Petróleo e juros elevados ampliam cautela nos mercados
Cenário externo mantém pressão sobre ativos enquanto fiscal ganha peso no Brasil
Os mercados chegam a esta sexta-feira (28) sob maior cautela, em meio aos juros de longo prazo elevados nos Estados Unidos, à valorização do petróleo e às incertezas políticas e fiscais. Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, a combinação desses fatores reduz o espaço para uma tomada de risco mais consistente pelos investidores.
Na Ásia, o desempenho das bolsas foi misto. O Nikkei avançou 0,38%, enquanto o Kospi recuou 1,79% e o índice de Xangai caiu 0,11%. Nos Estados Unidos, as atenções estão voltadas ao discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole e ao comportamento dos Treasuries, que seguem em patamares elevados.
O título do Tesouro americano de dez anos opera próximo de 4,67%, enquanto o de 30 anos ronda 5,20%. Segundo Olívia, esses níveis mantêm elevado o custo de capital para empresas, famílias e para o próprio governo dos Estados Unidos, tornando a trajetória dos juros um dos principais pontos de atenção para os ativos.
Mercado acompanha emprego e inflação nos Estados Unidos
A revisão de referência do payroll também está entre os indicadores acompanhados pelo mercado nesta sexta-feira. Os números podem alterar a avaliação sobre a força do mercado de trabalho americano e, consequentemente, as expectativas em relação ao espaço para cortes de juros.
Outro dado relevante será a expectativa de inflação da Universidade de Michigan. No mercado futuro, o Nasdaq recua 0,32%, enquanto o S&P 500 opera próximo da estabilidade. Para Olívia, a condução da política monetária dependerá também da capacidade do Federal Reserve de preservar sua credibilidade no combate à inflação.
O petróleo acrescenta pressão ao cenário. O Brent opera próximo de US$ 88 por barril e o WTI supera US$ 83, com os preços ainda incorporando prêmio de risco relacionado ao conflito entre Estados Unidos e Irã e às incertezas envolvendo o Estreito de Ormuz.
Uma eventual interrupção relevante nessa rota poderia ampliar os efeitos sobre inflação, fretes e cadeias globais de abastecimento. A manutenção das cotações em níveis elevados também reforça a atenção dos investidores sobre seus possíveis impactos na trajetória dos preços e, por consequência, sobre a política monetária.
Na Europa, o indicador de sentimento econômico da zona do euro avançou para 98,4 pontos em agosto, acima dos 97,6 esperados. Na França, porém, o Produto Interno Bruto ficou estagnado no segundo trimestre, abaixo da expectativa de crescimento de 0,2%.
Fiscal brasileiro volta ao radar dos investidores
No Brasil, o Índice Geral de Preços Mercado, o IGP-M, caiu 0,22% em agosto, depois de recuar 1,16% em julho. O resultado, porém, ficou acima da deflação de 0,30% esperada pelo mercado. O IPA-M teve queda de 0,34%, enquanto o IPC-M recuou 0,41%.
Os números contribuem para reduzir parte das pressões inflacionárias, enquanto investidores aguardam os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged, e novos indicadores de atividade. Segundo Olívia, a desaceleração da inflação pode favorecer a política monetária, mas as condições fiscais continuam relevantes para a trajetória dos juros.
A discussão sobre as contas públicas ganhou espaço depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmar que uma dívida pública próxima de 80% do PIB não seria elevada quando comparada à de países como Estados Unidos, Japão e Itália.
Para a CEO da Magno Investimentos, a comparação precisa considerar diferenças como prêmio de risco, moeda, condições de financiamento e profundidade dos mercados. Nesse contexto, além do tamanho da dívida, o custo necessário para financiá-la permanece como uma variável importante na percepção dos investidores.
O ambiente político também começa a ganhar maior peso na precificação dos ativos. A análise cita a nova rodada da pesquisa Quaest, que prevê 2.004 entrevistas. No levantamento anterior, Lula aparecia com 38% das intenções de voto contra 31% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e com 43% a 40% em uma simulação de segundo turno.
Commodities também entram no foco do mercado
Entre as commodities, o minério de ferro negociado em Cingapura sobe cerca de 0,70%, para US$ 98,45. A análise destaca ainda a percepção de risco sobre a Vale após o Supremo Tribunal Federal formar maioria pela tributação de lucros de controladas no exterior.
A Petrobras, por sua vez, tem como pano de fundo a valorização do Brent e a prorrogação por 60 dias do imposto de 12% sobre as exportações de petróleo. No setor financeiro, o Banco do Brasil enfrenta provisões maiores relacionadas ao agronegócio, enquanto o GPA busca avançar em uma recuperação extrajudicial contestada pelo Ministério Público.
A divulgação de novos indicadores de atividade e emprego deve orientar as próximas avaliações sobre a política monetária, enquanto investidores acompanham os efeitos do ambiente externo e das contas públicas sobre a percepção de risco no mercado brasileiro.
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