Embrapa usa IA e satélites para mapear áreas irrigadas
Tecnologia identifica uso real da irrigação e avanço entre safras
A Embrapa Territorial desenvolveu um método que utiliza imagens de satélite e Inteligência Artificial (IA) para identificar áreas agrícolas efetivamente irrigadas a partir da umidade do solo. A tecnologia permite monitorar a expansão ou redução das áreas irrigadas entre diferentes safras e já está sendo aplicada em polos de Goiás e Mato Grosso.
A iniciativa foi criada para atender demandas do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), que busca ampliar o acompanhamento de políticas públicas ligadas à irrigação. O sistema utiliza imagens gratuitas do satélite Sentinel-2 e cruza informações de umidade do solo, formatos das áreas agrícolas e recursos de sensoriamento remoto com radar para identificar se a irrigação ocorreu de fato no período analisado.
Segundo o analista Rafael Mingoti, da Embrapa Territorial, o desafio era diferenciar áreas apenas equipadas para irrigação daquelas realmente irrigadas na safra. Isso porque marcas deixadas por pivôs centrais permanecem no solo por anos, mesmo sem uso. Além disso, produtores utilizam diferentes sistemas de irrigação e muitos equipamentos podem estar desativados.
Outro obstáculo estava relacionado ao clima. Em Goiás, parte da irrigação ocorre no verão, justamente durante o período chuvoso, para reduzir perdas causadas pelos veranicos. Para diferenciar a umidade gerada pela chuva daquela provocada pela irrigação, o sistema também considera padrões geométricos das áreas agrícolas, como círculos, retângulos e triângulos.
Mapeamento aponta expansão em Goiás
Além de localizar as áreas irrigadas, o método também mede com maior precisão o tamanho real de cada terreno. Em vez de calcular a área apenas pela soma de pixels das imagens, a técnica utiliza vetorização para desenhar os contornos exatos das propriedades irrigadas, reduzindo distorções.
A Embrapa Territorial já aplicou a metodologia em dois polos de irrigação de Goiás, Planalto Central e Vale do Araguaia, além de três regiões de Mato Grosso, Sul, Médio Norte e Araguaia-Xingu. Os estudos realizados em Goiás já foram entregues ao MIDR, enquanto os demais seguem em fase de validação.
No polo Central de Goiás, o levantamento apontou crescimento de 7 mil hectares de áreas irrigadas entre 2023 e 2024, com expansão registrada nos 24 municípios que compõem a região. Os dados deverão integrar o Sistema Nacional de Informações sobre Irrigação (Sinir).
Irrigação ganha peso em políticas públicas
O coordenador-geral de sustentabilidade de projetos e polos de irrigação do MIDR, Antônio Guimarães Leite, afirma que a irrigação tem papel estratégico no desenvolvimento regional e na segurança alimentar. Segundo ele, municípios que adotam a tecnologia costumam apresentar melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH).
Leite destaca ainda que, em culturas como a fruticultura, um hectare irrigado pode gerar até três empregos. O coordenador lembra que o Brasil enfrentou durante décadas dificuldades para obter dados precisos sobre irrigação, cenário que começou a mudar após o lançamento do Atlas Irrigação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em 2017.
O estudo mostrou que 98% das áreas irrigadas do País estavam fora de programas oficiais, levando o governo a estruturar políticas públicas mais organizadas para o setor. Desde 2019, polos de irrigação passaram a ser utilizados como referência para planejamento territorial e acompanhamento da expansão agrícola irrigada.
Para o MIDR, o monitoramento mais frequente permite avaliar se a expansão ocorre dentro das previsões e se há necessidade de investimentos complementares, como infraestrutura viária ou estudos para concessão de outorgas de água.
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