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Macaúba ganha espaço como matéria-prima para SAF no Brasil

Estudos apontam potencial da palmeira nativa para reduzir emissões da aviação

O óleo de macaúba desponta como uma das principais alternativas brasileiras para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês), considerado estratégico para a descarbonização do transporte aéreo. Em artigo publicado recentemente, os pesquisadores Roney Fraga Souza, professor da Faculdade de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e Ricardo Vargas-Carpintero, pesquisador do Departamento de Recursos de Base Biológica na Bioeconomia do Instituto de Ciências Agrícolas da Universidade de Hohenheim, na Alemanha, afirmam que o Brasil reúne condições naturais, científicas e tecnológicas para liderar essa cadeia produtiva.

Segundo os autores, a macaúba (Acrocomia aculeata) é uma palmeira nativa encontrada principalmente no Cerrado e em áreas de pastagem, capaz de produzir óleo destinado às indústrias de alimentos, cosméticos, biocombustíveis e, mais recentemente, ao SAF. Entre as vantagens da cultura estão a elevada produtividade de óleo por hectare, a adaptação a áreas degradadas e a possibilidade de integração com sistemas agrícolas e pecuários.

Pesquisa transformou espécie nativa em cultura comercial

O avanço da macaúba é resultado de mais de três décadas de pesquisas conduzidas por universidades e instituições brasileiras. Os autores destacam que cerca de 85% dos estudos científicos sobre a espécie indexados na base Scopus contam com participação de pesquisadores do país.

Entre os principais avanços estão a superação da dormência das sementes, que permitiu a produção de mudas em escala, e a seleção genética de plantas mais produtivas e de menor porte, fatores que viabilizaram o cultivo comercial. Com isso, a macaúba deixou de ser explorada apenas de forma extrativista e passou a integrar projetos agrícolas estruturados.

Interesse internacional impulsionou investimentos

O artigo lembra que o interesse pela macaúba ganhou força à medida que o setor de aviação buscou alternativas para reduzir emissões de carbono. Na COP28, realizada em Dubai, companhias aéreas reforçaram a meta de atingir emissões líquidas zero até 2050, consolidando o SAF como uma das principais rotas para cumprir esse compromisso.

Nesse contexto, pesquisas desenvolvidas na Alemanha identificaram a macaúba como uma das matérias-primas mais promissoras para a produção do combustível, devido ao alto rendimento de óleo e ao potencial de expansão sem necessidade de abertura de novas áreas agrícolas.

Os primeiros plantios comerciais foram conduzidos por empresas com participação de capital estrangeiro. Em 2015, a startup germano-brasileira Inocas iniciou o cultivo em escala integrado à pecuária, em áreas de pastagens degradadas em Minas Gerais. Já em 2023, a Acelen Renováveis anunciou investimentos para implantar uma biorrefinaria e cultivar 144 mil hectares de macaúba na Bahia e em Minas Gerais.

Desafio é conectar pesquisa, capital e indústria

Apesar dos avanços, Souza e Vargas-Carpintero avaliam que o principal desafio para o Brasil é acelerar a articulação entre pesquisa científica, financiamento, demanda industrial e investimentos privados. Na avaliação dos pesquisadores, o país já dispõe de programas voltados aos biocombustíveis, como o RenovaBio e o ProBioQAV, mas ainda precisa ampliar a integração entre ciência, mercado e indústria para transformar conhecimento em novos negócios.

Os autores argumentam que a trajetória da macaúba demonstra a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias ligadas à bioeconomia, assim como ocorreu anteriormente com o etanol e outros bioprodutos. Na visão deles, o fortalecimento dessa coordenação poderá acelerar o aproveitamento de novas espécies da biodiversidade nacional com potencial econômico, ampliando a participação do Brasil nas cadeias globais de combustíveis sustentáveis.

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