Stellantis vê no etanol vantagem para reduzir emissões dos veículos
Pesquisa com 671 motoristas revela espaço para ampliar o uso do combustível
A combinação entre etanol e eletrificação pode oferecer ao Brasil uma vantagem na redução das emissões de carbono do setor automotivo. Segundo a Stellantis, veículos híbridos flex abastecidos com o biocombustível podem apresentar desempenho ambiental superior ao de modelos totalmente elétricos em mercados cuja geração de energia depende de fontes fósseis.
A avaliação foi apresentada por João Irineu Medeiros, vice-presidente de Assuntos Regulatórios da Stellantis América do Sul, durante a 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, realizada nos dias 26 e 27 de outubro, em São Paulo – SP. O executivo participou, na terça-feira (27), do painel “Pesquisa para Estimular o Uso de Etanol”, mediado por Pedro Robério Nogueira, presidente na Sindicato da Indústria do Açúcar e Álcool no Estado de Alagoas e vice-presidente do Conselho Temático da Agroindústria (COAGRO) da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Para Medeiros, a comparação entre tecnologias de propulsão precisa considerar todas as etapas do ciclo de vida dos automóveis, desde a extração das matérias-primas até a fabricação, utilização e descarte ou reciclagem dos componentes. “O maior desafio da indústria automobilística em relação à descarbonização é que ela não pode ser observada apenas do que sai do escapamento, ela precisa ser olhada do berço ao túmulo”, afirmou.
Dados apresentados pelo executivo indicam que 55% das emissões consideradas na análise estão associadas à fabricação dos veículos, enquanto 45% correspondem à energia utilizada na motorização. Segundo ele, a origem da eletricidade é determinante nessa comparação, especialmente em países com maior participação de combustíveis fósseis na matriz energética.
Pesquisa revela resistência ao uso do etanol
Apesar das vantagens econômicas do etanol em determinadas regiões brasileiras, a gasolina continua sendo a escolha de muitos proprietários de veículos flex. A constatação faz parte de um levantamento conduzido pela Stellantis para compreender o comportamento dos motoristas e identificar oportunidades de ampliar o consumo do biocombustível.
O estudo acompanhou 671 clientes distribuídos pelo Brasil, com monitoramento dos abastecimentos por meio de dados de veículos conectados. Técnicos da fabricante mantiveram contato direto com os participantes para esclarecer dúvidas sobre custos, desempenho e benefícios ambientais dos combustíveis. “Tivemos o cuidado de fidelizar clientes cuja distribuição pelo Brasil representasse o consumo da frota brasileira. Então, esse foi o primeiro cuidado. O segundo é conversar direto com o cliente, sem intermediário”, explicou.
Segundo Medeiros, o acompanhamento permitiu avaliar as escolhas efetivas dos motoristas, e não apenas suas preferências declaradas. A empresa também procurou demonstrar as diferenças de custo entre gasolina e etanol, considerando as condições de cada região. “Não é uma pesquisa de simpatia. Simplesmente pegar o telefone e buscar uma informação. A gente acompanhou o comportamento do cliente com o produto e com o combustível utilizado”, destacou.
A mudança de comportamento surpreendeu a fabricante. Medeiros relatou crescimento de 50% no indicador acompanhado pela empresa, embora a transcrição não detalhe a base de comparação. Para o executivo, o resultado demonstra que existe espaço para ampliar o consumo de etanol com informações mais claras sobre as condições de abastecimento. “Achamos que ele não iria crescer, mas não que fosse crescer 50%. Significa que temos um espaço muito interessante para poder aumentar o uso do etanol”, afirmou.
Entre as dificuldades identificadas estão dúvidas sobre autonomia, necessidade de abastecimentos mais frequentes e questões técnicas associadas às primeiras gerações de motores flex, como problemas na partida a frio, já superados pelas tecnologias atuais. “Nosso estudo revelou que, onde o etanol é mais competitivo frente à gasolina, e o consumidor entendeu isso, ele não se importa em ir mais vezes ao posto para abastecer com etanol”, disse.
Stellantis mantém investimentos em novas tecnologias
A estratégia da Stellantis para a América do Sul contempla investimentos de R$ 32 bilhões até 2030, destinados ao desenvolvimento de novos produtos, modernização industrial e tecnologias de propulsão.
Entre as iniciativas está o programa Bio-Hybrid, desenvolvido com participação da engenharia brasileira, que combina motores flex com diferentes níveis de eletrificação. As soluções incluem sistemas híbridos leves de 12V e 48V, capazes de recuperar energia durante as desacelerações e auxiliar o funcionamento do motor a combustão.
“Nós temos, inclusive com o Brasil e outros parceiros da América do Sul, o desenvolvimento tecnológico que é uma constante no grau mais elevado que dispomos para descarbonização pela vertente do etanol”, afirmou.
A fabricante também considera o ambiente regulatório brasileiro importante para a continuidade dos investimentos. O executivo citou o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), o Inovar-Auto, o Rota 2030, o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover) e a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio). “O Brasil tem um mapeamento regulatório que vai da eficiência energética à segurança veicular, passando pelo RenovaBio, que estimula toda a atividade de inovação. É um espaço onde estamos em igualdade de condições a várias regiões desenvolvidas do planeta”, ressaltou.
O programa de investimentos da Stellantis na América do Sul segue até 2030 e inclui o desenvolvimento de tecnologias de eletrificação associadas aos motores flex, entre elas as arquiteturas híbridas leves de 12V e 48V.
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