital nas decisões do setor, já que ganhos de eficiência e adoção tecnológica dependem cada vez mais de acesso a financiamento em condições adequadas. Apesar disso, o mix açucareiro avançou de 50% para 57%, refletindo a busca por melhor remuneração no mercado externo.

Na safra 2026/27, cerca de 30% da produção está fixada, com preço médio de R$ 2.552 por tonelada, e 62% da carteira já apresenta algum nível de hedge, sinalizando estratégia mais ativa de gestão de risco diante da volatilidade.

Expansão do etanol de milho

No médio prazo, o avanço do etanol de milho aparece como vetor estrutural de transformação. O setor soma 34 projetos mapeados até 2030, com demanda estimada de R$ 44 bilhões em investimentos, sendo R$ 34 bilhões em Capex e R$ 10 bilhões em capital de giro. Até 2026, são previstas 13 novas unidades, com capacidade de 2,9 bilhões de litros, além de expansões que somam 0,3 bilhão de litros. Mato Grosso concentra cerca de 43% desse volume e lidera em número de projetos.

A expansão exigirá também investimentos adicionais em biomassa, estimados em cerca de R$ 7 bilhões, além de acesso a crédito de longo prazo. Linhas subsidiadas já somam R$ 5,6 bilhões aprovados por instrumentos como BNDES, Finep e Finem. Segundo Theodoro, as margens do etanol de milho seguem positivas, entre 24% e 30%, mas a viabilidade depende de logística, custo da biomassa e estrutura financeira dos projetos.

Mudança estrutural no setor

O avanço do milho tende a reduzir a sazonalidade do etanol e pressionar preços, ao mesmo tempo em que sustenta níveis elevados de produção de açúcar, inclusive em regiões mais distantes dos portos. No agro, o movimento amplia a produção de milho e sorgo, aumenta a oferta de DDG e fortalece cadeias como a de proteínas, além de impulsionar projetos de biomassa.

O cenário macro adiciona incertezas, com conflitos geopolíticos, aumento de custos e maior incidência de inadimplência. Nesse contexto, cresce a busca por linhas de financiamento de longo prazo e com taxas subsidiadas. Para Cônsoli, a capacidade de estruturar projetos com melhor equilíbrio entre risco e retorno será determinante para atrair capital em um ambiente mais seletivo.

O consenso do painel é que o fator financeiro passou a ser decisivo. A capacidade de acessar capital, estruturar projetos e sustentar investimentos em produtividade tende a definir quais players conseguirão manter competitividade nos próximos ciclos do setor sucroenergético.

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