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Biometano ganha escala e abre nova frente para o agro brasileiro

Novos projetos ampliam uso no transporte e aproximam oferta da demanda

O mercado brasileiro de biometano começa a ganhar escala com a entrada de novas plantas, investimentos em abastecimento e maior uso do combustível no transporte pesado. Para o agronegócio, o movimento abre uma frente adicional para transformar resíduos em energia e, ao mesmo tempo, atender à busca por alternativas ao diesel em atividades nas quais a eletrificação ainda encontra limitações.

O avanço aparece nos números do setor. Em junho de 2026, o país tinha 21 plantas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, ante seis no fim de 2023, além de outras 48 em processo de autorização. Entre 2024 e 2025, a produção nacional cresceu 75%.

A distância entre a produção atual e o potencial estimado, porém, permanece elevada. A Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás) calcula que o Brasil poderia produzir 120 milhões de metros cúbicos por dia se todo o potencial técnico fosse aproveitado. A capacidade instalada está em 1,33 milhão de metros cúbicos diários.

Parte desse espaço está no campo. Resíduos e subprodutos da agroindústria podem ser destinados à produção de biogás e, após o processo de purificação, transformados em biometano. No setor sucroenergético, vinhaça e torta de filtro estão entre as matérias-primas disponíveis para essa finalidade.

Transporte pesado abre espaço para o biometano

Uma das principais oportunidades está no transporte rodoviário de cargas. Autonomia, peso das baterias, tempo de recarga e necessidade de infraestrutura ainda dificultam a eletrificação de determinadas operações pesadas, criando espaço para combustíveis renováveis capazes de substituir o diesel.

O tema ganhou destaque na Fenasucro & Agrocana 2026, realizada entre terça-feira (11) e sexta-feira (14), em Sertãozinho – SP. O biometano apareceu em discussões sobre mobilidade, infraestrutura e aproveitamento energético dos resíduos, além de aplicações comerciais já adotadas no transporte.

Entre os exemplos apresentados esteve o BioRota, da Copersucar. O programa utiliza 80 caminhões movidos a biometano que já transportaram mais de 1 milhão de toneladas de açúcar entre usinas, terminais de transbordo e o Porto de Santos.

Henrique Araújo, diretor de Relações Institucionais e Governamentais da Copersucar, destacou durante encontro do LIDE Agronegócio que a expansão dos biocombustíveis permite combinar produção agroindustrial e transição energética. “O Brasil não precisa escolher entre agronegócio, biocombustíveis e transição energética. Essas frentes podem avançar juntas e constituem ativos energéticos, ambientais e geopolíticos para o país”, afirmou.

O avanço do combustível também esteve entre os assuntos da FenaBio. Em painel sobre as perspectivas para a expansão do biogás, representantes da cadeia discutiram as condições para aumentar a produção e conectar regiões com disponibilidade de matéria-prima aos mercados consumidores.

Investimentos começam a formar novos corredores

A expansão começa a aparecer também fora das unidades produtoras. Nesta quinta-feira (20), em Uberlândia – MG, será a inauguração do primeiro posto de biometano de Minas Gerais. Instalado no Distrito Industrial, próximo à BR 050, o empreendimento da Gasgrid recebeu investimento de R$ 5 milhões.

A localização busca atender um corredor formado pela BR 050 e pela SP 330, com acesso ao Triângulo Mineiro e ao Sul de Goiás. A previsão da empresa é instalar outros dois hubs até o fim de 2027 e superar dez unidades pelo interior do país nos próximos cinco anos.

O posto deve iniciar as atividades com cerca de 20 abastecimentos por dia e tem capacidade para chegar a 80. Em simulação feita pela empresa para um caminhão que percorre 600 quilômetros diariamente, com uma combinação de 60% de biometano e 40% de gás natural, a redução estimada no custo operacional é de R$ 0,39 por quilômetro. A projeção aponta ainda cerca de 176 toneladas de CO₂ evitadas por ano para cada veículo.

Em Paulínia – SP, outra iniciativa amplia a infraestrutura disponível. A Ultragaz inaugurou uma estação própria com capacidade para fornecer até 20 mil metros cúbicos de biometano por dia e atender aproximadamente 200 caminhões. Inicialmente, o combustível será utilizado por veículos responsáveis pelo transporte de GLP.

A empresa estima que a substituição de combustíveis na operação possa evitar cerca de 960 toneladas de emissões diretas de CO₂ equivalente por ano. A estação também funciona como primeiro passo de um plano para levar o abastecimento de biometano a outras bases.

No Paraná, a Compagas assinou contrato com a Cia Verde para instalar um ponto de abastecimento de gás natural e biometano na sede da transportadora, em Araucária. A empresa de logísticas opera 36 caminhões movidos a gás e prevê incorporar outros 100 veículos à frota.

Infraestrutura será decisiva para o crescimento

Os projetos mostram que a expansão do biometano depende de uma equação diferente daquela dos combustíveis tradicionais. Grande parte da matéria-prima está distribuída pelo interior, próxima às atividades agrícolas, agroindustriais, pecuárias e de tratamento de resíduos, enquanto os consumidores podem estar a centenas de quilômetros dos locais de produção.

Nesse cenário, pontos de abastecimento e corredores logísticos ganham importância para viabilizar a demanda sem depender exclusivamente da expansão da rede de gasodutos. A aproximação entre produtores, distribuidoras, transportadoras e consumidores industriais passa a influenciar a viabilidade econômica dos novos projetos.

A regulamentação será outra variável para os próximos anos. O mercado aguarda a conclusão de etapas relacionadas ao registro e à rastreabilidade dos Certificados de Garantia de Origem de Biometano, previstos no ambiente regulatório criado pela Lei do Combustível do Futuro.

A ABiogás estima que a cadeia possa atrair R$ 246 bilhões em investimentos até 2035 e gerar 110 mil empregos. A concretização desse potencial, entretanto, dependerá da capacidade de converter projetos anunciados em produção e de levar o combustível das regiões produtoras aos corredores de transporte e aos consumidores.

Para o setor sucroenergético, a próxima etapa tende a ser definida justamente por essa conexão. Com matéria-prima disponível nas usinas e demanda crescente por combustíveis de menor intensidade de carbono, infraestrutura, escala e condições econômicas deverão determinar quanto do potencial do biometano conseguirá efetivamente chegar ao mercado nos próximos anos.

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