Etanol avança como alternativa ao diesel com ganho operacional
Retrofit reduz emissões em até 98% e pode se pagar em uma safra
A substituição do diesel por etanol em máquinas pesadas do agronegócio começa a ganhar tração como alternativa técnica e econômica, com impacto direto em custos e emissões. O tema foi discutido no painel “Conversão da Utilização do Diesel para Etanol”, no Cana Summit 2026, realizado em Ribeirão Preto – SP, nos dias 15 e 16 de abril.
Moderado por José Guilherme Nogueira, CEO da ORPLANA, o painel teve como expositor Murillo Galli, executivo em bioenergia e fundador da EOX, que apresentou dados de campo e projeções sobre a adoção da tecnologia no setor.
A proposta parte de um sistema de retrofit que converte motores originalmente diesel para operar com etanol em ciclo Otto, com ajustes estruturais no funcionamento do equipamento. A abordagem busca superar limitações históricas do uso do etanol em máquinas pesadas, ao adaptar o motor ao combustível.
No diagnóstico apresentado, há uma contradição na cadeia. O Brasil produz cerca de 30 bilhões de litros de etanol por ano, mas ainda depende do diesel nas operações agrícolas. No Centro-Sul, o consumo médio na produção de cana-de-açúcar gira em torno de 300 litros por hectare, enquanto na produção de grãos varia entre 90 e 100 litros por hectare.
Desempenho e emissões sustentam avanço da tecnologia
Nos testes operacionais, os motores convertidos apresentaram redução de até 98% nas emissões de CO2, 90% no material particulado e 60% em NOx, além da eliminação de enxofre, conforme medições baseadas no protocolo GHG.
No desempenho, houve ganho de cerca de 25% na potência e 15% no torque em determinados equipamentos, com melhor resposta em baixa rotação e maior eficiência nas operações agrícolas.
A estabilidade térmica foi mantida entre 75 °C e 82 °C, com redução de 12 decibéis no ruído, o que melhora as condições de operação no campo.
Viabilidade depende de uso intensivo da máquina
O consumo varia entre 1,45 e 1,6 litro de etanol por litro de diesel substituído. Ainda assim, segundo Galli, a viabilidade econômica se mantém diante do diferencial de preços, especialmente para produtores com acesso ao biocombustível a valores mais baixos.
O investimento na conversão gira em torno de R$ 200 mil por equipamento. Em máquinas com uso entre 3 mil e 4 mil horas por ano, o retorno ocorre entre nove meses e um ano e meio, podendo se pagar em uma safra ou safra e meia.
A tecnologia pode ser aplicada em tratores, caminhões, ônibus, empilhadeiras e geradores, permitindo substituição gradual da frota, sem necessidade de troca integral dos ativos.
Escala e adoção ainda limitam expansão
A adoção ainda é mais avançada em operações ligadas ao etanol de milho e ao setor de grãos. No segmento sucroenergético, a entrada ocorre de forma mais cautelosa, com demanda por validação adicional em campo.
O potencial é significativo. O setor reúne entre 60 mil e 90 mil tratores em operação, em cerca de 8,2 milhões de hectares, com as operações representando aproximadamente 55% do custo de produção da cana-de-açúcar.
Com a expansão da oferta de etanol, que pode alcançar entre 15 bilhões e 18 bilhões de litros até 2030 considerando o avanço do milho, cresce a necessidade de novos mercados para o combustível.
Compartilhe este artigo:
Veja também:
Você também pode gostar
Confira os artigos relacionados: